O despertar de uma classe: jogadores se engajam por um novo calendário

bom senso fc

Conteúdo postado originalmente na Seleção do Rádio.

Ao que parece, a CBF encontrará alguma resistência ao calendário que propôs para a temporada 2014. A Copa do Mundo forçará a entidade a parar suas atividades durante um mês e meio – do início de junho ao meio de julho -, e em virtude dessa pausa, o ano começaria mais cedo para os clubes: o que acarretaria uma pré-temporada de menos de cinco dias. Uma decisão que foi tomada de forma autoritária, sem ouvir representantes da classe profissional que ganha o seu pão no que a maioria das pessoas vê como circo. Contra essa medida, um grupo de 75 jogadores que atuam nas Séries A e B se uniu para tentar participar do debate e levá-lo ao público que acompanha o esporte.

Um dos líderes do Bom Senso FC, nome adotado pelo grupo, é o meia Alex, do Coritiba, que desde sua volta ao Coritiba tem reclamado bastante sobre as condições do futebol no Brasil. Essas suas declarações têm gerado muita insatisfação entre os poderosos do esporte, mas até pouco tempo eram gritos solitários. Com a proposta de calendário para 2014 feita pela CBF outros jogadores também resolveram se manifestar e se associar à causa, que agora abrange outros temas, como férias e até mesmo o ”fair play” financeiro, para impedir que os clubes terminem uma temporada devendo a seus jogadores.

Os 75 atletas propõem três formatos para o Brasileirão: um deles seria a adequação ao modelo europeu, com a temporada se iniciando no meio do ano. Os outros dois seriam ideias para mexer no esquema atual, enxugando as datas de jogos. O grupo já construiu um forte aparato nas mídias sociais, com mais de 10 mil seguidores no Facebook em apenas três dias, e deve se reunir na próxima segunda-feira, em São Paulo, para decidir que rumos tomar.

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Marquinhos (à direita), ex-jogador e comentarista, elogiou a iniciativa dos jogadores. | Foto: Acervo pessoal

MARQUINHOS: “PASSO À FRENTE”

Para o ex-jogador Marquinhos, que teve passagens por Botafogo, Fluminense e pelos três grandes clubes pernambucanos, os atletas estão tomando uma grande iniciativa no sentido de melhorar o nível do futebol praticado no país. O hoje comentarista da Seleção do Rádio nos ouviu e fez alguns comentários sobre a novidade que, para ele, é motivo de muita comemoração.

No futebol, é cada um por si

“A classe dos jogadores de futebol é uma das mais desunidas do país, e pela primeira vez, eles estão procurando essa união. É um passo que a classe está dando. Se ela soubesse a força que tem, não teria que passar por várias das dificuldades que enfrenta”.

Bom exemplo no Sindicato carioca

“Alfredo Sampaio (hoje vice-presidente da Fenapaf – Federação Nacional dos Atletas Profissionais de Futebol), quando presidente do Sindicato do Rio, conseguiu criar uma estrutura muito boa para dar assistência a jogadores desempregados, com trabalho de musculação, de recuperação de lesões e até mesmo uma assessoria jurídica”

Medo de reclamar

“Eu já participei de grupos em que íamos reivindicar alguma coisa ao presidente, às vezes até a insatisfação era do grupo todo. E quando nos reuníamos para falar com o presidente, só dois ou três davam as caras. O resto sumia, com medo de retaliações”.

As pressões do dinheiro

“Às vezes, quando o atleta assina um contrato muito grande, ele se sente pressionado e intimidado para reivindicar alguma coisa que, muitas vezes, está estabelecida no próprio contrato”.

Pelo direito à recuperação física

“Na minha carreira, eu já cheguei a jogar quatro partidas por semana. Se o time tem uma estrutura boa, o jogador consegue se recuperar, mas se não há essa estrutura, ele encontra muitas dificuldades”.

“A gente vê vários jogadores oscilando, tendo quedas de desempenho. E logo a torcida pensa que o cara está na noite, bebendo, ou que está jogando de má vontade. Mas muitas vezes, o atleta simplesmente está sobrecarregado. A gente está falando de seres humanos”.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.