Apoio aos Atletas pelo Brasil

  • por Ordep Jose Trindade Serra
  • 8 Anos atrás

Imaginei começar esta crônica por uma boa notícia: a aprovação pelo Senado de um belo projeto capaz de curar mazelas, eliminar abusos, corrigir desvios graves, dar cabo de sérios defeitos que embaraçam e mutilam o esporte nacional. A proposta partiu de uma brilhante associação de atletas. Entre outros avanços, o projeto, encaminhado pelo Deputado Jerônimo Goergen, estabelece que os clubes, para receberem isenção do Imposto de Renda e terem acesso a recursos públicos, adotem uma série de medidas saneadoras, entre as quais a limitação do mandato dos dirigentes a quatro anos, com direito a uma só reeleição; exige também a transparência administrativa, impondo a criação e a autonomia de conselhos fiscais, a adoção de formas de gestão democrática. O Senador Argello já se tinha comprometido a colocar o assunto em pauta e fazê-lo votar de imediato, incluindo-o no âmbito de Medida Provisória da qual ele é o relator. Mas recuou vergonhosamente. Segundo o deputado Jerônimo Goergen, esse recuo deveu-se ao jogo pesado da CBF, que fez pressão sobre o Executivo e o Congresso Nacional através de seus nefandos lobistas a fim de impedir o avanço da emenda.

Em vez de boa nova, tenho de fazer uma denúncia.

O senador Argello simplesmente alega que deixou de fora o tema por não ter o aval do Governo que representa. Já o dito Governo contesta essa declaração do seu representante: jura de pés juntos que está a favor da medida. A ministra Ideli Salvatti disse com todas as letras aos congressistas que apoia o projeto, que a Casa Civil lhe é simpática e o Ministério dos Esportes também o aprova. Seria de esperar o pronto despacho do assunto, não é mesmo? Mas não. Fica-se no jogo de empurra: as autoridades do executivo dizem uma coisa e o senador governista afirma que ouviu outra.

Quem está mentindo? Provavelmente os dois. Parece claro que se houvesse empenho real do Governo a questão logo se resolveria, o projeto seria prontamente encaminhado. Mas nada acontece. E o desmentido se comporta como portador da verdade.

Jogo truncado, como vêem. O lamentável senador Argello não cumpre a palavra dada e faz pior. À guisa de desculpa (moralmente esfarrapada), tirou da cartola um bisonho substitutivo que deforma a proposta original: apenas flexibiliza as regras da Timemania, com vistas a facilitar a vida dos clubes encalacrados por seus próprios desmandos financeiros. Pela nova regra, eles só perderão o direito ao parcelamento dos débitos (que acumularam de modo irresponsável) após receber intimação relativa à falta de pagamento e desatenderem o aviso de cobrança. Os clubes excluídos pelas normas atuais poderão pedir reinclusão no programa.

Sopa no mel, afagos e benesses para os vida-torta.

O projeto de emenda original poderia alavancar o esporte brasileiro. Seu efeito purificador seria muito positivo para nosso futebol, vítima de caciques empedernidos que se perpetuam nos clubes e federações, como parasitas tenazes, hábeis em todas as artes e manhas do enriquecimento ilícito.

Entende-se a resistência dessas ratazanas de cartola e logo se vê porque seu lobby tem tanto êxito: suas trampolinagens se comunicam, por imundos canais de corrupção, com várias sujeiras encontráveis nas esferas de governo, em todas as instâncias. O alcance da medida que nossos mais lúcidos atletas conceberam não se se limita ao mundo esportivo: acabar com os ditadores do esporte e suas práticas fraudulentas representaria um freio na corrupção vigente na máquina pública. Seria um passo importante para a consolidação da democracia no país.

Atletas pela Cidadania, Atletas pelo Brasil | Foto: Reprodução Facebook

Atletas pela Cidadania, Atletas pelo Brasil | Foto: Reprodução Facebook

Caros amigos, nós, torcedores, temos agora obrigação moral de apoiar com firmeza a Associação Atletas pela Cidadania, cujo programa é de interesse de todos. Valho-me desta coluna para pedir e manifestar apoio à campanha cívica da AAC, citando um trecho de seu excelente Manifesto:

Copa e Olimpíadas têm um valor inegável para o país que as recebe, mas somente se tornam uma oportunidade efetiva quando a prioridade do interesse público é a regra e quando existam propostas concretas de Legado Esportivo e Social. O interesse público e a transparência têm que prevalecer em todas as ações: nas obras, construções, intervenções sociais ou investimentos públicos e privados. Mais do que isso: todos os recursos gerados pelos eventos devem ser destinados ao desenvolvimento social e econômico do país, chegando de forma positiva na vida das pessoas. Nós, Atletas pela Cidadania, somos contra a destinação de recursos públicos para benesse de alguns, as remoções que violam os direitos humanos, a corrupção e a falta de transparência nas decisões e nas contas. Tudo isso é contra o espírito e os valores do Esporte.

Bastaria esse trecho para que aplaudíssemos de pé os brilhantes membros da AAC. Mas eles vão além, esclarecendo de modo firme a natureza de sua campanha e mostrando que nosso governo mais uma vez se mostrou omisso, tíbio, surdo:

Repetimos: há mais de dois anos apresentamos uma agenda positiva ao país, com dois pontos centrais para o Legado Esportivo e Social da Copa e das Olimpíadas: o Esporte acessível a todos os brasileiros e a urgente revisão do Sistema Esportivo Nacional.

Em seguida, os lúcidos atletas mostram com clareza o que é preciso fazer:

Limitar o mandato de dirigentes esportivos, definir os papéis e integrar os entes federativos, abrir [os clubes] à participação democrática de atletas, qualificar educadores e profissionais esportivos permanentemente, ampliar a infraestrutura esportiva pública.

Quem pode ser contra? Ora, todos sabemos: os ratos de cartola e os políticos sujos, os cúmplices da bandalheira combatida por nossos atléticos campeões da cidadania.

Foto: Reprodução Facebook

Foto: Reprodução Facebook

Ainda bem que eles não desanimam. E tampouco se deixam enganar. É com absoluta precisão que colocam o dedo na ferida, indicando o que deve ser feito, dando aos governantes uma bonita lição de moral:

Felizmente, o país hoje clama por mudanças. A agenda pública deve se balizar pelo que seu povo decide e não só pelo que seus governantes acreditam que sejam as prioridades. O dia a dia do poder tem afastado a máquina pública do interesse público. Vivemos uma crise da democracia representativa, cuja solução está em ouvir diretamente os detentores reais do poder – o povo.

Amigos, nosso futebol (talvez mais que os outros esportes) tem sido muito maltratado por dirigentes indignos que se perpetuam no mando em clubes e federações, onde chegam a formar dinastias. Eles se opõem à transparência por motivos óbvios. Pois bem, chegou a hora de reagir. Gritemos junto com nossos atletas, esfregando a áspera verdade na cara de pau de nossos bisonhos mandatários: não há como justificar a entrega de dinheiro público às mãos de quem não admite controle social, de quem não quer ser fiscalizado nem admite prestar contas da devida forma, de quem se nega a respeitar a democracia. Caso não se mova para fazer com que a emenda saneadora à Lei Pelé seja aprovada, caso não ouça os atletas, ignore seu Manifesto, o Governo brasileiro estará deixando claro que não respeita a cidadania, não liga para o estado de direito, não dá valor ao esporte, faz pouco da honestidade e tem profundo desprezo pelo interesse público. É simples assim.

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Graduado em Letras pela UNB, Mestre em Antropologia Social pela UNB e Doutor em Antropologia pela USP. Professor Associado do Departamento de Antropologia da FFCH / UFBA. Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFBA; Prof. participante do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFBA. Membro da Associação Brasileira de Antropologia, da SBPC, da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos e da Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia. Membro fundador do Grupo de Pesquisa “Encruzilhada dos Saberes”. Fundador e Coordenador do Grupo Hermes de Pesquisa e Promoção Social e do Movimento Vozes de Salvador. Produção principal em Antropologia da Religião, Antropologia das Sociedades Clássicas, Etnobotânica, Teoria Antropológica. Tradutor de textos científicos e literários. Escritor premiado três vezes em concursos nacionais de literatura, com obras de ficção (conto, novela).