Oração a Nílton Santos

  • por Ordep Jose Trindade Serra
  • 7 Anos atrás

Imaginem um escrete fantástico, celebrado pela história como um dos mais perfeitos já aparecidos em canchas de futebol: uma equipe em que pontificavam atletas considerados verdadeiros gênios, inclusive astros cujos nomes constam em qualquer relação dos melhores do mundo de todos os tempos. Tomem por guia a justa memória, por testemunho a pura verdade: se o fizerem, sua imaginação lhes apresentará a seleção brasileira campeã mundial de 1958. A imagem talvez se duplique, pois retrata o escrete que, com poucas modificações, ganhou o bicampeonato em 1962. Contemplem devagar, com os olhos da lembrança, essa equipe de ouro. Vejam como reluz ainda hoje. Todos os que assim a recordarem vão logo admitir uma coisa: não era fácil, pelo contrário, era muito difícil destacar-se entre feras daquele quilate. Na refulgente equipe, o menos iluminado já estava muito, muito acima da média. Se o permitisse a lei do tempo, seria um tremendo desafio para craques de qualquer época distinguir-se na Seleção de Ouro.

Pois bem, amigos, um desses atletas áureos teve um destaque espantoso: ficou célebre com um magnífico apelido, um cognome que o acompanhou por toda a vida. Ele se consagrou entre os astros máximos da pelota, em meio a gente que sabia tudo do assunto, como a Enciclopédia do Futebol.

Não, meus caros, não foi Pelé. Nem o extraordinário Garrincha. Os dois são sérios candidatos ao título eterno de melhor do mundo, são gênios inexcedíveis. Mas passem adiante. Também não foi o mago Didi, sublime regente da maravilhosa orquestra. A Enciclopédia humana em que se reconheceu o perfeito domínio das artes futebolísticas chamava-se Nílton Santos.

Ser apelidado assim no Botafogo que fez jus ao título de Glorioso já era uma consagração. Mas ser conhecido desse modo, destacar-se com tamanha honra no elenco de uma seleção fabulosa, bicampeã invicta, sempre celebrada no universo futebolístico, significa ter chegado a um grau de excelência fantástica, que não se pode discutir. Quem o viu jogar não esquece o assombro com a riqueza do seu repertório, o prazer que dava sua elegância imperturbável, o encanto que sua arte refinada conferia às partidas. Lúcido, criativo, brilhante, esse lateral inovador criou um paradigma, fez uma revolução técnica decisiva, mudou o futebol para melhor. Na galeria dos maiores jogadores de todos os tempos ele tem, não há dúvida, um lugar garantido. Para sempre.

Há muito eu queria dedicar uma crônica a esse atleta genial. Voltarei com certeza a falar dele. Hoje meu louvor acompanha a saudade com passos pesados. Não vou longe. Peço ao mestre da estrela solitária que me perdoe. A justiça exige que eu fale também de outros assuntos.

Se a morte inexorável nos levou Nílton Santos, ao menos deixou em seu lugar uma constelação de lembranças mágicas, um fulgor de glória que ilumina com esplendor eterno o futebol brasileiro. Sabemos que ele não será esquecido, que no mundo inteiro os amantes do futebol o honram. Deixo aqui minha pequena homenagem. E me justifico apelando a sua grandeza. O mestre Nílton Santos era um homem bom, um brasileiro simples, honesto, de coração generoso. Sua alma pura certamente aceitará que eu junte a sua celebração a homenagem a homens humildes cujo nome nunca brilhou, que correm o risco de ficar esquecidos, tratados como inexistentes no momento da festa próxima, na inauguração do estádio erguido com seu esforço, a grande arena em que eles morreram. Homenageio os dois trabalhadores vitimados na construção da arena de Itaquera. Com ele, já são quatro os operários que sucumbem na edificação de praças futebolísticas erguidas para gáudio de poucos, satisfazendo mais a ganância dos empreiteiros do que os anseio do povo, o desejo dos esportistas. Ao custo fabuloso em termos de dinheiro público mal empregado, a Copa de 2014 já soma outro que não se pode compensar de jeito nenhum: um custo sinistro em vidas humanas.

A Odebrecht garante que tomou todos os cuidados, agiu de acordo com as especificações técnicas, fez tudo perita e corretamente. Mas se houve plena correção e uma cautela perfeita em matéria de segurança, como e por que terá sucedido o acidente? Esperemos que uma boa perícia seja feita e que ela dê frutos em matéria de prevenção. E reparação. Por enquanto, só podemos dizer que o futebol brasileiro está de luto. Por Nílton Santos. E pelos pobre operários de Itaquera.

Do luto tenho de passar ao nojo. Pois em qualquer homem decente é náusea a reação que provoca o espetáculo obsceno das manifestações de racismo. Nada mais repugnante que essa forma vil de barbárie. Ela rebaixa homens e povos a um nível infame de degradação. Os esgares da torcida do Bétis chafurdando na covardia de um rito de humilhação racista contra um atleta negro são o que pode haver de mais sujo, boçal, estúpido, indecente, grotesco. Essa infeliz torcida atraiu para si um estigma de que dificilmente se livrará. Igualou-se à corja de fascistas que parasita o Lazio e enche a Itália de vergonha.

Sim, a torcida do Bétis fede a fascismo, bestialidade e covardia. É uma vergonha para o futebol da Espanha. Aliás, para toda a Espanha. Devem esses idiotas ter saudades de Franco e de sua imunda ditadura, que serviu de plataforma para o nazi-fascismo, encenando um mórbido ensaio da Segunda Guerra Mundial. Quero crer que entre os adeptos do lamentável clubezinho há pessoas dignas; mas, pelo jeito, elas são minoria.

Me perdoe de novo, Mestre Nílton Santos. Mas não se pode falar na glória de um homem digno mantendo silêncio sobre a indignidade, calando em face de uma atitude baixa, escandalosa, que ele com certeza reprovaria. O compadre de Garrincha, que o apadrinhou no Botafogo, o eterno apaixonado pelo brilho inexcedível dos astros crioulos do Brasil, sabia perfeitamente que o futebol do mundo foi engrandecido por maravilhosos atletas negros do nosso e de outros países, atletas sem os quais o esporte mais apreciado no globo talvez nunca chegasse a tanto, talvez jamais se elevasse ao nível de verdadeira arte.

Se fosse capaz de raciocínio, se pudesse, ao menos por um minuto, superar a imbecilidade moral que a caracteriza, a canalha que se empenhou covardemente em humilhar o jovem atleta negro poderia sentir o tamanho de seu disparate. Porém é muito utópico esperar reflexão de uma triste massa de cretinos. Dirijo-me em vez, ao moço que eles agrediram.

Levante a cabeça, rapaz. Olhe para o alto. Você é da terra de Nílton Santos, uma estrela cujo brilho está muito acima de tudo quanto seus agressores jamais alcançaram ou podem alcançar. Sangue de seus antepassados correu também nas veias generosas desse mestre de mestres. Você é negro como Pelé, Garrincha, Didi, Djalma Santos, negro como dezenas de sublimes artistas das canchas, negro como inúmeros gênios cujo esplendor enriquece as mais diversas artes pelo mundo afora.

Quero dedicar esta crônica a você também. Sim, a você, Paulão, que nestas linhas coloco ao lado de Nílton Santos, ídolo de minha juventude. Eu o coloco a seu lado nesse pequeno rito de homenagem por saber, com plena certeza, que o velho Nílton o abraçaria paternalmente. E lhe diria que tenha coragem. Seu choro não o diminui, mas é preciso que você reaja e tome plena consciência de seu valor. Você tem muito de que se orgulhar, Paulão. Se a CBF não fez o devido protesto, se a Fifa segue fingindo que nada viu, se a triste Espanha ainda “cria cuervos”, nem tudo está perdido: sempre lá e cá haverá quem combata essa porcaria. E o futebol negro continuará a impor-se, calando a boca dos cretinos. Olhe para o alto. Lembre-se dos Santos, dos insuperáveis Djalma e Nílton que fulguram no céu entre outros prodígios do seu povo. Pense neles. E se orgulhe de pertencer a sua raça de campeões.

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Graduado em Letras pela UNB, Mestre em Antropologia Social pela UNB e Doutor em Antropologia pela USP. Professor Associado do Departamento de Antropologia da FFCH / UFBA. Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFBA; Prof. participante do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFBA. Membro da Associação Brasileira de Antropologia, da SBPC, da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos e da Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia. Membro fundador do Grupo de Pesquisa “Encruzilhada dos Saberes”. Fundador e Coordenador do Grupo Hermes de Pesquisa e Promoção Social e do Movimento Vozes de Salvador. Produção principal em Antropologia da Religião, Antropologia das Sociedades Clássicas, Etnobotânica, Teoria Antropológica. Tradutor de textos científicos e literários. Escritor premiado três vezes em concursos nacionais de literatura, com obras de ficção (conto, novela).