Brasileirão 2013: entre o sonho e o desespero

  • por Ordep Jose Trindade Serra
  • 7 Anos atrás

Deadorina sonhou com uma raposa. Até aí, nada demais: nas suas andanças pelo Grande Sertão, ela já se deparou mais de uma vez com este animal manhoso que tanto admira. No seu sonho, porém, o bicho tinha um comportamento esquisito, meio fora do comum: flutuava no céu, assobiando uma peça de Gershwin, a majestosa Rhapsody in Blue. Segundo a linda moça alucinada, o som que o bicho produzia era perfeito, fantástico, de fazer inveja à melhor orquestra.

Diante deste sinal claríssimo, minha amiga não hesitou: tomou o avião e veio pressurosa para Salvador, onde celebrou mais uma noite de glória de seu time, na quarta-feira passada. Dia seguinte, quando nos despedimos, ela me recomendou com um sorriso maroto:

– Na sua próxima crônica, avise à concorrência abestalhada que o Campeonato Brasileiro de 2013 já acabou. E escolha outro assunto. Não perca tempo com a porqueira do vice-campeonatozinho que o resto vai disputar.

Dito isso embarcou, discutindo pelo telefone com seu namorado, o atleticano Riobaldo, que lhe dava parabéns um tanto irônicos. Escutei pelo viva-voz a provocação do atevido:

– O Campeão da Libertadores saúda o novo campeão nacional.

Rezo para que o temerário não tenha tido a má ideia de buscar a namorada no aeroporto. Uma briga dos dois pode causar tumulto e pânico em Confins. Mas Deus seja louvado, acho que a loucura dele não chega a tanto. A essa algura, o galo doido já deve ter-se refugiado nas veredas mortas.

Não vou seguir o conselho risonho de minha amiga, embora ainda me tome a embriaguez celeste que nós compartilhamos no meio da semana, à luz do Cruzeiro. Pois ela exagerou ao fazer pouco das próximas rodadas. A disputa que ainda se desenvolve no Brasileirão é séria e emocionante, com acentos dramáticos.

Tem duas cabeças o novo dragão que grandes clubes enfrentam no momento. Cada uma delas confronta um grupo, de que poucos vão salvar-se. De um lado, a esperança fustiga; do outro ruge o desespero com garras furiosas. Para os primeiros, trata-se da conquista de um lugar de honra na demanda do santo Graal de nossa América – a sagrada Taça dos Libertadores -; para os outros, trata-se de evitar a queda no abismo, no vale de lágrimas da segunda divisão.

Meu cunhado Joel, palmeirense incurável, protesta quando emprego essa expressão muito dura:

– O Vale agora está florido, iluminado por um astro glorioso que por ele passou. Será uma honra para os times que sofrerem tropeço a oportunidade de pisar em nosso rastro. A partir deste ano, o título da Série B assumiu um valor excepcional.

Eu replico que não vejo equipe nenhuma ansiosa por essa honra. Mas Joel não se abala: com verdadeira indignação, me repreende porque demorei a celebrar a campanha do Palmeiras. Segundo ele, a Academia pintou de verde o céu de São Paulo:

– Teve até marcha nupcial no Pacaembu, prenunciando o nascimento do Campeão do Brasileiro de 2014.

Bom, céu verde eu não vi. Não estava em São Paulo nesse dia. Assisti a partida pela tevê, que só mostrou o estádio, nada do firmamento. Ou seja, nossa televisão perdeu a chance de registrar um fenômeno único, um fato que sem dúvida interessaria todos os cientistas do mundo. Por causa da indesculpável omissão dos câmeras e da desatenção dos outros mortais – torcedores de clubes menos privilegiados em termos psicodélicos -, esse milagre colorido só teve testemunhas palmeirenses.

Mas é fato que havia no Pacaembu um casal de noivos entusiasmados, festejando o matrimônio. Acredito que, a essa altura, eles já devem ter tomado as providências para o nascimento de um novo campeão, como profetizou Joel. (Receio, porém, que a moda pegue, pois se for adotada por gente radical essa tradição de agendar no estádio futuros campeões – se a massa corintiana, por exemplo, quiser segui-la -, certamente a tremenda galera o fará em versão própria. E não sei onde isso pode chegar). Na discreta cerimônia do Palmeiras, foi tudo muito bonito. A noiva tentou até mandar a bola para as redes, mas errou. Espero sinceramente que o noivo faça o gol.

Joel glorifica sua equipe vencedora, como é natural. Só lamenta que seus heróis ainda não sejam devidamente reconhecidos pela crônica esportiva. Seu filho André vai mais longe: diz que Felipão devia convocar pelo menos Allan Kardec.

– Nosso craque pode ser um verdadeiro coringa. Ele é médium, como o nome indica. Às vezes recebe um espírito iluminado, tipo um Servílio, ou um Vavá. É verdade que às vezes baixa outro tipo de alma, gente sem luz. E a coisa complica. Mas bem orientado ele pode ir longe.

Fica a sugestão do meu sobrinho. Se for adotada, inovaremos no Brasil, com treino do escrete no campo e na mesa branca.

Feitos os devidos louvores aos campeões da Série B, passo aos times assustados da chamada elite de nosso futebol. Dou destaque ao bando de aflitos banhados pelo suor frio da angústia: os clubes que tentam manter-se, quando nada, no fim da fila da primeira divisão. Não sou indiferente a esse drama: rezo da manhã à noite para que meu Bahia não siga a trilha cinzenta deixada pelo Palmeiras. Torcedor do Vitória, meu vizinho diverte-se:

– Rezar não adianta. O Bahia já se ajoelhou ao pé do Santos e nada conseguiu. Pelo contrário, só fez piorar sua situação. Trate de conformar-se, amigo: seu pobre time há muito navega em águas turvas, na esteira do Náutico. Com perdão da má palavra, está nas vascas da agonia. Daqui a pouco passa por baixo de uma ponte preta e afunda de vez. Boa Viagem!

É claro que não aceito a profecia da boca infernal. Retruco no mesmo tom:

– Urubu de mau agouro, sua cantiga não me assusta. Ainda estamos no páreo. E no próximo ano, a coisa será bem diferente. Não se engane com os delírios de seu leão de feira. Depois de mordido pela raposa, ele perdeu o rumo. Teve as patas dilaceradas, não pode mais dar o salto que deseja. É melhor que acorde, portanto: aleijado não entra na Libertadores.

Dito isso, vou saindo, pois aflição é difícil de esconder. Passo a outro assunto.

Leitores amigos, comprovou-se plenamente o que já declarei nesta coluna: a CBF e seus torvos dirigentes odeiam o Bom Senso, nada querem com ele. A insensatez é sua mestra, sua irmã e sua amante, com quem geram disparates e atrociddes de todo tipo. Insistem com um calendário criminoso, fazem-se de surdos ante reivindicações moderadas e justas. Não admitem o fair-play financeiro, por exemplo. Seu jogo é outro. E agora, ainda por cima, querem posar de ditadores.

Aplaudi a atitude dos atletas que recentemente cruzaram os braços quando o juiz apitou o início da partida entre Grêmio e Vasco. Têm todo o direito de fazê-lo, quantas vezes quiserem, sejam quais forem os times e as disputas. Os nossos artistas da bola são homens livres.

Foto: Mowa Press / Divulgação

José Maria Marin | Mowa Press / Divulgação

As declarações turvas de Marin apenas mostram seu desamor à democracia. Quando ele ameaça determinar que o árbitro mostre o cartão amarelo ao atleta que agir assim, comete um abuso claro: arroga-se uma autoridade que não tem e induz os profissionais encarregados da arbitragem a violar a lei. Em jogo de futebol, o homem do apito deve limitar-se à aplicação das regras esportivas. Fora disso, é um cidadão como outro qualquer, em nada superior aos jogadores. Não pode impor-lhes coisa alguma, muito menos, restringir seus direitos. Não é legislador, nem polícia. Não lhe cabe inventar leis, impor normas que não foram legalmente estabelecidas por quem de direito. Caso se oponha à livre expressão do pensamento dos atletas, o árbitro estará cometendo um crime, violando a Constituição Brasileira. Se agir assim, desrespeitando o que diz a Carta Magna, pode ser preso. Sugiro que os próprios atletas deem voz de prisão ao primeiro que cometer esse flagrante abuso de autoridade. E denunciem o tiranete encastelado na CBF. Ele não pode cassar-lhes a cidadania, impedi-los de manifestar-se.

A CBF tem mesmo um grande amor ao disparate. A propósito, não foi outra coisa o treino recente da seleção brasileira, enfrentando o bisonho time de Honduras, com um árbitro de sinuca, um canadense alheio ao futebol. Os hondurenhos se enganaram de jogo, só queriam mesmo dar pancadas, de preferência no Neymar. Quando ele saiu de campo, ficaram aturdidos, sem saber o que fariam. Tiraram-lhes a caça. A goleada que sofreram poderia ter sido bem maior. Mas nossa seleção nada lucrou com o passeio.

Reprodução Instagram

Reprodução Instagram

Agora, amigos, por favor me deem licença: vou assistir a mais uma furiosa rodada do Brasileirão, apreciando o giro da bola entre o sonho e o desespero. Comentarei na próxima crônica.

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Graduado em Letras pela UNB, Mestre em Antropologia Social pela UNB e Doutor em Antropologia pela USP. Professor Associado do Departamento de Antropologia da FFCH / UFBA. Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFBA; Prof. participante do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFBA. Membro da Associação Brasileira de Antropologia, da SBPC, da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos e da Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia. Membro fundador do Grupo de Pesquisa “Encruzilhada dos Saberes”. Fundador e Coordenador do Grupo Hermes de Pesquisa e Promoção Social e do Movimento Vozes de Salvador. Produção principal em Antropologia da Religião, Antropologia das Sociedades Clássicas, Etnobotânica, Teoria Antropológica. Tradutor de textos científicos e literários. Escritor premiado três vezes em concursos nacionais de literatura, com obras de ficção (conto, novela).