A hora da volta por cima

arruda

Por Hugo Melo

Poucos podem descrever a sensação dantesca de percorrer em tão pouco tempo os grandes círculos do inferno, cruzar o monte purgatório e atingir os círculos mais altos do paraíso. Mas menos ainda, se pode dizer, da queda dos anjos que em um piscar de olhos saem do reino dos céus às profundezas esquecidas do inferno. Sim, a cruz era pesada e parece ter sido antevista ao próprio clube.

“O Santa Cruz nasceu e viverá eternamente”; Já preconizava Alexandre Carvalho, um dos fundadores do mais querido, ainda nos primeiros momentos de vida de seu rebento. Afirmação esta que por tantas vezes não foi questionada, até por seus mais fieis torcedores, nestes últimos anos de calvário.

Era 27 de novembro de 2005, o Terror do Nordeste estava embalado na Série B.

Liderou com folga a primeira fase terminando com seis pontos a mais que o Marília na fase de pontos corridos da competição.

Este, que seria um dos grandes divisores de águas da história do Brasileirão, era um campeonato com uma regra peculiar: 22 clubes, apenas dois subiriam e seis seriam rebaixados. O campeonato daquele ano seria o último Brasileirão antes da era dos pontos corridos com 20 clubes. Com a ajuda da dupla dinâmica, Carlinhos Bala e o “Mago” Rosembrick (uma homenagem ao grande futebolista holandês Rob Resenbrink), o Santa Cruz praticava um futebol bonito e encantava a imensa torcida tricolor que, aos poucos, via se concretizar um ano perfeito: o título pernambucano, após liderar com folga os dois turnos e garantir o título sem a necessidade de uma final; e ainda a cada vez mais concreta possibilidade de disputar a novamente a primeira divisão, algo que não acontecia desde 2001.

Mal sabia a torcida tricolor que aquela temporada fantástica seria o início de um sofrimento que duraria seis anos. Seis anos de maldições de um pênalti perdido, 6 anos de provações e de glórias. O Santa protagonizou o maior descenso na história do futebol brasileiro, talvez do futebol mundial. Em quatro anos o tricolor do arruda percorreu as 3 divisões do futebol brasileiro até atingir a recém criada Série D.

Do céu ao inferno em quatro temporadas, conseqüência previsível de anos de má gestão e incompetência da uma diretória muitas vezes mal intencionada que iniciou um processo de fragilização financeira, principalmente nos momentos em que “confundiam” o patrimônio do clube com seu patrimônio pessoal. Mas chegar ao fundo do poço tem em si um aspecto positivo: a partir de então não há outro caminho possível se não a subida. Era preciso uma mudança radical, um longo processo de reconstrução, com todas as dores e fragilidades próprias ao processo regenerativo, o processo de cicatrização, e seria Fernando Bezerra Coelho (e, posteriormente, Antonio Luiz Neto) o homem que iria resgatar a locomotiva coral e a duras penas colocar os vagões de volta nos trilhos.

Mesmo com as decepções de início do processo a equipe volta a recuperar seu prestigio, mostra sinais claros de revitalização, evidencia seu processo de ressurreição: nos últimos três anos, o Tricolor protagonizou também uma verdadeira façanha: tri-campeão pernambucano em cima de seu maior rival, em confrontos que muitas vezes mostravam realidades totalmente diferentes, um clube na série A e outro na série D.

Mas quem, sobre todos os outros, poderia ser exaltado nesse processo de reconstrução?

Ano após ano o Santa Cruz perdido no inferno procurava seu guia, seu Virgílio, e nas galerias da República Independente do Arruda, o Tricolor encontrou uma massa que estava apta a carregar aquela tão pesada cruz. A torcida coral, ano após ano impressionando com médias próprias às grandes equipes do futebol internacional, foi retratada em reportagens nos mais diversos periódicos especializados no assunto em todo o mundo. Chegando a figurar em 36º na lista das maiores médias de público do ano, com tradicionais 30 ou 40 mil pessoas por jogo.

E seria a conjunção de todos esses fatores que inexoravelmente levaria ao momento fatídico: o presente ano de 2013.

O ano parecia atípico, cheio de incertezas, altos e baixos, grandes e impensáveis felicidades e amargas decepções. Era o fim da era Zé Teodoro, que sucumbira à pressão pós-decepção na Série C do ano anterior. Para preencher esse vazio, assumia o jovem treinador Marcelo Martelotte, responsável por um dos esquemas táticos mais eficientes das últimas temporadas tricolores, contando com a segurança do goleiro Tiago Cardoso, A eficiente dupla composta por William Alves e Renan Fonseca, o bom trabalho de Everton Sena, Renatinho, Natan e Raul, além da dupla Caça Rato e o artilheiro tricolor: Denis Marques. Além disso, o Santa Cruz não precisaria se preocupar com o campeonato estadual nos primeiros meses do ano – voltaria seu foco para a Copa do Nordeste. Com um grupo fácil, o tricolor do Recife só seria derrotado uma única vez na primeira fase, frente ao Campinense. Ainda sem muita segurança no cargo, Martelotte seria eliminado nas oitavas de final frente ao fortaleza, após ter a vaga retirada de suas mãos nos últimos segundos da partida, tendo perdido dois pênaltis nos dois jogos decisivos.

denis marques

A pressão foi grande, mas o treinador soube se manter em pé. Voltou-se para o estadual sem grandes expectativas e justamente nesse clima colocou a equipe para funcionar.

Foi o melhor nos clássicos do segundo turno e por pouco não liderou a competição: um pênalti no último minuto no jogo contra o Sport na última rodada.

Nas semis, enfrentaria o favorito Náutico, e justamente nesse clássico das emoções conturbado, Renatinho e Dênis Marques decidiriam a partida: o primeiro, num golaço na partida de ida, e o segundo, de pênalti na partida de volta. A final seria novamente contra seu maior rival. Após uma boa exibição contra o Internacional de Porto Alegre, o Tricolor chegava com moral para a decisão. Frente a um público de quase 40 mil pessoas, o Santa soube conter a pressão do rival e contando com a estrela de seu maior artilheiro – além do seu entrosamento com o parceiro Caça-Rato, venceu a primeira partida e levou a decisão com vantagem para a Ilha do Retiro.

Em campo inimigo, o Santa Cruz soube conter uma avalanche ofensiva. Aproveitando os poucos contra-ataques o Tricolor chegou ao primeiro gol com a recém descoberta habilidade de Flávio Caça-Rato, aparecendo de surpresa após grande lançamento de Raul, driblando o arqueiro Rubro-negro e abrindo o placar.

Mesmo com as constantes ofensivas do Leão, a barra tricolor estava muito bem guardada: São Tiago Cardoso fazia milagres e não deixava o Sport empatar.

Aos poucos a moral do Leão foi se esgotando, dando espaço para Sandro Manoel fechar o placar nos momentos finais da partida: Era um verdadeiro sonho, uma proeza inimaginável, Santa Cruz Tricampeão pernambucano! E a missão de chegar a série B em 2014 cada vez mais possível. Ainda assim, o Santa Cruz não tem vida fácil. Parafraseando Euclides da Cunha, afirmo: o tricolor é, antes de tudo, um forte.

O caminho pareceu tortuoso quando o clube viu seu treinador sair pela porta dos fundos a caminho do recém derrotado rival. E sob muita desconfiança, veio o comando de Sandro Barbosa. Sob sua direção o Santa Cruz fez uma campanha incerta na primeira fase da Série C: 5 vitórias, 2 empates e 4 derrotas. Sandro Barbosa não parecia o homem certo para levar o Tricolor à Série B num dos anos mais importantes de sua história.

Foto: Assessoria SCFC

Foto: Assessoria SCFC

E após muita especulação, Vica, então treinador do líder Fortaleza, assume o comando de uma equipe com expressão de derrota. O novo treinador tratou logo de pôr ordem na casa e extrair o melhor de jogadores como o atacante André Dias, Luciano Sorriso, entre outros que foram fundamentais na última etapa da competição. Depois de quebrar um tabu de 3 anos sem vencer fora de casa na Terceira Divisão, e somar 11 pontos em 6 jogos, Vica levou o tricolor à inédita classificação para o mata-mata da competição. Num jogo com público de 37 mil pessoas, o Tricolor sacramentou a boa fase ao vencer por 2×0 o Brasiliense num jogo de nervos.

Contando um pouco com a sorte no último minuto do campeonato, o Santa Cruz consegue a primeira colocação do grupo e assim, chega ao derradeiro momento.

Apesar dos recentes imbróglios jurídicos e da incerteza quanto ao rival da partida, O Clube das Multidões traz a decisão para casa. Depois de largar na frente em Minas, o Santa Cruz precisa de um empate simples, neste jogo que promete levar mais 60 mil apaixonados para seu templo.

Foto: Globoesporte

Foto: Globoesporte

À frente, está o Betim Esporte Clube (antigo Ipatinga), 4º colocado no grupo B. O último obstáculo, que ainda ofusca a vista tricolor, tão próximo da luz no fim do túnel. Serão finalmente esses jogos decisivos, os dois últimos círculos que afastam o tricolor do monte purgatório?

A torcida, fiel guia, leva nas costas essa cruz cada vez mais leve. Vitoriosa na adversidade, carrega com orgulho uma flâmula de uma gente vibrante e fiel, de uma gente que não perde as esperanças e mostra mais que tudo que sabe ser bom no ruim – e melhor no péssimo!

A odisseia parecer chegar ao seu desfecho, e enfim o Tricolor pernambucano prepara o peito para entoar aquela velha canção de Paulo Vanzolini e Noite Ilustrada:

“Chorei

Não procurei esconder

Todos viram, fingiram

Pena de mim não precisava

Ali onde eu chorei

Qualquer um chorava

Dar a volta por cima que eu dei

Quero ver quem dava.”

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.