Samir, sorte ou revés rubro-negro

  • por Fernando Carreteiro
  • 5 Anos atrás

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Do dicionário: Sorte; significado: acaso, ventura, Quando uma idéia ou meta dá certo, sem planejamento algum.

Relendo o significado acima da palavra sorte, podemos definir a chegada de Samir ao Flamengo. Um zagueiro promissor, moldado e desenvolvido pelo rival Fluminense por cinco anos, surge, desacreditado, à porta do Ninho do Urubu. Dispensado de Xerém por ter excesso de peso, o jovem Samir chegou a pensar em largar o futebol. Estava convicto quando sua mãe resolveu bater à porta de outros clubes cariocas. Foi assim que o Sendas, hoje conhecido como Audax, lhe abriu as portas para que tentasse retomar o sonho do adolescente “gordinho” de ser jogador. Rapidamente apareceu a oportunidade de se transferir para o Flamengo, e Samir não relutou em se juntar à base do clube da Gávea. Depois de uma excelente temporada pelos juniores, com convocações para a seleção de base e premiações individuais, o zagueiro foi integrado ao grupo principal. A primeira meta de Samir acabava de ser alcançada. Meta que deu certo, só que em outro lugar, longe (ou não tão longe assim) do plano original. Por um desvio do destino, Samir não estava treinando ao lado de Fred, Jean, Cavalieri, etc. Sem ter feito um planejamento, o Flamengo acabara de ganhar um zagueiro de potencial. Sorte!

Após a derrota do Flamengo para o Náutico, na quarta rodada do Brasileirão, uma crise se instalou na Gávea, o técnico Jorginho foi demitido e alguns jogadores acabaram afastados. Dentro dessa bagunça, o então auxiliar técnico Jayme é designado para dirigir o time na rodada seguinte, contra o Criciúma, em Santa Catarina. Por acompanhar bastante as categorias de base do clube, Jayme de Oliveira conhece e acredita na capacidade de Samir. Mas não bastava isso pra lançar o garoto no time. González, o titular e único zagueiro do elenco que também joga pelo lado esquerdo, foi convocado para servir à seleção chilena. Sob todas conjunturas, a chance da titularidade caiu no colo de Samir, e no dia 8 de junho, com a benção dos acasos, o canhoto defensor estreia nos profissionais do clube com uma bela partida.

Do dicionário: Revés; significado : infortúnio; perda; fatalidade; adversidade; derrota;desastre.

Com a chegada de Mano Menezes no Flamengo, Jayme, aquele que lançou e acreditava em Samir, voltou a seu cargo de auxiliar. Sob as bençãos do novo treinador, o Flamengo trouxe Chicão para reforçar a zaga. A disputa por uma posição de titular aumentava, as oportunidades eram mais complicadas. Dentre as primeiras que efetivamente surgiram, jogo dos mais complicados, e numa intensidade avassaladora, o ataque cruzeirense atropelava a defesa do Flamengo, no jogo de ida pela Copa do Brasil, realizado no Mineirão. Derrota, adversidade? Sim, mas não é aqui que se encaixa o revés. 

Pra ficar mais claro, vamos utilizar um termo mais popular. Que tal “zica”. Tudo começa quando o zagueiro consegue novamente uma oportunidade entre os titulares. Jogo contra o Santos no Maracanã, e Samir está lá, escalado desde o início no lado esquerdo da zaga rubro-negra. Jogo rolando e uma quase unanimidade entre os torcedores: “ Esse zagueiro mais ágil, mais intenso, de mais pegada, de mais velocidade, faz a diferença”. Samir começava a aliviar o desespero dos flamenguista com uma zaga lenta e não confiável. O sangue novo agradava, a evolução era nítida, o placar refletia o momento, tranquilos 2 a 0 para o time da casa. Eis que num súbito lance, um atacante santista surge entrando em velocidade de modo que nenhum antigo titular da defesa conseguiria alcançar, mas Samir consegue, ele chega, dá o bote e …. pênalti. Cartão amarelo e gol do adversário na cobrança. Faltou experiência, faltou malandragem, não tinha o que fazer, quem sabe? É futebol, e um lance não pode resumir nada. Mas como já foi dito, tem zica na história. Aguardem. 

Foi um lance isolado dentro de uma ótima partida do zagueiro. Logo a titularidade prossegue contra a Ponte Preta em Campinas no jogo seguinte. Primeiro tempo e um comportamento diferenciado da zaga rubro-negra. Não dando oportunidades ao time da casa e Samir, mais uma vez se destacando, mostra que indiscutivelmente não pode ser reserva. Mas a zica também viajou e estava presente no Moisés Lucarelli. Foi lá procurar seu “amigo”, e em uma bola dominada pelo time visitante, André Santos dá um passe displicente, chega a dar aquela pestanejada quando a bola sai de seus pés, o atacante ponte pretano dá um toque já indo em direção ao gol rubro-negro, isso próximo ao jogador do Flamengo para qual o passe foi endereçado, o choque é iminente, o jogador rubro-negro é expulso. É claro que a zica fez questão que este jogador fosse ele, o nosso bravo Samir. Não satisfeita ela ainda faz com que a Ponte Preta abra o marcador logo na jogada seguinte. Desastre!

Suspenso, Samir só pode observar o show de horrores do time rubro-negro contra o Atlético-PR no Maracanã. Uma virada com direito a quatro gols do adversário, que fez o que quis na defesa do clube carioca. Partida defensivamente horripilante. E o torcedor só podia pensar uma coisa, “ Por favor, volta Samir!”. Ele voltou, jogo contra o Náutico em Recife, defesa sem tomar gols, excelente partida do zagueiro, tudo normal. A zica deu uma folga para ele, visitou Elias, mas não gostou muito do novo hospedeiro. Ela queria seu garoto preferido de volta.

O Flamengo enfrenta o forte time do Botafogo pela Copa do Brasil. A zaga se comporta muito bem no primeiro tempo, difícil de ocorrer quando enfrenta um forte ataque adversário, mas Samir estava lá, com mais uma atuação segura. Não há dúvidas, ele é titular, é merecedor, e a defesa fica infinitamente melhor com ele. A pressão do adversário é forte, nosso guerreiro está lá se desdobrando. Falha no posicionamento pelo lado direito de ataque do alvinegro, bola pro lateral Edílson, que entra livre, finalização engatilhada de frente pra meta, mas numa disposição admirável o jovem zagueiro rubro-negro aparece e intercepta o chute. Perigo afastado? Que nada! Bola bate na parte interior da coxa direita de Samir e tira qualquer possibilidade de defesa do goleiro Felipe. Gol do Botafogo, gol de Edílson, ou melhor, gol da Zica.

Mas uma hora ela vai embora, um adversário como o Criciúma dentro de casa, com o time se comportando bem, placar inaugurado pelo artilheiro Hernane, goleada à vista, o que pode acontecer? A zaga tá bem, Samir faz outra excelente partida, lance de contra-ataque do Criciúma, ele impede, recupera muito bem a bola, tá longe do gol, adversário já foi batido. o que pode acontecer? Dores. Surgem dores. Samir agoniza, chora. Tá fora de combate. A estabilidade no time titular é iminente, mas a zica também parece ser. Lesão no púbis, uma das mais ingratas no âmbito esportivo. O Flamengo foi um time de sorte, ganhou um zagueiro que ajeitou sua defesa. Se a lesão foi grave, se ele volta, se no próximo jogo algum acaso vai acontecer com Samir, tudo vai depender da próxima carta a ser tirada. Sorte ou revés.

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