O (não) rebaixamento e as viradas de mesa

  • por Levy Guimarães
  • 7 Anos atrás

Sempre que o Fluminense se vê ameaçado de rebaixamento no Campeonato Brasileiro, surgem as “cobranças” e piadas a respeito da “dívida” que o clube teria devido a alterações em regulamentos do Brasileirão que permitiram que o tricolor carioca escapasse da segundona – as chamadas viradas de mesa. Porém, esse tipo de situação não é um privilégio do Flu.

Durante as décadas de 1980 e 1990, o Campeonato Brasileiro teve regulamentos extremamente confusos. Em uma época em que a força política de determinados clubes era capaz de influir diretamente nas fórmulas de disputa e até mesmo na classificação final das competições, era bastante comum ver diversos times entrando na Justiça com o objetivo de reverter derrotas sofridas em campo.

Um dos primeiros casos ocorreu na edição de 1986 e acabaria beneficiando justamente um rival do Fluminense – o Botafogo. Naquele ano, o campeonato teve 80 equipes, reunindo times das Taças de Ouro, Prata e Bronze (equivalente às Séries A, B e C). O campeonato teria, também, o objetivo de definir os participantes das Séries A e B do ano seguinte: as 28 melhores equipes daquela edição integrariam a primeira divisão em 1987.

Para a segunda fase da competição, classificaram-se 36 times, divididos em quatro grupos de nove equipes cada. Dessa forma, os dois últimos colocados de cada chave seriam rebaixados, restando os 28 que comporiam a Série A de 1987. Foi o que aconteceu com o Botafogo: o clube carioca foi o penúltimo colocado do grupo I e, ao lado da Ponte Preta, lanterna, ficaria de fora da elite. A queda chegou a ser anunciada pela imprensa de todo o país (como se vê no video, a partir de 15s).

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Diante disso, a diretoria botafoguense entrou com uma ação na Justiça para manter o alvinegro na primeira divisão tentando tirar a vaga do Joinville, que havia se classificado com a ajuda de pontos ganhos no tribunal contra o Sergipe devido a um caso de doping. O pedido do Botafogo foi acatado, porém sem eliminar o clube catarinense. De qualquer maneira, o Botafogo estava livre do descenso naquele ano.

A decisão, ao lado da crise financeira pela qual passava a CBF, acabou sendo embrião do conflito entre os principais clubes do país (que formaram, em 1987, o Clube dos 13) e a Confederação Brasileira de Futebol, o que desencadeou a criação da Copa União em 1987 e um longo impasse a respeito da fórmula de disputa daquele Brasileirão, já que o caso do Botafogo foi usado como argumento pelo Clube dos 13 para invalidar tudo o que fora estabelecido em 86. No fim das contas, o Brasileiro de 87 ocorreu de forma completamente diferente do inicialmente planejado.

Foto: reprodução - O imbróglio resultou que a CBF fosse impedida de organizar o Módulo Verde em 87, papel dado ao Clube dos 13

Foto: reprodução – O imbróglio resultou que a CBF fosse impedida de organizar o Módulo Verde em 87, papel dado ao Clube dos 13

Cinco anos depois, enfim um dos grandes do futebol brasileiro disputaria a segunda divisão, o Grêmio. A Série B vivia um período de estabilidade em relação à sua fórmula de disputa, promovendo sempre dois times nas cinco temporadas anteriores. Porém, antes de iniciada a competição em 1992, o Clube dos 13, na época presidido por Fábio Koff (que dois anos depois se tornaria presidente do Grêmio), pressionou a CBF para que mudasse o regulamento a fim de aumentar o número de clubes participantes da Série A em 1993. Assim, subiriam, ao invés de dois times, 12 equipes, medida que beneficiou o Grêmio, que terminou apenas na nona colocação. Além do tricolor gaúcho, Criciúma, Santa Cruz, Remo, América-MG, Fortaleza, União São João-SP, Ceará, Desportiva-ES e Coritiba foram favorecidos pela mudança. Caso o regulamento inicial tivesse sido cumprido, apenas Paraná e Vitória teriam garantido o aceso.

Foto: reprodução - Jornal gaúcho noticiando a queda gremista, a primeira de  um gigante no futebol brasileiro

Foto: reprodução – Jornal gaúcho noticiando a queda gremista, a primeira de um gigante no futebol brasileiro

Após retomar o sistema convencional de rebaixamento a partir de 1994, em 1996 a CBF mais uma vez deu uma “mãozinha” para que um grande fugisse da segundona – dessa vez o Fluminense, que havia terminado na vice-lanterna do campeonato e deveria cair, ao lado do Bragantino. Entretanto, já no primeiro semestre de 1997, um escândalo de arbitragem estourou no futebol brasileiro, o caso Ivens Mendes (nome do então diretor da Comissão de Arbitragem). No dia 7 de maio, foram divulgadas escutas telefônicas envolvendo a venda de resultados de partidas do Brasileirão e da Copa do Brasil que teriam como principais beneficiados Corinthians e Atlético-PR, além de financiamentos de campanhas políticas. No final das contas, nenhum dos dois clubes, bem como seus dirigentes, foram punidos: o caso foi arquivado, pois as gravações analisadas foram consideradas clandestinas.

Diante desse cenário, Fluminense e Bragantino entraram na Justiça pedindo o cancelamento de seus rebaixamentos, alegando serem os times mais prejudicados pelo esquema. Apesar da justificativa pouco convincente apresentada pelos dois clubes, a CBF aceitou o pedido, decretando que não haveria rebaixamento naquele ano. A medida proporcionou a famosa (e vergonhosa) cena do presidente do Fluminense, Álvaro Barcelos, estourando um champanhe em comemoração à virada de mesa.

Presidente do Flu em 97, Álvaro Barcelos comemora a virada de mesa / Reprodução

Presidente do Flu em 97, Álvaro Barcelos comemora a virada de mesa / Reprodução

A manobra judicial em 96 pouco adiantou e o Fluminense amargou dois rebaixamentos seguidos em 97 e 98, chegando à Série C em 1999. O tricolor carioca conquistou o título da terceira divisão – dentro de campo – e disputaria, naturalmente, a Série B em 2000. É aí que começa mais um longo caso de viradas de mesa e batalhas judiciais no futebol brasileiro.

O caso Sandro Hiroshi

Tudo começou após o término do Campeonato Paulista de 1999, quando o São Paulo assinou contrato com o atacante Sandro Hiroshi, que havia se destacado naquele estadual pelo Rio Branco. Porém, o Tocantinópolis, clube de origem do jogador, alegava que a transferência era irregular, pois Sandro teria sido inscrito pelo Rio Branco sem autorização do clube tocantinense. Em resposta, o Rio Branco afirmou que teria adquirido o jogador quando ele ainda era um juvenil, tirando a necessidade de permissão do clube anterior. Para evitar que numa eventual nova negociação outros times se envolvessem na questão, a CBF considerou o passe do atleta bloqueado, proibindo uma nova transferência do atacante enquanto o imbróglio não se resolvesse. Porém, de acordo com a própria entidade, ele estava liberado para jogar.

Acontece que, após ter sido goleado por 6×1 pelo São Paulo na 3ª rodada do Brasileirão daquele ano, o Botafogo foi ao tapetão em busca dos pontos da partida, alegando que Hiroshi jogou de forma irregular. O caso só foi julgado nas rodadas finais, com o clube carioca prestes a ser rebaixado, e, baseando-se em uma versão desatualizada do Código Brasileiro Disciplinar do Futebol, o Botafogo conseguiu os três pontos referentes àquele jogo – posteriormente, o Internacional, também ameaçado de rebaixamento, fez o mesmo. No final das contas, os pontos obtidos no tribunal fizeram com que o time da Estrela Solitária ultrapassasse o Gama e ficasse livre da queda.

Foto: Lancenet - Atacante Sandro Hiroshi no São Paulo

Foto: Lancenet – Atacante Sandro Hiroshi no São Paulo

Inconformado com a situação, o Gama conseguiu uma liminar na Justiça Comum que o garantia na primeira divisão em 2000, independentemente de qualquer outra decisão tomada pela CBF. Tanto a entidade que controla o futebol brasileiro como o Clube dos 13 foram ferrenhamente contra a liminar e, por meses, batalharam na Justiça para que ela fosse cassada, até que, em julho de 2000, a equipe de Brasília teve confirmado o seu direito de jogar a primeira divisão.

E onde entra o Fluminense nessa história? Durante esse tempo, a CBF se viu impedida de realizar o Brasileirão daquele ano, delegando o papel ao Clube dos 13, que criou a Copa João Havelange e redistribuiu alguns clubes que estavam nas Séries B e C na Série A, chamada naquele ano de Módulo Azul. Dessa forma, ascenderam à primeira divisão não só o campeão e vice da Série B de 1999 (Goiás e Santa Cruz), como também Bahia e América-MG (mesmo sem terem conseguido o acesso dentro de campo). Além, é claro, do Fluminense, vindo diretamente da Série C. Vale esclarecer que São Caetano, Paraná e Remo, que haviam disputado a B em 99 e também não conseguiram subir, classificaram-se para o mata-mata de 2000 pois o regulamento previa três vagas para os melhores times do Módulo Amarelo – que equivaleria à Série B daquele ano – nas oitavas de final.

Foto: oocities.org - Time campeão da série C em 1999, que não precisou disputar a segundona em 2000

Foto: oocities.org – Time campeão da série C em 1999, que não precisou disputar a segundona em 2000

Retomado o controle do Brasileirão em 2001, a CBF decretou que não haveriam rebaixamentos para a Série B daquele ano, mantendo todos os 25 clubes participantes do Módulo Azul em 2000. Foi incluído, ainda, o São Caetano, vice-campeão da Copa João Havelange, além de Paraná e Botafogo-SP, como uma forma de “corrigir” o rebaixamento desses dois times em 1999.

De lá pra cá, felizmente, o sistema de promoção e despromoção se normalizou, sem a intervenção do STJD ou de qualquer outro órgão jurídico. A incrível desorganização do futebol brasileiro naquele período serviu de lição para os últimos 13 anos, resultando, enfim, em uma fórmula de disputa consolidada. Que o termo “virada de mesa” continue sendo associado apenas a casos do passado, como uma realidade cada vez mais distante no nosso futebol.

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Estudante de Jornalismo e redator no Placar UOL Esporte, belo-horizontino, apaixonado por esportes e Doente por Futebol. Chega ao ponto de assistir a jogos dos campeonatos mais diversos e até de partidas bem antigas, de décadas atrás.