Apelo aos torcedores

  • por Ordep Jose Trindade Serra
  • 6 Anos atrás

Todos gostaram, imagino, do último jogo do nosso escrete contra a bisonha equipe da Austrália. Sim, é verdade que a seleção australiana não representa uma força do futebol, está longe disso. Em termos técnicos e táticos, fica lá em baixo. Não tem um time competitivo, um padrão de jogo subsistente. Mostra-se aplicada na marcação, nada mais. Foi envolvida com  extrema facilidade. Não oferece perigo para qualquer equipe pouco acima da média. A desigualdade de forças ficou evidente. Mesmo assim, eu achei que o teste foi válido: no mínimo, resultou um bom treino de ataque contra defesa. Nossos craques mostraram gana, empenho, vontade de vencer – coisas que faltaram no lamentável jogo contra a Suíça, em que todos eles pareciam fora de forma, travados, narcotizados. Aí está: a seleção suíça tampouco representa uma força do futebol, não é lá grande coisa. Mas derrotou nosso time. Concluo que houve progresso, como diria o nobre Conselheiro Acácio. Embora o adversário deste sábado tenha deixado a desejar, não concordo com os amigos que zombaram da fácil vitória dos nossos canarinhos. Jiló, por exemplo, desdenhou:

– Essa partida não prova nada. Atropelar canguru não é vantagem.

No entanto, ele não é sincero quando diz que se cansou do jogo: assistiu até o fim, com atenção e prazer mal disfarçado.

Dou-lhe razão quando Jiló afirma que jogo bom é jogo duro. Não foi o caso, certamente.  E subscrevo seu argumento: nesse rico sábado, coisas mais importantes aconteceram. Basta lembrar que o estádio Mané Garrincha estava praticamente vazio.

Em outros tempos, um jogo da seleção brasileira, num feriado, em preparação para a Copa do Mundo, atrairia um grande público. Mesmo sabendo-se da fragilidade do adversário, a praça de esportes ficaria cheia. Pois todos estão curiosos, querendo saber como anda a equipe, quem se destaca e quem se apaga nessa etapa, como está a desenhar-se o time definitivo para o campeonato mundial. Cada passo dos jogadores seria acompanhado com atenção de pesquisadores. E renderia longos comentários.

Dá-se, porém, que a circunstância era outra, havia questões de maior vulto em discussão fora do estádio. Os protestos que animaram o Sete de Setembro mobilizaram multidão e polícia em diversos pontos do país. De novo, sucederam-se embates, choques, repressão, agitação, manifestações de todo o tipo, com um diapasão variado, da crítica zombeteira ao quebra-quebra.

Era de esperar.  Ao contrário do ocorrido na altura da Copa das Confederações, dessa vez não houve surpresa. A Presidente da República preferia ficar longe, lá na Rússia, olhando para a cara sem graça de Putin, mas mudou de ideia. Assistiu ao desfile com cara de repolho. A polícia tomou as cautelas que pôde, preparou-se, tentou de todos os modos bloquear os movimentos do pessoal inflamado. Não se pode dizer que teve muito sucesso. O Sete de Setembro foi mais de protesto que de celebração.

Não foi o clássico desfile militar que atraiu as atenções. A ira superou o embevecimento programado.  Impossível tapar o sol com a peneira: de novo ficou patente a grande insatisfação do povo com os governantes, com o tratamento que vem sendo dado à coisa pública em diversas instâncias de governo. O desgaste da classe política, dos partidos em geral, dos mandatários de todos os matizes, ficou mais uma vez  evidente.

Pudera: depois dos protestos de junho, era de esperar que os políticos mostrassem pelo menos uma certa prudência. Mas em vez disso foi a impudência que eles deixaram escancarar-se no Congresso Nacional. Quando os deputados decidiram que um bandido condenado por intensa roubalheira merecia o mesmo título e tinha a mesma dignidade que eles não insultaram apena a si mesmos, ofenderam o povo todo.

De resto, ninguém é cego: a as reivindicações levadas à praça nos idos de junho com tanto vigor que espantou o mundo foram geralmente acolhidas de forma leviana, simplista e demagógica. Diante desse quadro, em pleno dia da Independência que ainda procuramos, a seleção não podia mesmo centralizar as atenções do povo. Nossa  gente continua a gostar de futebol, mas não aceita nem admite que usem o esporte para fazê-lo de bobo.

Volto a meu apelo: vamos lutar pela democratização da nossa vida esportiva. Com isso, podem ter certeza, o Brasil vai melhorar. A injustiça e a roubalheira que os cartolas protagonizam é atraso de vida para todos nós.

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Graduado em Letras pela UNB, Mestre em Antropologia Social pela UNB e Doutor em Antropologia pela USP. Professor Associado do Departamento de Antropologia da FFCH / UFBA. Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFBA; Prof. participante do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFBA. Membro da Associação Brasileira de Antropologia, da SBPC, da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos e da Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia. Membro fundador do Grupo de Pesquisa “Encruzilhada dos Saberes”. Fundador e Coordenador do Grupo Hermes de Pesquisa e Promoção Social e do Movimento Vozes de Salvador. Produção principal em Antropologia da Religião, Antropologia das Sociedades Clássicas, Etnobotânica, Teoria Antropológica. Tradutor de textos científicos e literários. Escritor premiado três vezes em concursos nacionais de literatura, com obras de ficção (conto, novela).