Procura-se um técnico

Foto: dpa - Jens Keller começa a sentir o peso dos resultados ruins

Foto: dpa – Jens Keller começa a sentir o peso dos resultados ruins

“Em clássico não se erra”. Esta frase não chega a ser um ditado popular entre os boleiros, mas deveria se tornar lei para uns e outros, principalmente para Jens Keller, técnico do Schalke 04. No derby do Vale do Ruhr do último sábado, 27, diante do Borussia Dortmund, o comandante azul real errou feio, não foi a primeira vez e não creio que tenha sido a última.

O Schalke foi escalado no 4-2-3-1, mas com três jogadores que são laterais-esquerdos de origem. Dennis Aogo foi o único que jogou na função em que é especialista, já Sead Kolasinac e Christian Fuchs precisaram se virar em lugares pouco habituais. O primeiro atuou na cabeça de área, ao lado de Roman Neustadter, o segundo atuou pela esquerda na linha de três armadores do time.

Inacreditavelmente, o primeiro dos três gols do Dortmund na Veltins Arena ocorreu no momento em que a faixa superlotada de laterais estava aberta. Aogo desarmou Marco Reus, mas a bola parou nos pés de Henrikh Mkhitaryan. O lateral, displicentemente, deu às costas para o lance e, sem ninguém na cobertura, viu o camisa 11 rival acionar Pierre Aubameyang na hora de marcar.

Essa opção de Keller causou uma enorme confusão no trio. Ninguém se entendia na hora do posicionamento, com um ocupando o lugar do outro sem nem perceber. E se a missão disso era parar Reus, sinto em dizer que esta não esteve nem perto de ser concluída, principalmente porque dar muita atenção ao pica-pau borussiano acabou deixando o armênio Mkhitaryan com espaço para fazer uma partida memorável.

Keller não é burro a ponto de não perceber seus erros, não à toa, sacou dois dos três laterais que escalou (Kolasinac e Fuchs). Ele poderia até alegar que lhe faltavam opções confiáveis, mas não que inexistiam alternativas. Para a cabeça-de-área, Keller tinha o desfalque de Marco Höger, mas contava com Jermaine Jones no banco de reservas. O norte-americano pode ser violento e receber muitos cartões, porém é um jogador acostumado à função e que atua bem como elemento surpresa (única característica que gosto no atleta). Se quisesse ser mais agressivo, bastava recuar Boateng (que já jogou assim) e entrar com mais um meia.

Para o setor de armação, sem Jefferson Farfán, faltou ousadia mesmo. Por que não apostar em Max Meyer ou Leon Goretzka? Só por que são garotos? Ok, então que escalasse Christian Clemens, jogador mais rodado, apesar de também ser jovem. Inventar Fuchs, um lateral muito bom ofensivamente, mas que é útil vindo como elemento surpresa, foi um erro. A inesperada presença do austríaco se tornou algo banal e fácil de anular.

Esse erro diante do Dortmund não foi único na semana. Contra o Chelsea, pela Liga dos Campeões, iniciou a partida sem centroavante, deixando Ádám Szalai esquentando o banco. Max Meyer, que entrou em seu lugar, falhou em um dos gols londrinos e logo foi sacado.

Até mesmo os números mostram o quão mediano é o desempenho do Schalke com Keller. Ele assumiu o clube em 16 de dezembro de 2012, e desde então foram 37 partidas, 18 vitórias, 12 derrotas e 7 empates. O aproveitamento é de 54,95%, sendo que Huub Stevens, seu antecessor, tinha um aproveitamento de 61,37%. O detalhe é que o Schalke de Stevens saiu de campo derrotado 15 vezes em 63 partidas, já o time de Keller já perdeu 12 com apenas 37 disputas.

Foto: Divulgação - Hoje no Paok, Huub Stevens tinha desempenho melhor que o sucessor Jens Keller

Foto: Divulgação – Hoje no Paok, Huub Stevens tinha desempenho melhor que o sucessor Jens Keller

É uma queda brusca se levarmos em conta que o elenco está melhorado. O treinador holandês não tinha Max Meyer (ainda nos times de base), Boateng, Szalai, Goretzka, Clemens, Felipe Santana e outros atletas que vieram nesta temporada. Além disso, o Schalke não sofreu nenhuma grande perda em seu elenco, muito pelo contrário, conseguiu manter Julian Draxler, joia do clube que vem despertando interesse de diversas equipes do mundo.

É verdade que não podemos exigir que Keller leve os Azuis Reais para a briga pelo título nacional porque isso é muito difícil. O Schalke não está nem perto do patamar de Bayern e Dortmund e nem mesmo do Leverkusen. Com muita boa vontade, os coloco como quarta força da Alemanha.

Mas não adianta passar a mão na cabeça e se fazer de coitado por causa disso. O time de Gelsenkirchen está há anos tentando ser mais que coadjuvante no país. Busca reforços no exterior, lota seu estádio e está sempre presente nas competições da Uefa, mas não consegue se organizar dentro de campo.

Nos últimos dez anos, o Schalke já teve mais de uma dezena de técnicos e precisará aumentar essa lista se quiser manter objetivos decentes nesta temporada. O treinador atual está verde, assim como mostrara na curta passagem pelo Stuttgart em 2010 (nove jogos, duas vitórias, três empates e quatro derrotas). Jens Keller pode até vingar no futuro, mas o melhor é despedi-lo e esperar que amadureça em outro clube, pois ainda não está pronto para dar o passo adiante que o Schalke tanto ameaça dar nos últimos anos.

Comentários

Uma mistura maluca de pessoa. Academico de jornalismo, catarinense de origens italianas e espanholas, mas apaixonado pela bola que rola na terra da Torre Eiffel e pela gorduchinha que pinta os gramados cheios de chucrute da Alemanha. Não escondo minha preferência por times que tem uniformes nas cores amarelas e pretas, mas sempre com análises bem embasadas... ou não. Mas acima de tudo, sou um Doente Por Futebol.