Autorretrato

  • por Leandro Lainetti
  • 7 Anos atrás

Adoro os clichês do futebol, gosto mesmo. Um deles diz que “torcida ganha jogo”. Às vezes sim, às vezes não. Mas que faz a diferença, para o bem ou para o mal, não há quem discorde. O que se viu no Maracanã na noite de quarta-feira foi um autorretrato. Cada time foi exatamente a cara, ou a presença, de sua torcida. O estádio, que deveria estar dividido, teve um dono. Dentro e fora de campo.

Eram onze contra onze, em números. Eram muitos contra onze, na prática. Flamengo e Nação fizeram uma troca mútua durante a noite. Um jogava, o outro apoiava e celebrava. Um apoiava e celebrava, o outro jogava. Numa comunhão única, o ritual ocorreu durante os noventa minutos. Um paraíso para os onze rubro-negros em campo, um inferno para os onze alvinegros.

Inferno que começou muito por conta de Paulinho. Tal qual uma criança desobediente, o camisa 11 do Flamengo não parava quieto. Driblava Gilberto uma, duas, três vezes, quando e como queria. Um marcador, vários dribladores, porque Paulinho não estava sozinho. A cada jogada a torcida ia junto, e gritava, e empurrava, e incentivava. Gilberto, ao contrário, tão só quanto um cão de rua, se encolhia para continuar vivendo o seu pesadelo particular.

Hernane era outro que não estava só. Cada chute dado por ele também tinha os pés da torcida. Pobre Jefferson, alvejado por tantas chuteiras ao mesmo tempo. A cada toque do camisa nove, uma brocada. Uma, duas, três. O rei do toque único fez valer a sua característica para inflamar cada vez mais torcedores, e estreitar ainda mais os laços do seu caso de amor com o Maracanã.

Que só não ficou ainda mais intenso porque um aniversariante estava presente. Quando os onze do outro lado viraram dez, Léo Moura ganhou, talvez, o presente que mais sonhou em vida: um gol no dia de seu aniversário, no Maracanã, para ouvir o “parabéns para você” entoado por milhares de vozes.

No autorretrato do Maracanã, cada time foi em campo o que sua torcida foi fora dele.

Goleada no gramado, festa na arquibancada.

Sem convite para alvinegros.

Comentários

Jornalista trabalhando com marketing, carioca, 28 anos. Antes de mais nada, não acredito em teorias da conspiração. Até que me provem o contrário, futebol é decidido dentro das quatro linhas. Mais futebol nacional do que internacional. Não vi Zico mas vi Romário, Zidane, Ronaldinho, Ronaldo. Vejo Messi e Cristiano Ronaldo. Totti é pai.