O Vitória de 1993

vitoria

Em 1993, o Esporte Clube Vitória fez uma grande campanha no Campeonato Brasileiro, despachando times como Corinthians, Santos e Flamengo. Acabou sendo vice-campeão, pois na final foi derrotado pelo grande time do Palmeiras, que tinha feras como Edmundo, Zinho e Evair. Mesmo assim, aquela equipe será lembrada eternamente, na história do clube baiano. No elenco, haviam jogadores experientes como João Marcelo e Gil Sergipano (campeões da Copa União 1988 com o Bahia) e Roberto Cavalo (campeão da Copa do Brasil 1991 com o Criciúma), mas a principal aposta eram em jogadores das categorias de base.

Levando para conceitos táticos do futebol atual, teríamos algo bastante próximo de um 4-2-3-1 na prancheta. A proposta de jogo baseava-se em transições rápidas, compactação e intensidade. Para a época, era um time moderno e com boa execução do sistema de jogo.

Com a bola, era um time vertical e agudo, com saída de bola qualificada. Gil Sergipano atuava mais recuado como primeiro-volante, diferente de quando jogava no Bahia em 1988, fazendo a transição para o ataque e aparecendo como elemento-surpresa. No Vitória, Gil era o organizador do primeiro passe e se posicionava mais atrás do grande círculo central para receber a pelota e articular a saída de bola, que geralmente ocorria pelo lado esquerdo, com o rápido Renato Martins. Renato tinha boa condução com a bola nos pés, cortava pra dentro e fazia bem as inversões de bola para a direita e lançamentos para o ataque, podendo buscar o lateral Rodrigo, a velocidade do meia-atacante Alex Alves ou o pivô do centro-avante Claudinho. Claudinho sempre se deslocava para a faixa central da meia-cancha com o intuito de participar da armação, buscar jogo, abrir espaços e proteger para a infiltração de algum dos homens de trás nas brechas entre os volantes e zagueiros adversários.

Vitória de 1993- Tática(This11).

Verticalidade também era uma característica marcante do volante “carrillero” Roberto Cavalo, que conduzia a bola para a segunda metade da cancha, carregava a pelota para os pés de Paulo Isidoro, buscava investidas na meia-esquerda e chegadas por dentro, dando opções de passes para organização de jogadas mais agudas. Era um volante letal nas bolas paradas, com poder de decisão. Gil Sergipano aprofundava a movimentação e ficava mais contido na frente do miolo de zaga para liberar a projeção ofensiva de Roberto Cavalo. O problema era quando o adversário dava um contra-golpe rápido, pois geralmente só ficavam três jogadores lá atrás (ou quatro, quando um dos laterais não avançava devido ao apoio alternado entre Rodrigo e Renato). O zagueiro China era participativo na saída para o jogo, aparecendo na intermediária para dar qualidade ao passe e agilizar a transição central.

As jogadas pelos extremos eram fortes. Alex Alves e Pichetti davam profundidade e incisão com arrancadas, penetrações na diagonal, chegadas na linha de fundo e aproximações no comando de ataque. Alex Alves tinha a característica de se enfiar pelo meio, trabalhar na armação com Paulo Isidoro, se movimentando intensamente pela faixa central e invertendo de posicionamento para a meia-esquerda. Pichetti ficava mais aberto, fixo nas pontas, porém, também caía pela direita, para receber lançamentos e dar opção de passe para o lateral-direito Rodrigo. Durante essa inversão, Alex Alves proporcionava opção de passe mais à frente para o volante Roberto Cavalo, que sempre tentava investidas no setor. Alex Alves circulava por todo o ataque e recuava para a intermediária, para auxiliar na saída de bola e iniciar as transições. No centro, Paulo Isidoro encostava em Claudinho no comando de ataque, aproveitava o deslocamento dele entre os volantes do oponente para tabelar, abria pelas beiradas do campo, puxava contra-ataques, partindo da meia-cancha, e dava rotatividade na frente, invertendo bastante com Pichetti e, principalmente, com Alex Alves.

 

Vitória de 1993- Tática em fase defensiva.

Na fase defensiva, o time marcava numa espécie de 4-4-1-1, com Alex Alves e Pichetti voltando pelos lados do campo. Ocorriam variações na altura das linhas durante o início de marcação. Como tinha uma proposta contra-golpista, era comum vermos posicionamento em bloco médio-alto, podendo ocupar zonas próximas ao círculo central ou até mesmo a intermediária adversária. Quando o oponente estava articulando sua saída para o jogo, o Vitória adiantava o posicionamento dos seus meias abertos, de modo que estes faziam a primeira onda de pressão no meio-campo junto com Paulo Isidoro, e até mesmo o centro-avante Claudinho avançava para pressionar os zagueiros no campo de defesa. A zona de pressing no centro estava concentrada em cima de Paulo Isidoro, que recebia o auxílio de um dos volantes(predominantemente Roberto Cavalo), que se adiantava para dar o combate e diminuir as brechas.

Quando o adversário ultrapassava a linha que divide a cancha, Alex Alves e Pichetti saíam no primeiro combate pelos lados, acompanhando os laterais adversários e perseguindo os mesmos, junto com Rodrigo ou Renato, para fechar os espaços em caso de tentativa de jogada de linha de fundo ou de cruzamento para a área. No meio, tínhamos um triângulo de base baixa, mas com Roberto Cavalo fazendo a hibridação da base triangular, com seus avanços para dar suporte a Paulo Isidoro. Paulo também flutuava de acordo com a movimentação da bola, combatia o homem do primeiro passe e migrava para os lados, com o intuito de triplicar a marcação no setor e dar superioridade numérica, encurtando os espaços por ali.

O Vitória buscava a retomada da pelota já no grande círculo, aproveitando o ótimo poder de recuperação de bola por parte de seus excelentes médio-volantes. Daí, ligava o contra-ataque em alta velocidade, tendo Alex Alves, Claudinho, Paulo Isidoro e Pichetti como as principais “válvulas de escape” para a transição defesa-ataque. Normalmente, apostava-se em bolas longas na direção de Alex Alves ou Pichetti nos flancos, ou enfiadas de bola para a infiltração de Claudinho, pra marcar o gol. Os blocos apresentavam muita proximidade entre si, principalmente entre os volantes e zagueiros, de modo que, por vezes, China e João Marcelo ocupavam a cabeça de área para conter a investida do oponente, caso o mesmo conseguisse passar pelos volantes.

Um dos grandes problemas da equipe era exatamente a vulnerabilidade defensiva nas extremidades. Os laterais deixavam espaços na marcação, principalmente quando apoiavam e não conseguiam fazer a recomposição no tempo certo. Além disso, quando o retorno de Alex Alves e Pichetti não era assíduo, os laterais tinham que sair para dar o combate na intermediária. Era um dos riscos que o sistema defensivo baiano corria. Na final contra o Palmeiras, acabou falhando muito defensivamente, principalmente porque a defesa ficava exposta aos contra-ataques. Mas, no geral, era um time muito interessante taticamente e que sempre será lembrado pelos torcedores rubro-negros.

 

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Natural de Recife-PE e futuro jornalista esportivo. É colunista de futebol nordestino no BOL Esporte/ Portal Terceiro Tempo e colabora com o Doentes Por Futebol. Gosta bastante de análises técnico-táticas.