Bahia, futebol e religião

  • por Ordep Jose Trindade Serra
  • 7 Anos atrás

Pessoal, não dá para confiar em ateus baianos. Nesta última sexta-feira, 9 de novembro de 2013, um jornalista esportivo fotografou meia dúzia deles na Igreja do Bonfim, rezando fervorosamente. Surpreendidos pelos flashes, os incréus pediram pelo amor de Deus ao repórter que não publicasse as fotos denunciadoras. Bradaram que são contra fotografia não autorizada, ameaçaram se queixar a Caetano Veloso. Invocaram de mãos postas a santa privacidade e alegaram que têm uma reputação a zelar. (Isso aumentou a confusão: umas beatas quiseram logo saber que santa é essa). A coisa chegou perto de virar escândalo: do grupo que esse terrível jornalista surpreendeu fazem parte alguns dos mais famosos céticos de Salvador, grandes apóstolos da descrença, inimigos jurados da fé religiosa de todos os quilates.

No fim das contas, o jornalista, que é gente boa, prometeu segredo. Ameaçado de feitiço e de revelações indiscretas a sua senhora, optou pela solidariedade, garantindo que ele também é ateu, graças a Deus. Jurou por alma de Marx, pela memória de Saramago e pela vida de Michel Onfray que não vai publicar nada. Garantiu ainda aos colegas apavorados que não mostraria as tais fotos a ninguém. (Foi assim que o jornal A Tarde perdeu uma belíssima reportagem).

O homem só fez duas exceções: mostrou os benditos retratos a este cronista – seu amigo mais discreto – e a uma jovem antropóloga americana em que anda muito interessado. (Recentemente foi visto com ela nas cercanias de um motel da Orla, circunstância que salvou a honra ideológica da testemunha – um dos céticos do Bonfim – e, por extensão, a credibilidade de seus companheiros).

A moça privilegiada é minha colega, uma antropóloga. Está em Salvador concluindo uma pesquisa, justamente sobre a religião dos baianos. (Segundo me contou, gasta metade da bolsa com o psiquiatra). Boa observadora, minha colega notou que os descrentes fotografados na igreja estavam com roupas muito parecidas, tricolores. Me perguntou se é algum tipo de uniforme baiano de ateu religioso – categoria que ela acredita existir somente em nossa terra. Eu lhe expliquei que em outras circunstâncias ela poderia encontrar no mesmo templo um grupo de materialistas empedernidos vestidos de vermelho e preto.

Os dois grupos nunca rezam juntos, é claro. Aliás, verdade seja dita: tanto uns quanto outros – tanto os ateus rubro-negros quanto os tricolores – raramente vão à igreja: só em situações muito graves, quando o Bahia corre enorme perigo ou o Vitória se encontra em situação desesperadora.

Claro está que a maioria dos torcedores dos dois grandes times cuja rivalidade divide os baianos é gente de fé, ligada a diferentes cultos (alguns a dois ou três ao mesmo tempo). São inúmeros, nesse meio, os devotos do Senhor do Bonfim, não só católicos como espíritas, zen-budistas e luteranos. Sem falar daqueles que, como eu, cultuam Oxalá, o grande Orixá, o mais velho dos santos do candomblé. Conforme todo o mundo sabe aqui na Bahia, Oxalá tem convênio com o Senhor do Bonfim.

São poucos os ateus entre nossos doentes por futebol. O curioso é que são justamente os torcedores baianos mais religiosos que procuram a companhia dos céticos e se empenham em promover a participação deles em sua devoção. Isso ocorre em ocasiões especialmente dramáticas. Então os devotos, com vários argumentos – às vezes com emprego de métodos reprováveis – compelem os companheiros sem fé a fazer uma visitinha ao Padroeiro da Boa Terra na sua Sagrada Colina. Há pouco, um fanático torcedor do Bahia me explicou porque:

– Olha, camarada, na situação em que nosso time está, só o Velho salva. E do jeito que Ele anda ocupado, não vai se comover com prece de fiel: só mesmo reza de ateu faz Nosso Senhor sair de seus cuidados para fazer um milagre do tipo que nós queremos.

(Nota explicativa para quem não conhece a Bahia: “Velho”, aqui, é apelido de Jesus Cristo. Acho que é por causa do convênio).

Diga-se, pois, em defesa de nossos ateus esportivos: muitos deles vão à pulso à basílica, rezam na marra. É o caso, por exemplo, do ilustre Profesor Carlos Alberto Soares, um mestre avesso a toda espécie de crença religiosa. Ontem mesmo Fátima, sua esposa, deu-lhe o ultimato:

– Ou vai ao Bonfim e reza direitinho, ou dorme no sofá até o fim do ano. E trate de ser convincente, pois se o Bahia perde, já sabe: furo tuas calças, queimo tuas cuecas e jogo teus livros na rua.

Pois é, às vezes a turma radicaliza. Há pouco me contaram a bárbara história de um cavalheiro que foi sequestrado pela organizada de seu time e levado aos trancos ao pé do altar. O homem era um ateu convicto, materialista de carteirinha; mas depois de levar uns catiripapos fez uma prece tão fervorosa que sua equipe goleou o time adversário e escapou da degola gloriosamente.

Agora vejam a confusão: no primeiro momento, o bom infiel foi festejado. Mas logo em seguida perdeu a validade, caiu no desprezo. É que se converteu com o abalo da experiência. Batizou-se, crismou-se e entrou para a irmandade de Bom Jesus dos Martírios. Tornou-se, portanto, inútil para os casos extremos. Pois a turma acredita que nas situações desesperadoras só adianta a reza de um ateu legítimo.

Tanto é assim que os agnósticos não são valorizados. O pessoal desdenha:

– Ah, esse aí é pau de dois bicos. Não tem fé em nada: nem em Deus, nem no ateísmo. Um oportunista, entende? Fica só em cima do muro, se escorando no pode-ser. Tipo assim o Velho não liga, não vai perder tempo com cabeça de peteca. Na atual situação, precisamos mesmo é de um ateu militante, de preferência um excomungado com um pé no inferno.

Na manhã deste sábado eu tive um conversa muito interessante com o Príncipe Alberto, porteiro do condomínio onde moro, conhecido por sua elegância e verve filosófica. O Príncipe está preocupado. Tal como eu, torce pelo Bahia, que atualmente costeia o precipício, beira o grupo fatal dos candidatos ao rebaixamento. Às vésperas da partida contra o poderoso Atlético Mineiro, nosso bate-papo foi temperado por certa ansiedade. O porteiro fidalgo é adepto da teoria de que falei: crê profundamente na eficácia religiosa dos ateus. Mas como cidadão ilustrado, consciente e digno – trata-se de um raro exemplo de príncipe democrata – não admite o emprego da força para impor oração a quem quer que seja.

– É um grande abuso e pode sair ao contrário. O Senhor do Bonfim não gosta de violência. Mas reconheço que o problema é sério: hoje está difícil achar na Bahia um ateu verdadeiro, autêntico e obstinado, que embora tendo essas qualidades consinta em rezar espontaneamente, sob moderada pressão.

– De acordo com o IBGE, no último censo o número de pessoas sem religião aumentou em nosso estado – objetei.

O Príncipe retrucou:

– Note que eu disse ateu verdadeiro, autêntico. O artigo anda em falta. Os que existem por aí não merecem confiança. Materialistas nascidos em Salvador e arredores são paraguaios, por assim dizer. Ou seja, nossa ateuzada não se garante: basta um câncerzinho que o sujeito corre logo para um terreiro. Em nossa torcida, particularmente, não tem um herege que resista a um pênalti sem rezar o credo e fazer promessa a todos os santos. Aliás, a religião tá uma bagunça em nosso Estado.

– Como assim?

– Homem, numa terra onde a pessoa de manhã vai à missa e de noite à sessão espírita, onde evangélico faz ebó, crente muda de igreja de quinze em quinze dias, Hare-Krishna desfila no Olodum e nova-era se amarra com testemunha de Jeová, até Deus se atrapalha. Isso compromete muito o ateísmo e prejudica o futebol.

– De que jeito?

– Antes era muito mais simples. Se o time descambava, chamava-se o padre para benzer e o pai-de-santo para um descarrego. Hoje, quando a crise se manifesta, só um culto ecumênico resolve. Ora, esse tipo de culto pode ser tudo, menos econômico. Ninguém leva a sério se não tiver uns dez ou doze oficiantes. E uns trinta reclamam porque ficaram de fora. Naquela época em que a nossa religião era mais ortodoxa, limitada ao catolicismo com axé, o ateu sabia em que desacreditar. Hoje, ninguém atina com o labirinto da fé, portanto é impossível o livre-pensador saber exatamente no que não crê. Criou-se a categoria do ateu inseguro, do materialista desconfiado. Esse tipo de cético acaba se tornando muito crédulo. E religiosamente inútil, pelo menos para o futebol.

– Espero que não precisemos contar com esse recurso – disse eu.

O príncipe concordou. Ficamos por alguns segundos em silêncio, remoendo a preocupação. Um vizinho que apareceu nessa altura, um diabólico torcedor do Vitória, adivinhou o que nos preocupava e perguntou, irônico:

– Porque estão com essa cara de filme de terror? Alguma coisa a ver com o jogo de hoje à noite?

Tratei de disfarçar, pois não facilito com rival:

– Que jogo? A gente estava falando sobre a inflação. A verdade é que ela está fora de controle. O Mantega enrola tanto que parece rubronegro, mas o baque é real.

– E tem esse contingenciamento aqui na Bahia. As finanças do estado vão de mal a pior. Só os alienados que torcem por timecos não se preocupam – acrescentou o Príncipe.

– Curioso – respondeu o feroz vizinho. – Tricolor assustado vira economista. Ano que vem, com certeza vão fazer um seminário sobre finanças pública na segunda divisão.

Falou e saiu de fininho, não nos dando tempo para a resposta. Cruzamos os dedos, batemos na madeira e procuramos animar-nos, prevendo que a noite nos brindaria uma boa cacetada tricolor no galo, aliviando nossas aflições. Mas o jogo esperado nos trouxe apenas a frustração de um empate angustioso. Nosso time continua em situação crítica.

O Príncipe Alberto concluiu que é preciso mesmo apelar para o remédio heroico. Deixo aqui seu recado: se você é materialista, incréu, herege, excomungado, negador da fé, aluno do capeta ou coisa parecida – e também torcedor do Bahia – comunique-se com esta coluna. Será encaminhado ao GROAT – Grupo de Oração dos Ateus Tricolores, que já na próxima semana entrará em retiro espiritual.

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Graduado em Letras pela UNB, Mestre em Antropologia Social pela UNB e Doutor em Antropologia pela USP. Professor Associado do Departamento de Antropologia da FFCH / UFBA. Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFBA; Prof. participante do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFBA. Membro da Associação Brasileira de Antropologia, da SBPC, da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos e da Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia. Membro fundador do Grupo de Pesquisa “Encruzilhada dos Saberes”. Fundador e Coordenador do Grupo Hermes de Pesquisa e Promoção Social e do Movimento Vozes de Salvador. Produção principal em Antropologia da Religião, Antropologia das Sociedades Clássicas, Etnobotânica, Teoria Antropológica. Tradutor de textos científicos e literários. Escritor premiado três vezes em concursos nacionais de literatura, com obras de ficção (conto, novela).