Ibrahimovic, o gajo e o bacalhau

  • por Ordep Jose Trindade Serra
  • 7 Anos atrás

Zlatan Ibrahimovic é um figuraço. Provocou uma onda de comentários, entre divertidos e escandalizados, com sua última declaração: “Uma coisa é certa: uma Copa do Mundo sem minha presença não merece ser vista”. Bom, talvez o homem tenha sido mal interpretado. Pode ser que ele se referisse a um público restrito: ele mesmo e sua turma. Que pode compreender muitos suecos, quiçá um número ainda maior de suecas, com acréscimo de alguns bósnios e croatas de ambos os sexos – quando nada, por solidariedade étnica e de família. O craque multinacional do Paris Saint-Germain é fruto escandinavo da união ecumênica de uma senhora croata, católica, com um muçulmano bósnio. A propósito, o ecumenismo sempre dá bons frutos.

A Copa de 2014 merece ser vista, sim, e terá a assistência de milhões de pessoas de todos os continentes. Ibrahimovic sabe dissso. Ele não é exatamente um campeão da modéstia, mas merece consideração. Não vamos negar o valor desse craque fantástico. Trata-se mesmo de um astro. Grandalhão e elástico, veloz e astuto, ágil que nem um tigre, com uma habilidade quase mágica, faz o tormento das defesas adversárias. Encanta os amantes do futebol por seu arrojo, sua precisão, sua técnica refinada. Na atualidade, pode considerar-se, com certeza, um dos melhores jogadores do mundo.

Em todo o caso, não é o único. Tampouco se pode dizer que ele detém todas as virtudes de um craque máximo, inexcedível, gênio supremo da bola. Para a Copa do Brasil virão jogadores, no mínimo, tão importantes quanto ele, quiçá melhores ainda. Aqui estarão, por exemplo, Messi, Neymar, Özil, Iniesta, Balotelli, Cristiano Ronaldo – gente capaz de arrebatar os estádios com jogadas incríveis, com lances que levantam a multidão, tiram o fôlego, deixam anjos e demônios arrepiados.

A propósito, no embate entre as seleções de Portugal e da Suécia, Cristiano Ronaldo fez a diferença, foi indiscutivelmente o melhor em campo. Os lusos contiveram o esplêndido Ibrahimovic. Já os suecos nada puderam contra o gajo, que arrasou sua defesa com o ímpeto de um touro selvagem. O titã ibérico brilhou, venceu e convenceu. Ninguém poderá dizer que foi injusto seu triunfo, que o gigante sueco protegido por Alá e Cristo teve mais merecimento nas duas partidas.

Eu gostaria, sim, de que o simpático Ibrahimovic viesse ao Brasil com seu jogo fascinante e sua curiosa verve. Sua vaidade não me incomoda nem um pouco: é divertida, não faz mal a ninguém. Enriquece o folclore. E seu talento fulgura. Os doentes por futebol do mundo inteiro lamentarão sua ausência. Mas a de Cristiano Ronaldo seria também deplorada, por certo mais ainda; sobretudo no Brasil. Mas não só por causa de nossa querida colônia lusitana. O craque português tem inúmeros fãs em nossa terra.

Minha vizinha Ana Melão, uma empresária bem sucedida, tem um projeto ambicioso, que em breve apresentará a um grupo seleto de capitalistas lusobrasileiros: pretende reunir uma soma de contribuições de vulto com vistas à contratação de Cristiano Ronaldo pelo Vasco da Gama.

Não sei se vai dar certo. Ainda será preciso convencer o craque. Mas Ana é uma cruzmaltina tenaz. Já conseguiu formar uma pequena legião de torcedores provisórios do Vasco em nosso condomínio. Torcida eclética, por sinal: reúne flamenguistas, botafoguenses, tricolores, gente de vários matizes e bandeiras, devotos sinceros do bacalhau, que, como sabem, é o símbolo do time de São Januário. Explicando melhor, os neotorcedores que Ana mobilizou estão muito interessados na bacalhoada que ela prometeu oferecer caso a equipe do glorioso Almirante sobreviva, escape da Segunda Divisão.

Isso explica um fenômeno que causou espanto nesta Salvador de tantos mistérios: turistas sudestinos que visitaram o Porto da Barra no último sábado ficaram assombrados ao ver gente com camisas do Mengo, do Fluminense, do Botafogo, do Bahia e do Vitória, comemorando aos pulos o inesperado triunfo do Vasco sobre o Cruzeiro. Interrogado, um conhecido botafoguense que agitava a bandeira com a Cruz de Malta explicou sabiamente: “Bacalhau e Fogão sempre se deram muito bem”. Do ponto de vista culinário, ninguém o pode contestar.

Animada com esse êxito, minha amiga já comprou uma enorme panela. Se não tiver cuidado e seus desejos se realizarem, precisará de mais outra: a notícia se espalha. O que tem aparecido de cruzmaltino por estas bandas não está no gibi. Para evitar especulações malignas, esclareço: Ana não teve nenhum contato com Júlio Baptista ou qualquer outro jogador do Cruzeiro.

(A propósito, mais respeito, minha gente! O grande Júlio é um homem digno, de reputação ilibada. O que falou não autoriza interpretações perversas. Tinha o tom de ironia cortês: foi mais um desafio que um convite. Eu creio que ele quis dizer algo como: “Se acham que podem, façam logo outro gol, vocês precisam.” Vejam o tape da partida: ele nada facilitou. O Cruzeiro não entregou o jogo. O Vasco realmente penou para vencer o misto da equipe celeste. Caso não lutasse com denodo, o Almirante seria devorado por um mestiço de raposa).

Voltando à bem sucedida campanha de Ana, ela teve outras consequências que transcendem os domínios do Almirante. A turma do Bahia já foi desafiada: muitos garantem que para garantir a salvação do tricolor baiano o remédio certo é um grande caruru. Coisa que eu, pessoalmente, não posso prometer. Minha mulher torce pelo Vitória.

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Graduado em Letras pela UNB, Mestre em Antropologia Social pela UNB e Doutor em Antropologia pela USP. Professor Associado do Departamento de Antropologia da FFCH / UFBA. Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFBA; Prof. participante do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFBA. Membro da Associação Brasileira de Antropologia, da SBPC, da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos e da Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia. Membro fundador do Grupo de Pesquisa “Encruzilhada dos Saberes”. Fundador e Coordenador do Grupo Hermes de Pesquisa e Promoção Social e do Movimento Vozes de Salvador. Produção principal em Antropologia da Religião, Antropologia das Sociedades Clássicas, Etnobotânica, Teoria Antropológica. Tradutor de textos científicos e literários. Escritor premiado três vezes em concursos nacionais de literatura, com obras de ficção (conto, novela).