A evolução tática do Botafogo-PB em 2013!

 No décimo aniversário do último título paraibano, o Belo resolveu acordar. Foram anos vendo seus rivais tendo relativo sucesso em competições nacionais enquanto Tricolor Pessoense brigava para formar um time competitivo. Foi então que Marcelo Vilar assumiu, trazendo consigo sete atletas com quem havia trabalhado nos seus quatro anos de Treze.

Um elenco recheado que fez com que o torcedor sonhasse com tempos melhores. A partir de agora, vamos mostrar como esse “novo” elenco se encaixou e levou o Belo de volta aos títulos e com a promoção para a Terceira Divisão Nacional.

 

 Primeira armação

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Mais básico impossível. Vilar armou a equipe no mais comum dos 4-4-2: dois volantes e dois meias. Com dois laterais pouco ofensivos, Vilar não conseguiu pôr em pratica a mutação para o 3-5-2 que era peculiar a todas as equipes que comandou.

Mas, dependendo da partida, Gil Bala e Wanderley voltavam para fechar os espaços e em alguns momentos Hercules ficava distante de Izaías deixando um grande espaço a ser explorado pelos adversários. A defesa nunca jogava em linha e Thuran fazia a sobra.

A formação foi utilizada nas primeiras partidas, mas apenas durante o primeiro tempo, sempre sendo muito alterada nas segundas etapas, ainda mais com a chegada de atletas titulares com diferentes características e a contusão de Wanderley.

Primeira vez que funcionou

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A formação que mostrou equilíbrio e fez o Botafogo ter uma grande arrancada no primeiro turno do paraibano foi o 4-3-1-2 losango. Usado contra o Treze num clássico de sete gols, o Belo mostrou organização e solidez, defendendo e atacando com a mesma qualidade.

Além do mais, Hércules recuava para função de terceiro zagueiro e Doda poderia encostar-se ao ataque, formando uma trinca com Edgard e Warley. Thuran e André Lima passaram a revezar-se na sobra, enquanto no meio Izaías e Gil Bala davam consistência defensiva e chegavam bem ao apoio, já Ferreira tinha mais liberdade para subir.

O time jogou assim boa parte do primeiro turno, e permaneceu invicto. Porém, Wanderley voltou e, já que Edgard estava em boa fase, Vilar teve de quebrar a cabeça para mexer no time.

 

4-4-2 assimétrico

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Na segunda metade do primeiro turno e durante boa parte do segundo, o Belo adotou o 4-4-2 torto (ou “assimétrico”). Edgard pela meia direita e Wanderley pela ponta esquerda, Doda armando no meio. Hercules como primeiro volante e Izaías saindo para o jogo.

Com a chegada de Celico, o clube passou a atuar com dois laterais ofensivos, deixando Hércules boa parte como zagueiro. Embora conseguisse vencer, o time não jogava bem. 

O time era bom com a bola, mas sem a bola dava muito espaço. Edgard e Wanderley se esforçavam, mas não davam sustentação ao meio campo e Izaías, em má fase, sobrecarregavam Hercules, que teve de se desdobrar.

Além de problemas na formação, o Botafogo enfrentou um “inferno astral” de alguns dos seus principais jogadores: Genivaldo, Celico e Warley passaram a errar muito e em momentos decisivos.

 

Efeito Zaquel 

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A formação continuava a mesma, mas um jogador mudou tudo. Zaquel foi contratado e modificou a forma do Belo jogar. A partir daí, toda formação do Botafogo foi adaptada do 4-4-2 “assimétrico”. Com Zaquel, o Tricolor da Capital passou a atuar com dois volantes fixos, dando sustentação ao meio campo e cobrindo as saídas dos dois alas.

O futebol de Ferreira e Celico cresceu com isso. Doda, além de armar, teve a incumbência de ajudar no meio de campo e o fez com primor. Fabio Neves entrou pela direita dando velocidade ao ataque, junto com Thiaguinho (ou Wanderley) na frente. Ambos faziam pouco defensivamente, mesmo assim, o time alcançou certo equilíbrio.

O esquema não era perfeito, a marcação ainda era aberta e havia certos espaços para explorar, mas o time seguia perigosíssimo com a bola e competente sem ela. Não havia mais troca de posição e foi assim que o Botafogo conseguiu vencer o campeonato paraibano, numa virada épica contra o Treze, em Campina Grande.

 

Série D

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Reforços pontuais fizeram com que o Botafogo se fortalecesse. Pio Marcel, Lenílson, Aidar e Fausto ganharam vaga cativa, enquanto Genivaldo e Warley saíram do time por não se recuperarem da má fase.

Ainda no 4-4-2 “assimétrico” variável para 3-4-3. Pio entrou no meio campo, fazendo dupla função, enquanto Doda foi recuado e passou a armar o time de trás. O incansável Aidar entrou no ataque botafoguense, sempre ajudando no meio de campo. Enquanto Lenílson, atuando pela esquerda, apoiava com força e era decisivo.

O time melhorou ofensivamente, passou a marcar em três blocos, divididos por setor. Com os recuos de Aidar e Lenílson o time paraibano “engarrafava” o meio campo, limitando as ações do mesmo setor adversário.

Além do mais, Marcel deu qualidade na saída de bola do time, coisa que Thuran não fazia. Em algumas partidas, o time jogou com marcação avançada, pressionando os defensores desde o inicio das jogadas, algo que funcionou muito bem em partidas decisivas.

Sem dúvidas, o time passou a ser mais perigoso e mais consistente, mas se acomodava quando à frente no placar, parando de atacar.A forma de jogar também não era perfeita, o time levou muitos gols em lançamentos longos nas costas dos laterais.

 

Fora de casa

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Com os apagões e o clube precisando de resultado, o Botafogo modificou seu estilo de jogo nas partidas decisivas fora de casa, e surtiu tanto efeito que o clube de João Pessoa conseguiu vencer o Sergipe, Tiradentes e Salgueiro fora de seus domínios.

Vilar armara uma equipe com três volantes, um meia armador, um atacante veloz e um centroavante, com os alas se revezando no apoio. Dependendo da formação adversária, Zaquel recuava como líbero e Pio auxiliava a armação. Lenílson (ou Doda) criava as jogadas, enquanto Aidar se desdobrava na frente e Fausto ficava como centroavante.

Essa era, sem dúvidas, a formação com maior pegada do Belo, feita para jogar de contra-ataque. Formava-se uma parede para que a o adversário não adentrasse a área tricolor, obrigando-o a tentar chutes de longa distância.

O time perdia força ofensiva, mas quando chegava, decidia. Dessa forma, o time não exercia tanta pressão no campo adversário, chamando seus rivais para dentro de seu campo.

 E aí?

O Botafogo conseguiu subir de divisão, mas o caminho para o sucesso esteve cercado de desconfiança, desconfiança tal que ajudou o time a fechar-se e trazer a torcida para dentro de campo. A maior vitória deste Botafogo não foi arrumar um time competitivo e homogêneo, mas trazer a torcida pessoense de volta ao Almeidão.

O feito foi histórico, mas ainda há espaço para mais. O Belo tem um time equilibrado, coeso e é bem armado – Vilar finalmente tem o time na mão. Time que ainda tem peças de desequilíbrio no banco são motivos que alegram o torcedor, mas sem tirar os pés do chão.

E, de fato, pode-se dizer que é o melhor ano do futebol paraibano em décadas.

 

*Texto escrito por Yan Cavalcanti, colunista do portal Voz da Torcida e analista tático do futebol paraibano

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Natural de Recife-PE e futuro jornalista esportivo. É colunista de futebol nordestino no BOL Esporte/ Portal Terceiro Tempo e colabora com o Doentes Por Futebol. Gosta bastante de análises técnico-táticas.