Orfeu, Obama e o Grêmio Esportivo Renner

OBAMA ORFEU NEGRO E RENNER

Como o futebol gaúcho da década de 50 foi responsável pelo nascimento de um dos maiores ícones da política internacional:

O futebol tem histórias bonitas, que muitas vezes são maravilhosas. Essas maravilhas têm, muitas vezes, o caráter de serem fantásticas. E essas fantasias são, muitas vezes, transcendentais. A história que eu vou contar hoje é, como verão, transcendental. É a história de como o futebol gaúcho da década de 50 influenciou no nascimento de um dos maiores ícones da atual política global.

Alguns vão pensar: “ih, olha lá o Matheus, tomou chá de fita cassete achando que era de camomila de novo”. Não os culpo, não os culpo! Porém peço que se deixem levar pela, possivelmente, mais alucinante história futebolística do mundo.

Na áurea década de 50, quando o Grêmio contava com Foguinho na sua casamata, aquele que – dizem – foi melhor que Pelé e intercambiava o pavilhão do antigo estádio da Baixada por um zagueiro, oriundo do Força e Luz, tal de Airton, e o Internacional já havia consolidado seu “rolo compressor”, um esquadro chegou a peitar firme os dois hoje manda chuvas porto-alegrenses. Vocês sabem quem foi o campeão gaúcho de 1954?

Exatamente. Foi o heroico Grêmio Esportivo Renner.

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Fonte: escudosonline.com


O Renner foi um clube de fábrica, estratégia clássica dos chefões de indústrias em todo o mundo na história do futebol. A lógica não é difícil: é preferível exercitar os valores de companheirismo do esporte, que reproduz por vias tortas uma linha de produção, a ter os operários esbravejando e xingando o chefe numa taverna ou sindicato – não que uma opção eliminasse a outra.

Daquela histórica campanha do Renner, vários destacados atletas seguiram rumos diferentes, passando tanto pela dupla de Porto Alegre como por distintos esquadros brasileiros, caso de Ênio Andrade e do goleiro Valdir. Um deles alcançou as glórias de jogar pelo tricolor carioca. O centroavante Breno Mello, um negro robusto, esbelto, forte, que vestiu as cores do Fluminense no final daquela década.

Ao mesmo tempo, a peça do nosso magnífico Vinicius de Moraes, O Orfeu do Carnaval, era aclamado sucesso mundial, o que logo resultou na produção de um filme. Todavia, os produtores encontraram um desafio maior que transcrever tamanha obra-prima para as telas do cinema: buscar um ator para o papel de Orfeu. O Brasil, país racista então e país racista hoje, não contava com grandes atores negros. O portunhol do diretor francês Marcel Camus procurava sem êxito sua estrela mór dentre os artistas do Rio de Janeiro, até que uma caminhada pela praia o levou a encontrar a figura perfeita: um negro esbelto, robusto, musculoso, magnífico.

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Breno em seus tempos de Renner.
Foto: terceirotempo.bol.uol.com.br/

Breno Mello admitiu, anos depois, ter pensado que a abordagem do francês fosse uma cantada homossexual. Ledo engano. Se Albert Camus deve ao futebol tudo que aprendeu sobre a moral e a honra, Marcel Camus deve ao futebol, e ao Renner, o encontro com o centroavante, digo, ATOR DE CINEMA, Breno Melo.

Depois de uma trama bem-sucedida com o esquadro carioca, o Fluminense liberou o atacante para gravar o filme. Mundo afora, Carmen Miranda equilibrava suas frutas, Sinatra gravava com Jobim e a cultura brasileira ganhava o globo. Não é então de se surpreender meus caros, que a produção franco-brasileira, que contou no seu elenco com a atriz norte-americana Marpessa Dawn e outro esportista, Adhemar Ferreira da Silva, campeão olímpico do salto tripo, tenha sido um sucesso.


E quando o filme invadiu os Estados Unidos com a força que os Estados Unidos invadiam o Vietnã, milhares, quiçá milhões de pessoas fizeram fila para assisti-lo. No meio de tantos números, uma estudante de classe média-alta se destaca. Ela não só viu o filme, como o amou – e ela não só amou o filme, como amou aquele ator, negro, esbelto, robusto, forte, maravilhoso. Naquele dia, Stanley Ann Dunham fez uma promessa para si mesma: ela apenas se casaria com um negro que fosse tão esplendidamente belo como Breno Mello.

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A beleza de Breno Mello encantou a mãe de Obama.
Foto: image.toutlecine.com/

E essa moça de classe média-alta, estudante, apaixonada pelo centroavante do grande campeão gaúcho de 1954 se tornou mãe de um rapaz que conquistou um título quase tão glorificante quanto o gauchão.

Ela é a mãe de Barack Obama.

Stanley Ann, após ver o filme em Chicago, se mudou para o Havaí, onde conheceu Barack Hussein Obama. Essa união gerou o atual presidente dos Estados Unidos, que foi obrigado pela mãe a assistir o Orfeu Negro.

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Sorria mesmo, Obama Senior! Graças a Breno Mello e seu Orfeu, Barack pai conseguiu uma namorada e geraria o futuro presidente dos USA.
Foto: http://media.npr.org/

Vocês provavelmente concluirão que o meu chá de fita cassete continha também algo consistentemente radioativo que afetou meus juízos – como se esses fossem plenos -, porém peço-lhes mais uma vez calma! Essa tão transcendental história foi narrada, por cima, pelo Obama na sua autobiografia e contada em detalhes por Fernando Jorge, no livro “Se não fosse o Brasil, jamais Barack Obama teria nascido”.

Ter falecido no bairro de nome Tristeza, na capital gaúcha, em 2008, nunca apagará a alegria que Breno Mello trouxe aos campos de futebol, às salas de cinema e aos amantes, tanto do futebol, quanto de extraordinárias histórias, que nos recordam como o mundo é “robustamente” pequeno e a magia, esbeltamente gigante.

Foto: http://lucianogasparini.files.wordpress.com/

Foto: http://lucianogasparini.files.wordpress.com/

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Antropólogo, fanático por relações internacionais, direitos humanos, literatura e, óbvio, Doente por Futebol. Além de colunista para o DPF, escrevo para o fã clube Borussia Dortmund Südbrasilien e no projeto latinoamericano Goltura Futebol. Jogo de segundo volante.