“El Otro Superclásico”: todo Ying tem seu Yang

El Otro Superclásico - Google Chrome

 

O que seria capaz de despertar o interesse de um argentino em Aracaju? Talvez as belas praias da orla de Atalaia, ou os avanços urbanísticos de uma cidade que tem tentado se aproximar de alguns dos conceitos mais modernos de mobilidade urbana, com transportes modais e integrados à maior malha cicloviária do país, de mais de 100 km de extensão.

Indiscutivelmente, a capital sergipana tem atrativos para turistas de qualquer lugar do mundo. Mas para um argentino fanático por futebol, nada pode ser mais curioso do que a reprodução fiel (ou nem tanto…) de uma das maiores paixões da capital portenha: o Superclásico, celebração da centenária e acirradíssima rivalidade entre Boca Juniors e River Plate.

Foi esse o cenário que encantou Santiago Dulce, argentino e torcedor do Boca, quando ele ficou sabendo da existência de um time homônimo ao xeneize original em solo brasileiro. Num bate-papo com Erick Mendonça, sergipano e viciado em futebol, surgiu a ideia de produzir El Otro Superclásico, documentário do Casulo Interactive Studio sobre a rivalidade “transposta” diretamente do futebol portenho – a mais de 4.000 quilômetros de Buenos Aires.

Essa distância, entretanto, não foi suficiente para aplacar a curiosidade dos argentinos em relação ao filme. E a história do ‘Otro Superclásico’ rapidamente chegou aos nossos hermanos, graças ao excelente trabalho de divulgação que vem sendo feito nas diversas redes sociais. Para saber mais sobre a história desta narrativa que envolve dois países, duas rivalidades e algumas grandes pretensões, o Doentes por Futebol conversou com Eddie Azevedo, publicitário e produtor executivo do documentário.

DPF: O que levou à idealização do documentário?

Eddie Azevedo: Na verdade o filme veio através de um bate papo informal entre colegas de trabalho, Santiago Dulce (argentino) e Erick Mendonça (sergipano), dois loucos por futebol. Quando Santi descobriu que havia um Boca no Brasil, ficou pirado, já que ele é fanático pelo time homônimo argentino. Depois, descobriu que tinha também um River e pronto: a curiosidade estava ali. Um Superclásico fora de Buenos Aires, em um universo paralelo àquele de repercussão mundial que existe na Argentina e ao qual ele estava habituado, tudo era muito atraente pro argentino. Erick, que é sergipano, conhecia o Casulo (estúdio criativo onde sou redator/roteirista) e nos convidou para o projeto: iríamos fazer um filme.

www.elotrosuperclasico.comassetsvideostorcedor.mp4 - Google Chrome

Tanto Boca quanto River contam com algumas dezenas de torcedores apaixonados, como este “abuelo”. | Foto: Reprodução.

DPF: Quais foram as principais dificuldades para a execução do projeto?

EA: Como as estrelas do filme são os dois times, as principais dificuldades que tivemos foi em driblar a falta de departamento de marketing, assessoria de imprensa e até de visão estratégica por parte dos times.  Era difícil fazer com que eles entendessem a dimensão que o projeto teria.

DPF: Qual a importância do Boca e/ou do River na sua vida de torcedor?

EA: Como disse, o diretor do filme é um xeneize. Boca doente, ele torceu até durante a filmagem. Saiu rouco do estádio do River, no dia do ‘Otro Superclásico’. Toda a equipe é apaixonada por futebol e, por isso, cada um tem um tipo de experiência com os rivais argentinos. Eu, como vascaíno, não consigo ver a camisa do River e não lembrar da semifinal da Libertadores de 98 (e do “monumental” gol de Juninho).

DPF: Em que medida a situação dos dois clubes são reflexo do contexto atual do futebol sergipano?

EA: O futebol sergipano nunca foi protagonista no cenário nacional, mas, ainda assim, ele consegue estar abaixo do que se espera dele. O presidente da Federação é o mesmo há décadas e os times vão se apequenando ano após ano. Boca e River são dois times simbólicos no cenário sergipano:  enquanto o primeiro só sobrevive às custas do amor do seu dono e, por isso, está sempre caindo de divisão; o outro conseguiu uma hegemonia graças ao poder aquisitivo – no caso do River, o dinheiro da Prefeitura de Carmópolis – cidade que vive do petróleo.

DPF: Como foi a repercussão do filme na Argentina?

EA: Foi enorme e imediata. Os argentinos ficaram encantados com a história, e rapidamente o filme chegou às redações da imprensa de lá. Logo, os sites começaram a postar e nosso vídeo começou a ter um monte de comentários em espanhol. Depois, o grande Diário Olé e a ESPN da Argentina publicaram o nosso filme. Aí tivemos a certeza de que o projeto chegou até aos nossos hermanos. Nesse sentido, as redes sociais tiveram papeis muito importante.

O equilíbrio do universo depende da batalha constante entre as forças xeneizes e millonarias. | Foto: Reprodução.

O equilíbrio do universo depende da batalha constante entre as forças xeneizes e millonarias. | Foto: Reprodução.

DPF: O que falta para o futebol sergipano atingir o nível de outras praças da região como Paraíba e Alagoas?

EA: Acho que tudo se resume a profissionalismo. De todos os envolvidos: clubes, campeonatos, confederação. Se conseguirmos ser um pouco mais organizados, não vejo nada que nos impeça de chegar aonde chegaram Icasa, ASA, etc. Sergipe e Confiança, por exemplo, são times de muito mais tradição e torcida. Eu ainda acredito. Torço por isso.

DPF: Você definiria ‘El Otro Superclásico’ como um documentário irreverente e despretensioso, ou o filme tem a intenção de levantar algum debate?

EA: El Outro Superclasico é um filme bem humorado, mas não diria que é um filme despretensioso. Levantamos a bandeira de uma rivalidade sadia, da brincadeira pacífica, da zoação com o amigo rival. Quando mostramos a história do presidente do Boca, apaixonado a ponto de chamar o filho de Riquelme, que dá a idéia ao amigo de chamar o seu time de River Plate só para que tenha o prazer de jogar o ‘Superclásico’, estamos dizendo ao público argentino e ao apaixonado por futebol de todo o mundo: Cuide do seu rival, trate ele bem. Porque o futebol só tem graça com um time para amar e outro para odiar. Odiar em paz, claro.

Além da mensagem de paz, queremos deixar uma herança palpável para os dois times. Queremos que eles consigam o maior número de torcedores argentinos, que eles comecem a estreitar a relação com esses malucos pelo Boca/River originais. E está dando certo, viu? Tenho a informação de que algumas rádios de lá já entraram em contatos com os presidentes para entrevistas nesses dias que antecedem o ‘Superclásico’. Já estão famosos por lá.

Assista ao minidocumentário:

Comentários

Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.