Saudades do Futuro

  • por Ordep Jose Trindade Serra
  • 8 Anos atrás
Sala "Rito de Passagem" do Museu do Futebol

Sala “Rito de Passagem” | Foto: Museu do Futebol

No Museu do Futebol que fica no Pacembu, em São Paulo, há um espaço destacado que antecede o salão com os painéis dedicados às Copas do Mundo: um recinto quase fúnebre, onde se projetam imagens, acompanhadas por uma breve fala evocativa, da final da Copa de 1950, partida histórica em que, contra todas as expectativas, o Brasil foi derrotado pelo Uruguai. A rigor, esta cena deveria incorporar-se aos patineis da sala seguinte. Mas não é difícil advertir a razão do destaque que lhe deram os museólogos. A quase câmera-escura tem o nome de “Rito de Passagem”. A ideia que se deseja  transmitir torna-se clara de imediato:  daquela “catástrofe” emergiu o poderoso futebol brasileiro com o vigor expresso na conquista de cinco taças do mundo. Em suma, sugere-se uma passagem pelo reino das sombras, seguida de gloriosa ressurreição.

Do ponto de vista da história social, o arranjo traduz uma realidade, assinala um fenômeno hoje bem estudado: segundo mostraram em abundantes crônicas e ensaios, jornalistas, sociólogos e historiadores, o povo brasileiro recebeu essa derrota esportiva como uma verdadeira tragédia, amargando um sentimento de humilhação equivalente, ou quase, ao de um país vencido numa guerra feroz, invadido pelo inimigo triunfante. Esse torvo sentimento demorou a ser esconjurado. Só a vitória de 1958 – aliás inesperada pela maioria dos nossos cronistas – trouxe a superação do trauma.

Vou logo dizer o que me incomoda nessa leitura museológica. De acordo com o testemunho de observadores de todo o mundo, nossa seleção derrotada nos idos de 1950 era brilhante, maravilhosa. Seu fracasso naquela oportunidade esteve longe de um mergulho nas trevas. Não trouxe letargio ao futebol brasileiro.  Pouco tempo mais tarde, a mesma seleção venceria o poderoso escrete uruguaio em outra competição duríssima. Os craques subitamente rebaixados da glória à infâmia eram efetivamente geniais.

 Não era no futebol que estava nossa fraqueza. Quando revejo as filmagens da famosa e sempre lamentada partida, logo me convenço de que a torcida, naquele dia, foi quem mais fraquejou, assombrada por pavores secretos. Esse  pânico lhe impôs o silêncio medonho, projetando no campo uma sombra de chumbo cujo peso esmagou os jogadores. Em suma, segundo penso, nós então perdemos para os brilhantes uruguaios, mas também para nós mesmos: para o nosso absurdo pavor coletivo e seu simétrico: o obtuso “já ganhou” da véspera. Em todo o caso,  foi só uma derrota esportiva, do tipo que qualquer grande time pode experimentar.  Já é tempo de que a vejamos assim.  O escrete de 1950 é digno de homenagem, não merece ser lembrado sempre com luto, choro e ranger de dentes.

Volto a este assunto por uma razão bem simples: estamos às vésperas de outra Copa do Mundo a realizar-se no Brasil. Tanto podemos ganhar como perder. Há, dessa vez, muitos favoritos. O futebol alemão está num momento esplêndido, com grandes craques, de uma técnica soberba, praticando um jogo bonito e forte. A Espanha tem jogadores geniais e  uma  formidável organização tática, capaz de aliar firmeza  a sua arte refinada. A Argentina tem um time excelente e o brilho do melhor jogador do mundo: em recente partida contra o Paraguai mostrou seu fantástico poderio. Além desse trio de ferro, outros há outros candidatos que não podem ser ignorados.  A Itália sempre consegue superar-se: é um concorrente temido por todos, em qualquer circunstância. E a Holanda merece respeito. De resto, surpresas  podem aparecer de muitos lados.

Dizendo isso, não estou, nem de longe,  diminuindo as qualidades de nosso escrete, nem quero fazer pouco de suas chances. O Brasil é um dos favoritos, sem dúvida alguma. Tem um time competitivo, com grandes craques, a que não falta inspiração. Jogando em casa, será um adversário dificílimo para qualquer equipe do mundo, conforme  já mostrou na Copa das Confederações. Tem um técnico especialista em mata-mata e uma tradição de grandes vitórias. Mesmo sem estar ainda com o time definitivamente formado e ajustado, já inspira respeito. Quem lê as crônicas internacionais percebe logo que hoje ninguém mais subestima os canários: aquela história de que o futebol brasileiro decaiu, perdeu o brilho antigo, está encerrada. Sabem os conhecedores que isso não faz sentido: o terrível canário descende da fênix e é capaz de metamorfoses assombrosas. Já depenou águias e falcões, já abateu feras de grande porte. A qualquer momento pode repetir a façanha.  Mostrou as garras.  E ainda tem muita força escondida. Está longe de ter revelado tudo o que pode.

O jogo com Portugal foi emblemático. Os lusos tiveram pouco tempo para festejar a falha de nossa zaga, uma simples acidente que lhes rendeu o gol. Foram logo envolvidos pelo time dourado. Sua estratégia de conter Neymar na base da porrada revelou-se um engano trágico. O craque reagiu como devia, com lucidez perfeita, exibindo um futebol alucinante, ferino, incontrolável.  Quem o viu passar feito um raio laser por toda a defesa dos portugueses coroando um lance mágico com um toque preciso não pode duvidar do gênio desse atleta sutil. E todo o time se mostrou seguro, tranquilo, consciente de sua força. Felipão pôde dedicar-se  muito serenamente a experiências típicas de um simples treino.

Ainda estamos a meio caminho, mas são muito boas  as perspectivas. Temos grandes possibilidades de chegar ao hexa. Porém é preciso que esconjuremos o pavor do Maracanazo, esqueçamos o medo agourento, enterremos as lamentações injustas que muitos continuam a derramar sobre a cabeça gloriosa de craques do passado. Numa competição dura como certamente será a próxima Copa do Mundo, podemos conquistar o título ambicionado ou perdê-lo provisoriamente; de modo algum seremos demolidos. Se os nossos cartolas não conseguem acabar com o futebol brasileiro, ninguém no mundo o poderá.  Ele tem sobrevivido a piratas insaciáveis, a parasitas hediondos, à sistemática falta de respeito que lhe dedicam nossos governantes. O gênio brasileiro, que apesar de tudo se sobrepõe a desmandos e abusos, ainda fulgura. É inesgotável.

Reconheço que no momento o futebol praticado na Alemanha,  na Espanha e na Argentina supera o exibido em nossos estádios. Mas nossa fonte não se esgotou. Belas surpresas aparecem a toda hora. Sabem disso os europeus, sempre empenhados na faina de buscar nossos craques ainda no berço. Somos nós que ainda não aprendemos a valorizar nossa grande riqueza.

É possível, sim, combinar futebol com honestidade e democracia em nossos pagos. Tomara que a gente aprenda esta lição, pois ela pode nos render muitos triunfos magníficos, garantindo um futuro futuro ainda mais luminoso que o passado nem tão longínquo.

Vou torcer como um louco pelo Brasil na próxima Copa. Creio que podemos ganhar o título. Uma eventual derrota pode deixar-me triste, irritado, frustrado. Mas não me fará perder a fé no futebol brasileiro, em sua força lírica, empolgante. As grandes equipes que hoje brilham na Europa imitam e prolongam uma invenção brasileira. O genial cineasta Pasolini dizia que o futebol da Europa, na sua época, era simples prosa, enquanto o do Brasil era pura poesia. A Musa parece hoje ter mudado de lugar, mas sempre volta a sua  pátria. Hoje é esse meu recado: tenho, sim, saudade dos dias de glória que festejamos em Copas inesquecíveis. Mas tenho mais fortes e ricas saudades do futuro. Elas se traduzem em um ato de fé, em calma esperança. Está viva a força misteriosa do futebol brasileiro. Por mais que pareça, às vezes, adormecida, ela jamais se extinguirá.

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Graduado em Letras pela UNB, Mestre em Antropologia Social pela UNB e Doutor em Antropologia pela USP. Professor Associado do Departamento de Antropologia da FFCH / UFBA. Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFBA; Prof. participante do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFBA. Membro da Associação Brasileira de Antropologia, da SBPC, da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos e da Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia. Membro fundador do Grupo de Pesquisa “Encruzilhada dos Saberes”. Fundador e Coordenador do Grupo Hermes de Pesquisa e Promoção Social e do Movimento Vozes de Salvador. Produção principal em Antropologia da Religião, Antropologia das Sociedades Clássicas, Etnobotânica, Teoria Antropológica. Tradutor de textos científicos e literários. Escritor premiado três vezes em concursos nacionais de literatura, com obras de ficção (conto, novela).