Do mar de dúvidas à confiança cega: como evitar o “Arenazzo”

Andrés Iniesta, Usain Bolt, Jairzinho, Ronaldo, Maradona, Pepe Reina, Roberto Carlos (o ex-lateral)…  a lista é extensa. E todos eles concordam a um respeito: o Brasil é o grande favorito à conquista do Mundial de 2014. Esta é, de fato, a impressão que a equipe comandada pelo técnico Felipão deixou após o último amistoso do ano de 2013, contra o Chile: um time confiante, que mostrou ao longo do ano todo o talento e a intensidade de jogo necessários para criar temor em quase todos os adversários – e fazer acender, na torcida, a esperança do Hexacampeonato.

Todo esse frisson em volta da Seleção, acima de qualquer coisa, é (feliz) prova da sazonalidade fantástica que permeia, de forma tão inevitável e bela, o futebol. Afinal, quantos arriscariam esse mesmo palpite há exatos seis meses? Em segundo lugar, é também fruto de uma percepção que a Copa das Confederações ajudou a semear entre os rivais: jogando em casa, com o apoio da torcida – que, certamente, lotará as arenas –, o Brasil é muito forte. Forte demais.

No Brasil, Oscar e Neymar construíram um entrosamento que deve ser crucial à Seleção pelos próximos dez anos. Foto: Cristiano Andújar/LANCE!Press

No Brasil, Oscar e Neymar construíram um entrosamento que deve ser crucial à Seleção pelos próximos dez anos. Foto: Cristiano Andújar/LANCE!Press

Assim, subitamente, 2013 transformou a Seleção brasileira: de fiasco certo, a favorita destacada das demais, até mesmo da outrora temida Espanha. Se o problema do time eram as incertezas que pairavam sobre boa parte dos seus titulares, hoje não é mais. Oscar e Neymar já são realidade – o segundo, inclusive, até comentou recentemente que já não convive mais com questionamentos sobre o seu futebol, tão frequentes antes da mudança para a Europa. Além dos dois, Paulinho, Ramires, Luiz Gustavo, David Luiz e tantos outros também conquistaram postos de destaque em seus clubes. É por tudo isso que, hoje, o panorama dentro do grupo é de muita convicção na redenção da fatídica derrota de 1950.

O próprio Scolari já vem mudando o tom de suas entrevistas, sempre garantindo que o Brasil irá, sim, conquistar o Mundial. E encontrou, no seu plantel, eco para essas declarações. O meia Oscar, uma das referências do time, foi o primeiro a engrossar o coro: “A gente vem jogando muito bem. Se a gente jogar o que vem jogando, com o apoio da torcida, a gente dificilmente não vai conquistar”, disse ele. Uma mudança de postura e tanto para ele, que há pouco mais de um ano chegava ao Chelsea como aposta e tentava, com a camisa amarela, se firmar em um posto vago desde que começou o calvário de Kaká. A Seleção chega ao ano da Copa, portanto, carregando um grande favoritismo – que é fruto, claro, do ótimo trabalho desenvolvido desde a chegada de Felipão.

É um sentimento que dá confiança, mas que deve ser encarado com o máximo cuidado: tudo o que essa jovem equipe menos precisa é de 200 milhões de brasileiros em êxtase, à flor da pele, imersos na certeza absoluta de que a taça virá, inevitavelmente; prontos para comemorar, efusivamente, a taça – e para achincalhar jogadores, comissão técnica e cartolas em caso de fracasso. Organizar uma Copa do Mundo tem suas vantagens, mas um de seus ônus é justamente a atmosfera que se cria pela pressão dos próprios torcedores – ainda mais quando se trata de um país-sede que é favorito natural em qualquer competição que dispute.

A imprensa uruguaia repercute o jogo em que o excesso de confiança quase destruiu a auto-estima do torcedor brasileiro.

A imprensa uruguaia repercute o jogo em que o excesso de confiança quase destruiu a auto-estima do torcedor brasileiro.

Não, o Brasil (ainda) não se tornou a melhor seleção do planeta. Nossos craques (ainda) não viraram referência absoluta em suas posições: restam muitos degraus a galgar. O mais importante deles, sem dúvida, é a próxima Copa. Trata-se de uma oportunidade única, que caiu no colo desta talentosa geração de Neymar, Oscar, e tantos outros.

Certamente, 2014 não será a única chance de título mundial para esses jovens – e é até provável que a maioria deles esteja mais madura e pronta para erguer a taça no Mundial da Rússia, em 2018. Também é certo que uma eventual eliminação poderá ser bastante traumática – afinal, a imprensa brasileira sente uma estranha necessidade de transformar histórias do esporte em roteiros dramáticos, que geralmente têm seus mocinhos e vilões. Mas o fato é que a Seleção será considerada mais e mais favorita se conseguir estender o bom momento atual. Um favoritismo que não surgiu do nada: foi conquistado graças aos brilhantes resultados do ano de 2013. E que pode ser muito útil, se for encarado com sobriedade. Caso se deixe inebriar pelo incenso e pelo oba-oba, a Seleção pode estar dando seu primeiro (e mais decisivo) passo rumo ao Maracanazzo 2.0 – ou seria Arenazzo?

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.