A Estrela de Davi e o Piloto do Vendaval

  • por Ordep Jose Trindade Serra
  • 7 Anos atrás

A Copa de 1974 trouxe muita raiva e decepção para os brasileiros. A nossa seleção estava longe da equipe maravilhosa do tricampeonato. É verdade que ainda tinha grandes craques, mas  faltava ao time a mágica harmonia de outros tempos. O nosso técnico, Zagallo, achava-se em mau momento. Sua imaginação estratégica, que foi decisiva em 1970, parecia estrangulada, paralisada, acometida por uma timidez inexplicável. O time foi inibido por uma obsessão defensiva que o descaracterizava, tolhia sua tendência natural. Francamente não sei o que teve o maestro. Não quero ser injusto com esse grande técnico: ele foi tricampeão com méritos. Mas na Copa em que entrou laureado, parecia um tanto caduco. Sua seleção perdeu a leveza, a alegria de tempos atrás.

Não era só nosso técnico que falhava. O futebol brasileiro parecia escorregar da sua altura eminente, não conseguia sustentar-se com firmeza na cumeada que alcançara. Suas assombrosas forças tinha adormecido, mergulhado num passageiro, mas bem visível letargo. Já não havia em campo o gênio de Pelé, de Gérson, de Tostão. Rivelino ainda brilhava, porém com menos eletricidade. Jairzinho era um furacão aprisionado na caverna de um esquema rígido, petrificante.

Entendam: com os craques que tínhamos no país, seria possível montar duas ou três seleções de bom nível; mas faltava a centelha, o raio da criatividade, a explosão da fantasia. Naquele tempo de viragem, a imaginação mudou de lugar no espaço do futebol.

 Acredito que os argentinos sentiram a mesma coisa. Sua fonte não secou, mas até parecia congelada. A grande arte sulamericana sofria um momentâneo declínio. A faísca acendeu-se do outro lado do Atlântico, nas terras baixas da Holanda.

Sim, reconheço que naquele momento os holandeses eram superiores no futebol. Apesar disso, digo sem receio: no confronto das nossas seleções na Copa de 1974 eles não triunfaram de modo convincente. Um juiz bisonho e parcial lhes prestou grande ajuda. Assim, o que poderia ser um espetáculo maravilhoso entre dois grandes times foi empanado por erros de arbitragem e muito prejudicado pela violência reinante em campo.

Repito: o Brasil não vinha bem. Apesar das vitórias sobre a Alemanha Oriental e a Argentina, todos sentiam que faltava muito para o canário voar. O fato, porém, é que no jogo com a Holanda nosso time mostrou qualidade, pelo menos no primeiro tempo. Uma arbitragem correta e um clima de fair play poderiam ter propiciado um bonito duelo. Ainda assim, manda a justiça que se reconheça: venceu o melhor, embora não do modo melhor.

Confesso que fiquei com raiva. Amaldiçoei a laranja mecânica, o carrossel que nos atropelou. E xinguei os nossos canários, que depois fizeram um jogo apático na disputa do terceiro lugar (perdemos por 1 a zero para a Polônia). Coisas de torcedor: fui inclemente  com os nossos e injusto com os batavos. Só depois, pela graça do tempo, reconquistei a serenidade e pude apreciar plenamente a beleza do futebol holandês, que teve nessa Copa um momento de esplendor.

Nem sempre o sucesso coroa os melhores. Nos idos de 1974, a seleção da Holanda é que trazia a renovação, brilhava com fogo criativo, operava uma revolução artística no campo da bola. Todos já a viam com a taça na mão. Na final, porém, prevaleceu a Alemanha.

E com justiça.

O que acabo de dizer tem um forte sabor de paradoxo. Paciência: lembrem-se os leitores de que paradoxos não são raros no esporte caprichoso de cujo mistério nós, com muita honra, nos confessamos doentes. Acreditem, é a pura verdade – e os tapes estão aí para confirmá-lo -: naquela partida esquisita, a Alemanha mereceu ganhar, embora a Holanda merecesse a taça. A turma da laranja tinha uma arte superior. Disso não há dúvida. Mas digo e repito: os alemães jogaram melhor na tremenda final. No segundo tempo, seu futebol de dragão metódico injetou uma espécie de curare na equipe batava. Travou o carrossel.

Surpresa global: no começo da partida, todos tinham por certa a vitória holandesa. Logo de saída, os favoritos fizeram o primeiro gol, de pênalti bem marcado. A jogada foi prodigiosa: os alucinantes batavos trocaram quinze passes sem que alemão algum tocasse na bola. Assim ela chegou a Cruijff, que invadiu furiosamente a intermediária germânica e tinha o gol a sua mercê quando foi atropelado por um carrinho criminoso de Hoenness. Neeskens chutou com precisão: um a zero, em menos de um minuto.

No mundo inteiro, imaginou-se a partida liquidada. Só os alemães não acreditaram nessa fatalidade. Nem de longe se abateram. Quem pensou que a Holanda tomaria conta da partida teve uma surpresa: desenrolou-se um jogo duríssimo. Aos vinte e cinco minutos veio o empate, também de pênalti. E quase no fim da primeira etapa Müller fez o gol da vitória alemã. Os holandeses ainda lutaram no segundo tempo, mas seu astro máximo sofreu uma eclipse. O momentâneo ocaso de Cruijff representou a derrota de sua equipe. Ainda assim, ele saiu de campo consagrado. O mundo inteiro o reverenciou como a grande estrela futebolística da época.

Cruijff já era reconhecido na Europa, considerado com justiça o jogador mais versátil e completo, o astro do continente. Não é pouco para um contemporâneo de Beckenbauer, mas ele merecia um status ainda maior: merecia, já, o título de melhor do mundo, por seu esplêndido futebol, refinado, surpreendente, de uma inteligência tática extraordinária. Era ele que fazia girar o carrossel. Era o piloto do vendaval. Seus pés escreviam o motto da dança mágica de sua equipe, que atordoava os adversários com deslocamentos inesperados, com trocas de posição estonteantes, numa anarquia criativa e terrivelmente lúcida.

 Cruijff tinha a seu lado grandes craques, inteligentes e flexíveis, capazes de ajustar-se a esse arranjo inédito; mas dele procedia a afinação. O genial Rinus Michels era o maestro a dirigir fora de campo a novíssima orquestra, mas o spalla, o virtuose que a fazia vibrar em concertos  esplêndidos – no Ajax, no Barcelona e na Seleção dos Países Baixos – chamava-se Johann Cruijff. Todos os amantes do futebol, pelo mundo afora, todos os que adoecem gloriosamente dessa paixão, sentem-se gratos aos imaginosos mestres holandeses que levaram para o campo das partidas oficiais a inspiração subversiva das peladas. Cruijff pontificou entre inovadores. E marcou o esporte para sempre. Foi o Picasso do futebol.

Por sua causa, tornei-me um fan do Ajax, o clube fantástico que incorporou a mística judaica ao simbolismo de suas manifestações, mostrando espontânea solidariedade com as antigas vítimas do Holocausto. Fiquei surpreso ao saber que Cruijff não é judeu mas o admirei também por sua bela atitude, que a muitos pareceu bizarra: é digno do máximo respeito o empenho desse atleta genial em marcar posição em favor de gente muito hostilizada, numa Europa onde ainda viceja,  às escuras, a estupidez do antisemitismo. (Espero, agora, que em algum lugar do mundo um craque com o mesmo brilho e coragem abrace os palestinos). Transportada pelo Ajax, fulgurante no coração generoso de Cruijff, a estrela de Davi brilhou como nunca nos campos de futebol.

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Graduado em Letras pela UNB, Mestre em Antropologia Social pela UNB e Doutor em Antropologia pela USP. Professor Associado do Departamento de Antropologia da FFCH / UFBA. Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFBA; Prof. participante do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFBA. Membro da Associação Brasileira de Antropologia, da SBPC, da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos e da Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia. Membro fundador do Grupo de Pesquisa “Encruzilhada dos Saberes”. Fundador e Coordenador do Grupo Hermes de Pesquisa e Promoção Social e do Movimento Vozes de Salvador. Produção principal em Antropologia da Religião, Antropologia das Sociedades Clássicas, Etnobotânica, Teoria Antropológica. Tradutor de textos científicos e literários. Escritor premiado três vezes em concursos nacionais de literatura, com obras de ficção (conto, novela).