No Centro Limoeirense, a volta da dupla dinâmica

bala e rosembrick centro limoeirense

Cinco anos depois, Bala e Rosembrick se reencontram no centenário do Centro Limoeirense.

Os últimos oito anos do Santa Cruz foram de um calvário que custa a chegar ao seu fim. Rebaixamentos em sequência o levaram às profundezas do futebol brasileiro, e nesses tempos de campeonatos estaduais tão desvalorizados, o torcedor não dá muita importância ao Tricampeonato conquistado em sequência. À exceção das três finais em que o clube derrotou o Sport, o torcedor coral tem pouquíssimas boas lembranças dessas últimas temporadas. No Arruda, as últimas memórias alegres da torcida remetem a um tempo distante, e a dois atletas que entraram não só na história do Santa, mas também no folclore do futebol pernambucano.

Eles estavam em alta em 2006, ano da última grande campanha coral no cenário nacional. O primeiro jogava com a camisa 10: era um meia esquálido, mas extremamente técnico. Suas boas atuações logo o tornaram conhecido entre os torcedores como o “Mago” da Bola. Ele era o principal responsável pela articulação de jogadas do Santa Cruz campeão pernambucano e vice-campeão da Série B de 2005.

O segundo, baixinho, atarracado e extremamente veloz, se consagrou como principal nome daquele time. Foi ele o responsável por muitos dos gols que garantiram ao Santa Cruz o acesso, e acabou se tornando o grande ídolo da torcida. Rosembrick e Carlinhos Bala eram mais do que destaques individuais de um time vencedor – construíram uma bela relação de amizade e se tornaram uma verdadeira dupla dinâmica. Que agora se reencontra, no ocaso de suas carreiras, para tentar conduzir o time mais antigo do interior do estado à elite do futebol local.

O início: sucesso no Mundão

Santa Cruz vice-campeão da Série B de 2005: a grande vitrine da dupla.

Santa Cruz vice-campeão da Série B de 2005: a grande vitrine da dupla.

Carlinhos Bala e Rosembrick trilharam caminhos muito distintos até se encontrarem no Santa Cruz. Nascido em Recife e criado nas categorias de base do Tricolor, Carlinhos recebeu oportunidades no clube desde muito cedo. No entanto, foi emprestado seguidas vezes: primeiro para o Náutico, e depois para o Beira-Mar, de Portugal, onde atuou até 2004. Mais maduro, voltou ao Santa e logo conquistou seu espaço, fazendo de sua velocidade e poder de finalização algumas das principais armas do time. 

Depois de passar dois anos no futebol português, Bala voltou ao Santa Cruz pronto para virar ídolo.

Depois de passar dois anos no futebol português, Bala voltou ao Santa Cruz pronto para virar ídolo.

Já Rose, como ficou conhecido, é natural de São Lourenço da Mata, zona metropolitana da capital pernambucana, e teve um início de carreira um pouco mais conturbado: rodou por quase uma dezena de clubes até chegar ao José do Rego Maciel como uma aposta da diretoria coral. Mas sua qualidade para cadenciar o jogo e achar os companheiros em boas condições rapidamente o transformaram em titular absoluto e destaque tricolor.

O Santa foi o 10º clube da carreira de Rosembrick - o primeiro e único onde ele foi realmente feliz.

O Santa foi o 10º clube da carreira de Rosembrick – o primeiro e único onde ele foi realmente feliz.

Ambos foram referências na brilhante campanha que quase fez do Santa Cruz campeão da Segundona – teria sido, não fosse o papelão do Náutico. E justamente por terem terminado 2005 em alta, passaram a ser especulados em alguns dos principais clubes do país. Após o bom campeonato pernambucano do ano seguinte, quando o Tricolor ficou com o vice-campeonato após uma emocionante disputa de pênaltis com o Sport, o assédio passou a ser insustentável. E assim, os dois partiram. Por R$ 1,2 milhões, Bala foi para o Cruzeiro, e Rosembrick foi emprestado ao Palmeiras até o final de 2006. Pela porta da frente, com troféus levantados e seus nomes marcados na galeria de heróis tricolores.

O reencontro – e o desencontro

Bala e Rosembrick juntos outra vez no Sport. Só o baixinho deu certo com a camisa rubro-negra.

Bala e Rosembrick juntos outra vez no Sport. Só o baixinho deu certo com a camisa rubro-negra.

Mas nem tudo correu como estava planejado. Eram tempos difíceis no Palmeiras, e a pouca continuidade no time titular somada às dificuldades da vida nova em São Paulo foram suficientes para impedir a adaptação de Rosembrick ao Alviverde. Saiu do clube no início de 2007 rumo a um novo desafio: voltar a sua terra natal e defender o grande arquirrival do time que lhe havia dado projeção nacional. Ele chegava ao Leão cercado de grandes expectativas e apontado como possível maestro do time que jogaria a Série A naquele ano. O que ele não esperava era que pouco depois, seu grande amigo e companheiro Carlinhos Bala também seria contratado pelo Leão, após meses de especulações.

Naquele ano, o Sport protagonizou uma campanha de poucos momentos marcantes. O Rubro-negro fez um Brasileirão medíocre, terminando na 14ª posição – realidade muito diferente do ambicioso discurso do diretor Homero Lacerda, que havia prometido brigar por uma vaga na Libertadores. Mas se Rosembrick foi afetado por lesões e não conseguiu se firmar como titular, o mesmo não pode ser dito de Carlinhos Bala: o atacante se adaptou rapidamente e apresentou boa evolução técnica, chegando a ser deslocado para o meio-campo em alguns momentos.

Já na descendente de suas carreiras, Rose e Bala se reencontram para jogo do Pernambucano entre Araripina e Santa Cruz: a amizade ainda era a mesma.

Já na curva descendente de suas carreiras, Rose e Bala se reencontram para jogo do Pernambucano entre Araripina e Santa Cruz.

Ao final do ano, Bala era unanimidade entre os torcedores do Leão, e nome certo para continuar em 2008. Já o “Mago” não teve a mesma sorte: foi apontado como uma das piores contratações da temporada e deixou o clube – sem deixar saudades na torcida. Aí, os caminhos de Bala e Rosembrick se separavam: enquanto o atacante ficou no Leão, conquistando sua maior glória profissional, a Copa do Brasil, e se proclamando “Rei de Pernambuco”, o meia começou um acentuado declínio em sua carreira, criando polêmicas e colecionando saídas conturbadas da maioria dos clubes pelos quais passou.

Dois velhos conhecidos, um novo desafio

Bala e Rosembrick vestindo as cores que consagraram sua parceria: oito anos se passaram.

Bala e Rosembrick vestindo as cores que consagraram sua parceria: oito anos se passaram desde então.

Para ambos, a passagem pelo Sport significou um ponto de curva em suas trajetórias. Indiscutivelmente, Bala teve muito mais êxito com a camisa rubro-negra. Mas após deixar a Ilha do Retiro, ele rodou por diversos clubes – chegou a defender, pela segunda vez, os três grandes pernambucanos, sem o mesmo sucesso. Passou também desapercebido por Atlético Goianiense, Fortaleza e CRB, e desde o final do ano passado estava parado, apenas mantendo a forma física. O destino foi ainda mais duro com Rosembrick: o meia perambulou por uma infinidade de clubes, sem jamais conseguir recuperar seu futebol.

Eis que no auge de seus 34 anos, o futebol lhes guardava um surpreendente reencontro: os velhos companheiros se deixaram seduzir pelo projeto do Centro Limoeirense, o clube mais antigo do interior de Pernambuco. Para comemorar seu aniversário de cem anos, o Dragão resolveu investir na contratação de jogadores experientes e midiáticos, e reuniu outra vez Carlinhos Bala e Rosembrick. Em busca do acesso à elite estadual em 2014, e do resgate do orgulho e da tradição de uma das principais torcidas do interior.

As condições físicas e técnicas das contratações bombásticas não são mais as mesmas de outrora: graças à sua vida desregrada, o “Mago” está ainda mais debilitado, enquanto Carlinhos perdeu grande parte de sua explosão, principal característica de seu jogo. Mas a diretoria alvirrubra espera apenas que o entrosamento e a grande relação de cumplicidade entre os dois ajude o Centro a alcançar seus objetivos – nada menos do que uma justa retribuição ao clube que promoveu o reencontro de dois grandes parceiros.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.