Os Culés e a Raposa

  • por Ordep Jose Trindade Serra
  • 7 Anos atrás

Uma raposa à beira de um ataque de nervos: um espetáculo terrível. Eu vi. E me assustei. A criatura girava feito uma louca, praguejando em língua vulpina, a ranger os dentes que eram soberbos punhais. A agitação de sua cauda em foice, prateado cometa, formava uma ventania. Com passos rápidos, ela subiu pelas paredes, arranhou o teto, colheu com os dentes a lâmpada acesa e desabou na minha cama. Olhos de esfinge me fitaram, desafiadores. Entre os dentes iluminados da fera surgiu uma voz cristalina: “Entenda bem, é um sonho. Juro por minhas estrelas que não será real. Mas ainda assim está me irritando. Não se atreva a sonhar de novo com tamanha desgraça. Se levante logo, vá a um terreiro, tome um banho de folhas e esconjure o mau presságio.” Eu me defendi como pude: “Nem sei que presságio é esse”. Ela retrucou: “Nem eu. Mas está me irritando”. Levantei-me assombrado. Quase tropeço na garrafa de cachaça que comprei em Ouro Preto. Cachaça feiticeira, já vi: bastaram uns goles para me derrubar. Em Minas tem dessas coisas. Me benzi sete vezes e me levantei para a claridade.

Dia bonito, promissor. Meu irmão já estava vestido com a camisa do Barça e procurava no jornal um restaurante catalão. Não achou, ficou irritado com o atraso da cidade. Os espanhóis que temos por perto são na maioria galegos ou madrilenhos, que ele considera inferiores em matéria de futebol. Foi almoçar com um amigo daqui mesmo, um mestiço de crioulo com italiana que se considera culé. Eu fiquei em casa, com mulher e neta, almocei muito bem à brasileira e me deliciei com a partida.

No primeiro tempo, o Barcelona mandou em campo com sua dança matemática. O Real Madri esperava de modo matreiro, contraído que nem mola para o possível contra-ataque. Mas os culés estavam bem armados, não deram sopa. Iniesta tecia seu enredo feroz com a perícia de sempre, Messi era Messi – desassossego eterno dos adversários -, e Neymar, estreante de gala no grande clássico, mostrou sua arte infernal.

Agora todos reconhecem: a dificuldade de enfrentar o Barça multiplicou-se terrivelmente com a presença da nova fera, um leopardo sonso a rondar o campo inimigo com a leveza de um anjo sanguinário. Messi é um perigo vivo que não permite cochilo – e agora tem um parceiro que exige vigilância múltipla, que pode surpreender a qualquer instante, pois num átimo estraçalha uma boa defesa.

Neymar está desenvolvendo entre os culés um sentido harmônico de jogo coletivo que o torna ainda mais brilhante. Sem perder o ritmo, sem desviar-se da pauta, improvisa solos  maravilhosos. Assim foi que  arrematou uma investida diabólica de Iniesta com um bote ferino, preciso, mortífero – e compôs um gol decisivo.

Não ficou nisso. Coroou uma partida impecável com um lance perfeito que tirou a força do adversário quando ele mais ameaçava: com luminosa exatidão e uma presciência apolínea fez o lançamento que resultou no gol de placa do chileno Alexis Sánchez.

A luta foi bonita. No segundo tempo, o Real Madrid voltou com outra disposição. Cresceu, atacou, levou perigo. Empurrou o Barça para a defesa. O jogo poderia ter tomado outro rumo se o juiz marcasse o pênalti exigido por Cristiano Ronaldo.

(Se foi ou não foi pênalti, até agora se discute. Não me peçam que decida: serei parcial. Torço pelo Barça, time sempre merecedor dos beijos da fortuna. Direi apenas uma coisa: não está certo presumir a desonestidade do árbitro. É o que sempre afirmo, com santa certeza. Mas confesso que de vez em quando me desdigo: cometo mais do que desejaria este pecado de torcedor).

Sim, a luta foi bonita. O que torna bela uma disputa dessa ordem é a incerteza. O possível pênalti e o chute na trave de Benzema, se fossem corrigidos pelo Destino segundo o desejo madrilenho, teriam mudado o panorama. O Real poderia ganhar. O gol de Jesé nos acréscimos fez justiça à garra madrilhenha. 

Mas vamos e venhamos: o Barça ganhou com justiça. O golpe mortal desferido espetacularmente por Sánchez e preparado por Neymar foi  um maravilhoso invento sul-americano que ratificou de modo pleno a vitória catalã.  Só não entendi porque Tata Martino tirou de campo os melhores jogadores, as estrelas do jogo: o fabuloso Iniesta e o decisivo Neymar. Reconheço, porém, que ele conhece do assunto, sabe o que faz. Sua intuição genial foi premiada com o gol de Sánchez, substituto de Fábregas.

Eu estava saboreando essa vitória catalã quando o telefone tocou. Era minha amiga mineira, a bela Deadorina, perguntando se eu estava ligado no jogo que ia começar entre o Cruzeiro e o Criciúma. Ambos torcemos pelo Cruzeiro. Tal como eu, minha amiga estava confiante. Ligou pelo celular, da arquibancada do Mineirão. Disse logo que a raposa ia divertir-se matando um tigre. Eu sou um baiano velho, apreciador da sabedoria dos gregos e de meus antepassados nagôs, que sempre recomendam cuidado com o antegozo das vitórias. Respondi que torcia por nosso triunfo, até para enterrar de vez os azares de derrotas recentes, todas injustas e absurdas, mas me guardava para celebrar no fim da partida: tigres não são gatos e o desespero dos felinos sempre os torna  mais perigosos. Deadorina (Diadorim para os íntimos) riu de meus receios e respondeu-me em tom roseano:

 “Não carece de ter medo nunca”.

Mudei de assunto: perguntei por Riobaldo, o namorado atleticano com quem ela vive às turras. “Não é hora de falar em galo doido” –  a bela respondeu, com certa aspereza. Pelo tom da voz de minha brava amiga, adivinhei a briga medonha que eles tiveram. A moça ferina confirmou: “Ele andou cacarejando demais por conta de uma vitoriazinha, de modo que me aborreceu. Quase lhe arranco todas as plumas”.

E mais não disse nem lhe foi perguntado, porque o time celeste já entrava em campo, sob tremenda aclamação.

Gente, foi um sofrimento. Por pouco não enlouqueço na primeira etapa. Logo no comecinho, o tigre deu uma estocada  que quase resulta em gol, por conta de um vacilo bisonho da defesa cruzeirense. Este primeiro susto passou, tão depressa como veio. O time celeste se recompôs e afirmou com galhardia o esperado domínio de campo: fez dois a zero no ritmo  usual de seu bailado fulminante. Fiquei tranquilo, certo de que a vitória já estava garantida.

Ledo engano. De repente, deu-se a peripécia dramática, digna de palcos shakespearianos. A fera que estava do outro lado cresceu, agigantou-se, com garras de assombro. Perante os olhares estarrecidos de um público subitamente atônito, o Criciúma descontou, empatou, virou o jogo com sinistra facilidade.

Me lembrei do sonho pavoroso, lamentei não ter tomado o tal banho de folhas que a visão vulpina me recomendou. Liguei para um pai de santo que conheço, mas ele estava ocupado com uma delegação do Botafogo. Como único remédio, derramei religiosamente um ou dois copos de vinho garganta abaixo: um modo santíssimo de oração.

Tive trabalho para explicar minha aflição a Regina, minha mulher. Ela me lembrou que uma derrota pouco significaria para o Cruzeiro, rico de uma pontuação que dificilmente um rival poderá alcançar neste campeonato. Retruquei que a gente vinha de umas derrotas ilógicas, blasfemas, inesperadas, contrárias à razão e à ordem da natureza; falei que era preciso parar com as malditas escorregadelas na plataforma do triunfo, antes que o deslizamento  assumisse proporções botafogais. Admiti que meu pavor era exagerado e absurdo, mas  não o contive. Precisei de mais vinho para serenar. Expulsei da sala minha gata, a Messalina, que olhava hipnoticamente para o televisor: fácil adivinhar para quem torcia essa feiticeira malhada. E assisti o segundo tempo rezando baixinho, entre palavrões estimulantes, de efeito mágico.

Deu certo. O Cruzeiro reagiu, a raposa venceu o tigre com botes certeiros de malícia celeste e força demoníaca.

Diadorim ainda tentou falar comigo, mas quase não foi possível. Ela estava muito rouca e eu um tanto bêbado: mal conseguimos nos abraçar pelo telefone. Só hoje pela manhã eu soube do seu comportamento heroico na sequência do drama: a fera me contou que se manteve quase calma, apenas estapeou dois ou três companheiros que ousaram vaiar a equipe celeste ao fim do primeiro tempo. Mas eles eram boa gente, generosa e lúcida: no final da partida, chorando de dor e alegria, esses incréus lhe deram toda a razão.

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Graduado em Letras pela UNB, Mestre em Antropologia Social pela UNB e Doutor em Antropologia pela USP. Professor Associado do Departamento de Antropologia da FFCH / UFBA. Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFBA; Prof. participante do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFBA. Membro da Associação Brasileira de Antropologia, da SBPC, da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos e da Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia. Membro fundador do Grupo de Pesquisa “Encruzilhada dos Saberes”. Fundador e Coordenador do Grupo Hermes de Pesquisa e Promoção Social e do Movimento Vozes de Salvador. Produção principal em Antropologia da Religião, Antropologia das Sociedades Clássicas, Etnobotânica, Teoria Antropológica. Tradutor de textos científicos e literários. Escritor premiado três vezes em concursos nacionais de literatura, com obras de ficção (conto, novela).