Xavi ou Fàbregas? O dilema de Gerardo Martino

  • por Victor Mendes Xavier
  • 8 Anos atrás
Xavi e Fàbregas, sucessor do camisa 6 (AP Photos)

Xavi e Fàbregas, sucessor do camisa 6 (AP Photos)

Nos últimos anos, o Barcelona levou a campo um estilo de jogo que encantou boa parte do mundo e tornou-o o time mais vencedor dos últimos tempos. O tiki-taka é um sistema de jogo em que se prioriza a posse de bola, os passes curtos, normalmente ao primeiro toque, esperando desmarcações rápidas e circulares dos companheiros, sempre objetivando criar uma brecha na defesa rival. Para os fãs mais atentos, pensar em tiki-taka é pensar em Xavi e Iniesta, os regentes do sistema. 

No entanto, há algum tempo, o tiki-taka não vem funcionando com naturalidade. As trocas de passes, antes velozes e objetivas, transformaram-se em algo monótono, previsível e fácil de marcar. Os exemplos recentes de times que barraram a troca de passes de Barcelona e Espanha e venceram sem precisar retrancar-se não faltam: o Real Madrid de José Mourinho, o super Bayern campeão de tudo de Jupp Heynckes e o Brasil de Felipão.

O período de declínio do tiki-taka coincidiu com a pior temporada de Xavi nos últimos tempos. Coincidência? Talvez. Embora Messi e Iniesta sejam frequentemente considerados mais talentosos, é inegável que Xavi sempre foi o cérebro de Barcelona e Espanha. Seu poder de cadenciar o jogo e armar um time com maestria o transformou num dos melhores jogadores entre 2008 e 2011. Desde o final da era Guardiola, porém, o camisa seis blaugrana não é mais o mesmo. Em 2012-2013, ele colecionou partidas apagadas, não foi muito importante ao título espanhol barcelonista e apareceu somente em raros lampejos.

Para alguns especialistas, sua fase ruim tem um motivo: os problemas físicos que começaram a aparecer com mais frequência. Em uma conversa informal que tive com o jornalista catalão Josep Capdevilla, do Diário Sport, ele explicou que “provavelmente Xavi nunca mais irá voltar ao nível alto que teve, pois a cada vez mais lhe faltam pernas para aguentar uma temporada mais desgastante”. Seria a hora de pensar num substituto?

Enquanto isso, Cesc Fàbregas, dito por muitos como o sucessor natural de Xavi, começou a temporada voando em campo. Em três jogos da Liga Espanhola, foram cinco assistências e atuações mais do que positivas. No último domingo, em visita ao sempre complicado Mestalla para encarar o Valencia, o treinador Gerardo Martino poupou Xavi pela primeira vez em 2013-2014 e escalou Fàbregas e Iniesta juntos no meio-campo. O resultado foi bem satisfatório: Fàbregas deu mais velocidade à troca de passes na armação, criou situações de perigo a todo instante (especialmente no primeiro tempo) e assistiu Messi em dois de seus três gols.

Polivalente, Fàbregas pode atuar tanto de falso nove (como foi contra o Málaga e no segundo tempo do duelo contra o Atlético de Madrid na Supercopa) ou de terceiro homem do meio-campo (contra Levante e Atlético de Madrid em Barcelona, na volta da Supercopa), onde logicamente tem a companhia de Xavi. Mas foi com o camisa quatro atuando de segundo volante que o Barcelona fez sua partida mais dinâmica e vertical dos últimos tempos, como bem sentenciou Martino na coletiva pós-jogo em Valencia.

Chegou o momento de Fàbregas arcar com a responsabilidade e mostrar que pode ser o novo armador do Barcelona? Isso não significa que Xavi será banco. Em sua apresentação, o novo treinador do Barcelona disse que irá procurar fazer rotações em sua equipe titular em quase todos os jogos do primeiro semestre da temporada, para que os jogadores cheguem menos cansados ao mata-mata da UCL e à reta final da Liga Espanhola, um dos segredos utilizados por Guardiola em seu período no Camp Nou. Ou seja: a presença de Xavi no time titular ainda será constante.

Porém, nos jogos decisivos, sobretudo em âmbito europeu, Martino terá que tomar uma decisão: optar por Xavi, chefe do vestiário, ídolo da torcida e jogador mais vitorioso da história do clube, ou Fàbregas, que vive melhor fase, dá outra cara a um time com o esquema já batido e é o natural sucessor do camisa seis. A questão não é fácil. Martino pode usar os dois juntos, em caso de lesão de Iniesta ou Messi. Mas abdicar dos dois jogadores caso eles estejam 100% não deve passar pela cabeça do argentino. Por isso, ele começa a criar um dilema que daqui a alguns meses o dará bastante dor de cabeça.

Comentários da rodada

– Coadjuvante de luxo, Isco anotou mais dois gols e foi o principal nome da vitória do Real Madrid ante o Athletic Bilbao, por 3×1. Mas o melhor jogador merengue em campo foi Luka Modric. O croata orquestrou o meio-campo madridista, foi ovacionado pelo Santiago Bernabéu e ganhou moral com o chefe Ancelotti, que afirmou que “ele é o único por enquanto a entender minha ideia de jogo”.

– Como o previsto, Real Sociedad e Atlético de Madrid fizeram o melhor jogo da rodada. Quente desde o primeiro minuto, o duelo teve gols bonitos e duas equipes que ratificaram suas qualidades. Os rojiblancos saíram vencedores, mas os bascos deixaram claro que, hoje, são mesmo a quarta força do futebol espanhol. E Xabi Prieto, que é principal jogador do time. Ele marcou um golaço que trouxe a Real de volta à partida e, mais uma vez, chamou a responsabilidade quando Vela e Griezmann não estiveram bem.

– Sevilla e Málaga fizeram um dérbi empolgante no Pizjuán. Gameiro emulou Negredo e enfim deu as caras. Com dois gols, o centroavante foi o destaque de um clássico que viu grandes atuações dos ofensivos laterais Alberto (Sevilla) e Antunes (Málaga). O Sevilla sentiu a falta de Marin, que vem chamando a atenção no início de tamporada, e não viu no chileno Rabello um bom substituto ao alemão. Totalmente reformulados em relação à temporada passada, os dois times mostraram carências, sobretudo defensivas, embora os blanquiazules tenham mostrado certa consistência na linha de quatro.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.