Vexame

  • por Ordep Jose Trindade Serra
  • 5 Anos atrás

vexame

Noite terrível. Primeiro me vi em uma praia deserta de que as ondas marinhas tinham recuado, como em pânico. Pensei em tsunami e cuidei de me afastar às carreiras, mas uma visão tenebrosa me paralisou: um enorme peixe esfocinhava a areia, na tentativa louca de submergir no chão que nem uma toupeira, um tatu incongruente. Quase o bicho me arrasta no seu movimento desesperado. E pior foi quando me dei conta de que aquelas areias tornadas movediças escureciam: na verdade eram cinzas, com um cheiro desgraçado de peixe frito. (Foi a primeira vez em minha vida que senti cheiro num sonho).

Quase afundo no chão cinéreo, mas de repente tudo mudou. Me vi, então, numa espécie de templo circular, com muitos nichos, uma catedral um pouco parecida com a Vila Belmiro. Os ídolos estavam cobertos por panos roxos, como se fazia antigamente na Semana da Paixão com as imagens dos santos, nos templos católicos, enquanto durava o tremendo período da morte provisória de Deus. (Ainda me lembro da sensação de alívo que eu sentia, na minha infância, quando chegava o domingo de Páscoa e tiravam aqueles sinistros panos de cima das estátuas sagradas). Pois bem, nessa noite fatídica, no templo redondo, os ídolos estavam encobertos do mesmo jeito, mas seus véus dolorosos mal lhes chegavam aos joelhos: dava para ver que calçavam chuteiras. E todos gemiam feito almas penadas, ao som de matracas. O mais agitado parecia vivo: pela voz e pelas asneiras que falava de vez em quando lembrava muito o Pelé.

Tratei de fugir. Por sorte, consegui lembrar-me de uma reza forte: sem a intervenção de meu orixá, com certeza eu não escaparia do miserê onírico: seria vítima de pavorosa morte em sonhos, pois era perseguido por todos os Caprichos de Goya. O furioso Saturno do quadro goyesco engolia um espadarte e me olhava com ar de gula. O terror tanto me achatou que me senti um linguado. As figuras monstruosas se destacavam das paredes de uma igreja oposta, que achei torvamente parecida com a Catedral da Sagrada Família, mas deformada por um antigaudi das profundas que lhe fizera a versão infernal.

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Santos x Barcelona | Imagem: Francisco de Goya

Acordei molhado de suor, trêmulo, zonzo, febril. Tateando com um grande esforço, consegui acender a luz do abajur à minha cabeceira. Dei-me conta de que estava em casa, mas sozinho – minha mulher foi a São Paulo, para uma visita a sua mãe, a querida Dona Jura. É verdade que eu tinha no quarto uma companhia feminina, mas nada complacente: Messalina, minha gata, me contemplava com ar de esfinge catalã. Não sei porque, durante pavorosa fração de segundos tive medo de que ela me confundisse com um lambari.

Rezei de novo a reza forte. Depois de benzer-me com as duas mãos, decifrei o que dizia a expressão enigmática e zombeteira da pixana. Ela miava um dito com que as senhoras de minha terra (a mágica cidade de Cachoeira) costumam fulminar a pretensão masculina: “Homem sem mulher não é gente, é traste”. Naquele duro momento, dei-lhes plena razão – à gata e às conterrâneas. Por fim me levantei e fui beber um copo d’água. Na volta, dei com os olhos na fonte de meus recentes horrores: o aparelho de televisão. Embora desligado, ele berrou em minha lembrança a notícia fatídica:

– OITO A ZERO. O SANTOS PERDEU DE OITO A ZERO PARA O BARCELONA. VEXAME BRASILEIRO NO CAMP NOU.

Ato contínuo, imagens pavorosas do triste jogo encheram a tela apagada. Voltei correndo para a cama, fechei os olhos e tentei voltar ao pesadelo, que me pareceu muito mais confortável do que a medonha realidade. Não consegui. Mas a graça divina finalmente me fez tombar em sono profundo, abissal, de uma profundeza em que os sonhos não penetram. Acordei horas depois, ouvindo pios de coruja. Levantei-me e fui à janela, curioso de ver a ave noturna que invadia a alvorada. Reparando melhor, notei que era um sabiá de canto mavioso. Corri logo para o banheiro e tomei uma ducha. Passei bons minutos lavando as orelhas para tirar-lhes a alucinação. Por fim, recobrei o ânimo.

Fui tomar café na padaria. Quis o destino que eu lá encontrasse outro torcedor do Santos. Pela primeira vez na minha vida, lamentei um encontro – geralmente muito agradável – com um correligionário de clube: é que ele olhou para mim, lembrou-se do nosso time e começou a chorar. Acenei discretamente, fazendo de conta que não ouvia seus soluços. Para maior vergonha nossa, o colega de antigas glórias foi consolado por um primo são paulino metido a generoso:

– É isso mesmo, vá se acostumando. Não senhor, não falte ao trabalho, emprego hoje tá difícil. Se quiser lhe empresto uma camisa tricolor, aí você sai disfarçado, pelo menos evita a gozação maior. Depois do que aconteceu ontem, nós do São Paulo estamos quase saindo da berlinda: o espaço foi tomado por peixes de toda a espécie.

A ajuda hipócrita foi recusada, é claro. Uma piedosa funcionária do estabelecimento acudiu o santista desolado: emprestou-lhe o avental com que o coitado cobriu o rosto e saiu às pressas, sob vaias catalãs e gargalhadas corintianas que só ele ouvia.

Eu também não demorei a voltar para casa, dando graças a Deus por ser da Boa Terra. Os paulistas, como bem mostrava meu correligionário co-padariano, são mais sensíveis em matéria de futebol, sofrem muito com essas coisas. Depois da noite hedionda, eu já me sentia recuperado, graças a ótimas lembranças recentes que o meu Bahia me proporcionou. Ousei ir ao shopping.

Na livraria, encontrei-me com os amigos da costumeira roda filosófica, em que a ironia corre o tempo todo na base do bate-pronto. Suportei com estoicismo os olhares risonhos. Fingi não entender porque Jiló me recebeu no café com a bíblia aberta, lendo as lamentações de Jeremias. Suportei o aleph, o beth e o guimel, assoviando de olhos fechados para distrair-me. Só parei ao notar que assobiava a melodia do Dies Irae do Requiem de Mozart. Por sorte Chico me alertou, dizendo que essa música não ajuda em certas situações. Jiló fingiu solidarizar-se:

– Tenha calma, homem. Vai ter revanche. Pelo contrato da venda do Neymar, haverá outro jogo entre o Barça e o Santos, dessa vez aqui no Brasil. E o Santos já contratou um novo técnico.

Priscila que ria e chorava ao mesmo tempo (é torcedora do Bahia mas também do Flamengo, há pouco teve um pequeno surto esquizoide na Fonte Nova) indagou com azoada ingenuidade:

– Quem será esse novo treinador do peixe?

– Zé do Caixão – respondeu Jiló, com uma risada de vampiro.

Por sorte, o benévolo Chico puxou outro assunto:

– Vocês viram a revelação?

Não respondi, temendo que o amigo estivesse a falar do Apocalipse, numa alusão maldosa ao jogo da véspera. Mas Chico Teoria é gente boa, logo explicou:

– Me refiro ao Alex, do Coritiba.

– Revelação? Ele é um craque dos mais rodados, já atuou em grandes clubes, aqui e no exterior. Um antigo poço de talento, experiência e bom futebol – protestou nosso amigo Periquito. – Está entre os grandes na galeria histórica do Palmeiras. Na Turquia, tem até estátua. Por acaso Você não o conhece, homem de deus? Deixe de ser alienado, Alex não é nenhum garoto.

– Claro que o conheço. Desde muito tempo aprecio seu futebol, que está cada dia mais novo, criativo e bonito. É isso que eu chamo de revelação: a novidade que amadurece, dá frutos e se reinventa. Reparem na careca luminosa do Alex, quando ele se desloca em campo com uma técnica soberba: parece um farol a indicar o bom caminho à rapaziada boleira do seu time. É ele quem infunde a divina juventude nos garotos do Coxa. Neste campeonato, ninguém o supera. Tomara que o Felipão se lembre de seu nome. Na minha sábia opinião, ele vale por Cacá e Ronaldinho juntos. Pode ser o bom velho que falta a nosso escrete.

Jiló, como sempre, falou que o mano exagerava. Logo a discussão pegou fogo e eu me envolvi nela com delícia, esquecido da catástrofe da véspera. Mas daí a pouco apareceu o Zé Mistério com uma história das suas, levando-nos de volta ao tenebroso assunto. Ele jurava que tinha tido uma visão na véspera do massacre da Catalunha, de modo que já esperava a calamidade:

– Anteontem fui rezar na igreja do bairro e passei uns tempos meditando, de olhos postos no símbolo de Cristo, que como vocês sabem é um peixe. Na igreja à qual costumo ir, esse desenho sagrado fica bem no corpo do altar. Eu rezava e contemplava, quando, de repente, me deu uma zonzeira. Fechei os olhos. No que descerrei as pálpebras, vi o peixe transformar-se num íbis.

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Símbolo do Cristianismo

 

Não suportei essa blasfêmia. Voltei imediatamente para casa, murmurando um vade retro. Na entrada do Condomínio, o Príncipe Alberto – o mais elegante dos porteiros da Boa Terra – entregou-me o jornal, recomendando que eu não lesse a página de esportes.

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Graduado em Letras pela UNB, Mestre em Antropologia Social pela UNB e Doutor em Antropologia pela USP. Professor Associado do Departamento de Antropologia da FFCH / UFBA. Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFBA; Prof. participante do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFBA. Membro da Associação Brasileira de Antropologia, da SBPC, da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos e da Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia. Membro fundador do Grupo de Pesquisa “Encruzilhada dos Saberes”. Fundador e Coordenador do Grupo Hermes de Pesquisa e Promoção Social e do Movimento Vozes de Salvador. Produção principal em Antropologia da Religião, Antropologia das Sociedades Clássicas, Etnobotânica, Teoria Antropológica. Tradutor de textos científicos e literários. Escritor premiado três vezes em concursos nacionais de literatura, com obras de ficção (conto, novela).