Uma mancha no futebol brasileiro

  • por Bráulio Silva
  • 5 Anos atrás

As brigas recentes entre torcidas no futebol brasileiro, como as ocorridas nos dois últimos domingos em Brasília acendeu o botão de alerta das autoridades. E nos fez relembrar a maior briga entre torcidas já vista num campo de futebol, no Brasil. Há 18 anos atrás, uma briga entre torcidas organizadas mancharia o futebol brasileiro.

Torcedor envolvido na briga em Brasília, esteve preso por 5 meses na Bolívia

Torcedor corinthiano envolvido na briga em Brasília, esteve preso por 5 meses na Bolívia, após a morte de Kevin Espada

Domingo, 20 de agosto de 1995. Uma manhã fria e ensolarada na cidade de São Paulo entraria para a história do futebol brasileiro. Infelizmente da pior forma possível.

Naquela manhã, os juniores de São Paulo e Palmeiras entrariam em campo para a disputa da final da Supercopa São Paulo de Futebol Júnior. O torneio fora criado pela FPF, no ano de 1994 com intuito de preencher o calendário para os jogadores sub-20, que até então só contava com a disputa da tradicionalíssima Copa São Paulo de Futebol Júnior, cuja final é disputada no dia do aniversário da cidade de São Paulo. Pelo regulamento só disputariam as equipes que já tinham sido campeãs da Copa SP.

No ano anterior, a final havia sido realizada entre Inter e Atlético-MG e o Galo sagrou-se campeão.

O Palmeiras, que nunca foi campeão da Copinha, atuou nas duas edições do torneio como equipe convidada.

O Verdão teve 100% de aproveitamento na primeira fase, quando venceu Ponte Preta, Flamengo e Juventus. Nas quartas-de-final, eliminou a Lusa, e nas semi o Grêmio. Como a base palmeirense nunca foi das melhores, o São Paulo chegava àquela decisão como favorito.

Estádio do Pacaembu foi palco de tragédia em 1995

Estádio do Pacaembu foi palco de tragédia em 1995

Dos times que entraram em campo, apenas Edmilson, que defendeu o São Paulo na ocasião, fez uma carreira vitoriosa. Pelo lado palmeirense, destaque para Rubens Junior que foi campeão da Libertadores pelo alvi-verde em 1999, como reserva de Junior.

O jogo foi disputado no Estádio do Pacaembu e sem cobrança de ingressos. Como uma área do tobogã estava interditada para obras, as duas torcidas ficaram separadas por um cordão de isolamento da PM. No dia, o estádio não recebeu mais do que 8.000 pessoas, em sua maioria jovens e com ligações com as torcidas organizadas.

Durante os 90 minutos o São Paulo foi melhor, criou mais chances e não soube finalizar. Já o Palmeiras optou por jogar no contra-ataque, mas pouco levou perigo ao gol dos são-paulinos.

Local destinado à torcida do São Paulo estava em obras, o que foi crucial para a briga.

Local destinado à torcida do São Paulo estava em obras, o que foi crucial para a briga.

A prorrogação seria disputada no sistema de morte súbita. Quem fizesse o gol, ganharia o título. Aos cinco minutos do primeiro tempo da prorrogação o torneio acabou. O atacante alvi-verde Rogério recebeu na entrada da área e chutou forte, sem chances para o goleiro do Tricolor. Era o primeiro gol que o São Paulo sofria. Era o primeiro título do Palmeiras numa competição nacional da categoria juniores.

Para festejar o título, alguns torcedores do Palmeiras invadiram o gramado e provocaram os são-paulinos que estavam do outro lado. E o que se viu a partir dali foram cenas de terror numa batalha campal que para muitos mudaria o futebol brasileiro.

102 torcedores ficaram feridos. Márcio Gasparin da Silva, com 16 anos, ficou internado em coma profundo durante 8 dias até falecer no dia 28 de agosto daquele ano.

Após o gol, torcedores brigaram com paus e pedras, numa imagem lamentável

Após o gol, torcedores brigaram com paus e pedras, numa imagem lamentável

Mesmo com vários torcedores envolvidos na briga, apenas um deles foi condenado. Trata-se do palmeirense Adalberto Benedito dos Santos, que pegou 12 anos de reclusão, que nunca foram cumpridos.

Nas semanas seguintes, as torcidas envolvidas no confronto – Torcida Independente e Mancha Verde – acabaram extintas. Fato que também nunca se consumou pois as facções sempre estão nos jogos, seja com outros nomes ou com os mesmos nomes amparados por infinitas liminares.

Em 18 anos podemos afirmar que pouca coisa mudou. O promotor Fernando Capez que tanto apareceu nos holofotes na época, atua hoje como deputado estadual pelo PSDB-SP. As famílias vão cada vez menos aos estádios. Na maioria das vezes com medo da violência, como as ocorridas em Brasília nos dois últimos domingos, que envolveu torcedores de Flamengo e São Paulo e por fim corinthianos e vascaínos.

Comentários

Paulistano, casado e com 33 anos. Apaixonado por futebol e pelo São Paulo FC. De memória privilegiada, adora relatar e debater fatos futebolísticos de outrora. Ex-estudante de jornalismo, hoje gerencia uma drogaria no município de Barueri, além de escrever para a Doentes por Futebol.