O esvaziamento dos estádios brasileiros

  • por Leandro Bruning Canton
  • 8 Anos atrás

Cerca de 14.500 pessoas, essa é a média do público pagante do campeonato brasileiro. Número equivalente a uma ocupação média dos estádios de 38%, muito pouco para o autointitulado “país do futebol”.

Muitos se perguntam o porquê dos estádios brasileiros estarem tão vazios. Nesse artigo, levantaremos algumas hipóteses sobre os principais motivos por trás do esvaziamento desse fenômeno.

A grande maioria dos torcedores brasileiros baseia sua ida aos estádios no tripé segurança – conforto – preço. Outros fatores, como a qualidade dos times, o momento que vivem dentro do campeonato e a importância dos jogos, também são relevantes, mas aqui trataremos apenas dos três primeiros.

Começamos pelo item “segurança”, que vem sendo muito discutido nessas últimas semanas em função das brigas entre torcidas organizadas em dois jogos ocorridos na cidade de Brasília. A segurança dentro dos estádios normalmente é bem feita, com exceção de alguns jogos (como Vasco x Corinthians em Brasília esse ano ou Coritiba x Fluminense em Curitiba em 2009). A grande maioria dos problemas acontece da porta pra fora das arenas. São incontáveis os relados de confusões na entrada ou na saída dos jogos, tanto entre torcidas rivais quanto entre fãs do mesmo time.

Foto: globoesporte.com - Confronto entre torcedores de Vasco e Corinthians em Brasília gerou espanto em todo o Brasil

Foto: globoesporte.com – Confronto entre torcedores de Vasco e Corinthians em Brasília gerou espanto em todo o Brasil

Outro ponto crítico com relação à segurança é o uso de meios de transporte públicos para chegar ou sair dos estádios. Mesmo em jogos que não envolvem times da mesma cidade, ocorrem emboscadas entre torcidas, gerando depredação do patrimônio público e feridos.

Algumas soluções possíveis para o problema da segurança são: aumento do número de policiais e segurança privada dentro e no entorno dos estádios; qualificação desses profissionais para trabalhar neste tipo de ambiente; monitoramento das torcidas organizadas em jogos de seus clubes e de clubes rivais; e, principalmente, a identificação e punição adequada dos envolvidos em atos de vandalismo e agressão.

A segunda perna do tripé é o conforto. Este item teve uma grande melhora nos últimos anos graças, principalmente, às reformas dos estádios que sediarão a Copa do Mundo de 2014 (algumas arenas que não receberão jogos do mundial também foram melhoradas). Um jogo de futebol é, antes de mais nada, uma forma entretenimento, como uma sessão de cinema. Para ir ao cinema, você pode comprar seu ingresso pela internet, pegar seu carro, ir até um shopping, deixar o carro no estacionamento, andar poucos metros até a entrada, comprar sua pipoca, assistir ao filme num assento previamente selecionado, numa poltrona confortável e em um ambiente com ar condicionado, sair do cinema, andar poucos metros até seu carro e ir para casa sem nenhum problema.

Para ir a um jogo de futebol no Brasil, muitas vezes não é possível comprar o ingresso antecipadamente pela internet. Os que preferem ir de carro, precisam sair muito mais cedo que o horário da partida para não estacionar muito longe. Quem opta pelo transporte público, sofre com sua falta de qualidade, o preço da passagem e a distância entre a estação do ônibus ou do metrô e o estádio. Chegando ao estádio, o torcedor precisa entrar muito cedo para encontrar um bom local, pois o assento, que teoricamente seria marcado, provavemente estará ocupado por outra pessoa. Durante os 90 minutos do jogo, em muitos estádios brasileiros, o torcedor fica em pé, ou sentado no concreto das arquibancadas, embaixo de chuva e a mercê do frio ou calor. Para sair do jogo, mais problemas. Alguns jogos terminam à meia-noite de dias úteis, fazendo com que o torcedor chegue à 01:00 a.m. em casa, ou tenha que conseguir um táxi (muitas linhas de ônibus deixam de circular antes disso).

Foto: uol.com.br - A Arena Pernambuco, em Recife, é muito moderna e confortável, mas a dificuldade de acesso à ela faz com que o estádio fique bastante vazio

Foto: uol.com.br – A moderna e confortável Arena Pernambuco, em Recife, poucas vezes tem bons públicos devido à sua dificuldade de acesso

Algumas soluções para estes problemas aos poucos vão sendo realizadas, como as reformas ou construções de novos estádios, aumento de vias de acesso e otimização das linhas transporte público na ocasião dos jogos. Mas alguns pontos, como o horário das partidas, parecem cada vez mais longe de serem resolvidos. Quem determina a hora do jogo são as emissoras de Tv, em função da comodidade para sua grade de programação e em detrimento do torcedor – os clubes ficam à mercê dessas decisões, uma vez que sua principal fonte de receita são os valores pagos pelas emissoras.

O último ponto a ser analisado é o preço dos ingressos. Estudos mostram que o valor médio dos ingressos mais baratos do futebol brasileiro saltou de R$15,00 em 2008 para R$58,00 em 2013, um aumento absurdo, mesmo levando em consideração a modernização dos estádios nestes 5 anos.
Traçando um paralelo novamente com o cinema, percebemos o quão alto é este valor. A sessão mais cara semanal, na maioria dos cinemas brasileiros, não chega a R$30,00, pouco mais da metade do valor médio do ingresso mais barato do futebol brasileiro.
Um dos únicos clubes brasileiros, se não o único, a ter uma boa média de público (30 mil pagantes por jogo), com uma boa média de ocupação do estádio (80%), é o Corinthians, que cobra um ingresso médio de R$38,00, valor bem parecido à sessão cinema citada acima.

Foto: abril.com.br - Com ingressos acessíveis e time competitivo, Corinthians quase sempre lota o Pacaembu em seus jogos

Foto: abril.com.br – Com ingressos acessíveis e time competitivo, Corinthians quase sempre lota o Pacaembu em seus jogos

Alguns clubes atenuam este cenário oferecendo ao público planos de sócios-torcedores nos quais é possível pagar um valor menor de ingresso, ou até obter gratuidade, mediante o pagamento da mensalidade, derrubando o valor médio dos ingressos de R$58,00 para cerca de R$25,00. O grande problema é que o torcedor mais humilde, que não tem condições de arcar com a mensalidade, é excluído desse tipo de oportunidade. Este torcedor provavelmente irá apenas a uma partida de decisão de campeonato, se tanto.

Foto: estadao.com.br - Com preços de ingressos muito elevados, o Maracanã não vem recebendo bons públicos

Foto: estadao.com.br – Com preços de ingressos muito elevados, o Maracanã não vem recebendo bons públicos

É importante entender também que, mesmo que o estádio não seja confortável, que os meios de transporte sejam desfavoráveis, que o ingresso seja caro e que não haja segurança garantida, se o time estiver num bom momento, na parte de cima da tabela, ou disputando o título de uma competição, o torcedor irá ao estádio. O problema no Brasil acontece nos jogos comuns, com o clube no meio da tabela, sem nenhum grande incentivo. Em países como a Alemanha, por exemplo, as torcidas comparecem ao estádio durante todo o campeonato, mesmo que o time não esteja entre os primeiros: o Fortuna Dusseldorf e Stuttgart, 17º e 12º colocados no último campeonato alemão respectivamente, tiveram uma média de público de 46 mil e 50 mil torcedores, com uma ocupação média de 96% e 83% de seus estádios.

As resoluções dos fatores que geram esse vazio nos estádios brasileiros não está na mão apenas dos clubes. É necessário que os órgãos responsáveis pelo restante das questões sejam pressionados e façam sua parte para possibilitar o aumento o público nos estádios. Nada mais bonito e empolgante que um estádio lotado, empurrando o time para a vitória.

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