Fritada de Chumacero

geninho chumacero

É este o prato da semana na Ilha do Retiro. Depois de uma longa e desgastante etapa de elaboração, até atingir o ponto ideal, o mestre Geninho finalmente serve à torcida rubro-negra o seu sofisticado menu. A proposta é promover uma mescla entre ingredientes capazes de levar o público a uma viagem sensorial entre Recife, Ribeirão Preto, La Paz e Miami.

Apesar do técnico nunca ter divulgado na imprensa a receita de tal mistura inusitada, o Doentes por Futebol descobriu-a. E, com exclusividade, revela-a para que você, diretor, treinador ou torcedor, possa usá-la no seu próprio clube, para fritar algum atleta que mesmo promissor, não seja desejável, por qualquer razão. Aproveite!

INGREDIENTES

– Um jogador jovem e promissor, que já mostrou talento em competições de bom nível, mas completamente desconhecido da imprensa e dos torcedores;

– Muito incenso da diretoria, até o ponto de fazer todo mundo achar que se trata de um craque que resolverá todos os problemas do clube;

– Um treinador ultrapassado, saído diretamente do mais completo ostracismo;

– Uma fogueira do tamanho do Illimani, maior cartão postal da cidade de La Paz, capital boliviana.

O Illimani, cartão postal de La Paz. Há relatos de que a fogueira era ainda maior.

O Illimani, cartão postal de La Paz. Há relatos de que a fogueira era ainda maior.

MODO DE PREPARO

1)      Incense o jogador, elevando-o a um patamar em que ele ainda não está

Meses de novela. Um nome que era completamente desconhecido ao torcedor pernambucano se tornou figura carimbada nas listas de especulações de reforços para o Sport. Até que, no início de julho, o clube confirmou a contratação de Alejandro Chumacero. Ele não chegou ao Brasil, no entanto, em condições físicas ideais. Esse fator, potencializado pelo desgaste que o jogador acumulou quando esteve a serviço da seleção boliviana, deveria ser mais do que suficiente para apresenta-lo à torcida com alguma sobriedade.

Obs.: Mas se você quiser provar desta iguaria, não ligue para isso: flambe bem o atleta (dica: use aquele rum cubano, que você pode encontrar facilmente em qualquer esquina de Little Havana), e inebrie o torcedor até fazê-lo delirar com o glamour que só uma contratação internacional é capaz de proporcionar.

2)      Esconda-o num freezer, tirando-o eventualmente para descongelar – na brasa ardente

Por tudo isso, ao chegar no Sport, o treinador Geninho se deparou com um problema inusitado: um jogador que, mesmo sem entrar em campo, já estava na boca da torcida. A expectativa em torno da sua estreia, consequentemente, se tornou pauta diária de todas as resenhas esportivas do estado. E também de todas as coletivas. Nelas, o treinador gradativamente mostrou todo o seu incômodo com a pressão. E para deixar isso bem evidente, insistiu em deixar o volante no banco de reservas, sem lhe dar oportunidades de jogar em sua posição -, só nos minutos finais de quase sempre partidas já resolvidas.

A situação passou a incomodar o próprio Chumacero, que não tem aproveitado bem suas chances e vem mostrando uma afobação típica de quem está extremamente ansioso para acertar.

3)      Jogue-o na fogueira e aguarde a ira da torcida chamuscá-lo por inteiro

Eis que surge a “grande chance” de Chumacero: praticamente eliminado da Copa Sul-Americana após uma derrota por 2×0 no jogo de ida, o Sport receberia o Libertad “em casa”, na Arena Pernambuco. Uma partida em que Geninho, obedecendo à escala de prioridades da diretoria, optou por escalar alguns jogadores reservas, para conhece-los melhor e lhes dar ritmo de jogo.

Em campo, entretanto, o que se viu foi um time que mostrou seríssimas deficiências, de ordem técnica e tática, em todos os setores do campo. O boliviano, que pela primeira vez começava uma partida com a camisa do Leão, seguiu a toada: teve uma atuação discreta, em que mostrou todo o nervosismo e o “excesso de vontade” que vem marcando sua passagem pelo clube até então. Mas entre os quase vinte mil torcedores que foram à Arena, que finalmente haviam assistido aos primeiros 90 minutos da contratação mais badalada do clube na temporada, o pensamento era um só: “fomos enganados!”

4)      Adote um ar compreensivo, diga que o jogador “não está pronto” e guarde-o na gaveta mais gelada do seu freezer

Foi esse o tom que Geninho usou em entrevista, hoje à tarde, à equipe da CBN Recife. Esquecendo todas as declarações atravessadas, todas as insinuações e respostas confusas sobre o atleta, o técnico declarou que a torcida “precisava ter paciência” com ele. Disse que foi criada “uma expectativa muito alta”, e que “o próprio jogador” estava se sentindo pressionado. O que pode mesmo ser verdade: trata-se de um jovem que, mesmo já tendo alguma bagagem, enfrenta um desafio que talvez não esteja pronto para assumir. Mas o ar ponderado e protetor simplesmente não cola – não para o mesmo treinador que, até há pouco tempo, esbravejava quando era perguntado sobre o porquê de nunca dar chances ao atleta.

5)      Recolha o que sobrou e tente aproveitar o jogador… quem sabe, na próxima temporada.

 

Bom apetite!

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.