Os acidentes aéreos que vitimaram equipes de futebol – parte 2

Continuando nossa matéria sobre os acidentes aéreos que vitimaram equipe de futebol, chegamos a quatro acidentes bem menos conhecidos que os anteriormente apresentados, mas tão trágicos quanto.

Alianza Lima / 1987 – O desastre aéreo do Alianza Lima

Imagem do avião após o acidente. (Foto: Reprodução)

Imagem do avião após o acidente
(Foto: Reprodução)

08 de dezembro de 1987: um Fokker da Marinha peruana cai no mar de Ventanilla, no Oceano Pacífico, matando 43 pessoas, inclusive 16 jogadores de futebol.

Após nove anos de seu último título nacional, o Alianza Lima dominava o campeonato peruano daquela temporada e retornava de uma vitória sobre o Deportivo Pucallpa na casa do adversário. Naquela equipe, vários jovens jogadores, conhecidos como “Potrillos”, em alusão à juventude e ao fato de terem vindo das categorias de base da equipe, brilhavam como o futuro do futebol peruano.

Ao chegar próximo ao aeroporto Internacional Jorge Chávez, em Lima, o piloto tentou, com manobras bruscas, liberar o trem de pouso que, segundo informavam os aparelhos, estava com defeito. O avião acabou caindo no mar, a quilômetros do aeroporto de Lima. Todos os atletas e comissão técnica da equipe peruana faleceram.

Na queda, mais do que o Alianza, foi-se embora o futuro do futebol peruano, na época a quarta força da Conmebol. A equipe ainda se sagrou campeã do Torneio Descentralizado (equivalente ao segundo Turno) e disputou a final do peruano contra o Universitário de deportes, que tinha vencido o Torneio Regional. A partida acabou em 1×0 para o Universitário, que se tornou campeão nacional. O Alianza se sagraria campeão peruano apenas em 1997.

Mais:

– Na final da Copa Intercontinental, o Penarol jogou de luto, com trajas pretas, em memória da tragédia.

– Teófilo Cubillas, maior ídolo do futebol peruano, aceitou voltar da aposentadoria para ajudar o Alianza Lima. Foi ainda o técnico da equipe no período seguinte à tragédia. Além de Cubillas, o time contou com juvenis e atletas emprestados do Colo Colo nos jogos finais da temporada.

– Em 2006, uma investigação da mídia expôs o relatório oficial do acidente, preparado pela Marinha de Guerra do Peru 19 anos antes. O relatório culpou a aeronave por algumas falhas técnicas e, principalmente, piloto e co-piloto, por uma série de falhas que vão desde não saber inglês para consultar o manual de emergência até levantar de seu assento para conversar com os passageiros momentos antes da queda.

– O relatório oficial do acidente ficou guardado por 19 anos em uma caixa-forte de um banco americano. Outro fato chocante apresentado no documento é que o trem de pouso já estava baixado quando piloto e co-piloto ainda tentavam fazer manobras para soltá-lo. A tripulação teria sido avisada do fato pela torre, mas mesmo assim fez as manobras que levaram o avião à queda.

– Só duas pessoas sobreviveram à queda: o piloto Ediberto Villar Molina e o jogador Alfredo Tomassini. Tomassini morreu enquanto esperava o socorro no mar, e seu corpo nunca foi encontrado.

– Quatro jogadores da equipe titular escaparam da morte por não terem disputado a partida: Richard Garrido, Javier Castillo, Benjamin “Colibri” Rodriguez e César Espino. Juan Reynoso se machucou na partida e não foi liberado para voltar junto a seus companheiros.

– Muitas lendas foram contadas sobre o acidente devido principalmente ao fato da Marinha não querer que familiares e outros órgãos se envolvessem com as buscas. Um dos rumores dizia que o grupo terrorista Sendero Luminoso teria derrubado a aeronave. Outra história diz que o avião carregaria drogas e, quando os jogadores descobriram e ameaçaram denunciar, acabaram sendo fuzilados pelos oficiais. Na confusão, o avião teria caído. Os corpos não encontrados seriam exatamente os dos que foram fuzilados antes da queda.

– Paolo Guerrero, na época com 3 anos de idade, acompanhava seu tio, o goleiro José “Caico” Gonzales Ganoza, em alguns jogos do Alianza Lima em casa. Ganoza morreu no acidente.

The Strongest / 1969 – A tragédia de Viloco

26 de setembro de 1969: um avião da Lloyd Aéreo Boliviano declara emergência e desaparece enquanto um golpe militar toma conta de seu país.

Em 24 de setembro de 1969, o The Strongest participou de uma competição quadrangular amistosa em Santa Cruz de la Sierra. Na madrugada do dia 26, dois dias depois, um golpe militar acontecia na Bolívia, com o governo de Luís Adolfo Siles Salina sendo derrubado.

No fim da tarde, o avião que trazia a equipe boliviana declarou emergência próximo à Cochabamba e não chegou ao destino pretendido: La Paz. Às 23h30 do dia 27, partes do avião foram encontradas em um desfiladeiro, próximo à Viloco. No choque, morreram 69 passageiros e nove tripulantes, entre eles 16 jogadores do The Strongest.

Corpos são retirados do avião.  (Foto: Reprodução)

Corpos são retirados do avião.
(Foto: Reprodução)

Como consequência do acidente, A equipe foi licenciada do futebol boliviano por um ano, deixando de jogar o campeonato regional, organizado pela AFLP (Associação de Futebol de La Paz), e o campeonato nacional.

Mais:

– O quadrangular foi disputado entre The Strongest, Cerro Porteno, Oriente Petrolero e um combinado da cidade de Santa Cruz de la Sierra.

– As causa do acidente nunca foram oficialmente confirmadas.

– A CBF organizou um Fla-Flu beneficente, revertendo a renda para a equipe boliviana, enquanto a Conmebol doou U$ 20.000 dólares ao Strongest.

– Salvaram-se da tragédia: Rolando Vargas , Luis Gini, Marco Antonio Velasco , Clemente Ponce e Raúl “Chupa” Riveros.

– O excelente www.planotatico.com conta uma história curiosa e bem triste do acidente: A filha de Armando Angelassio, que morreu no acidente, nasceu nesse mesmo dia.

Green Cross / 1961 – A tragédia de Green Cross

03 de abril de 1961: uma aeronave Douglas-DC3, da LAN se choca na colina Lástimas e mata todos os seus ocupantes.

O Green Cross, na época, era uma equipe chilena média e voltava de uma partida da Copa Chile contra a equipe de Osorno. No acidente, 24 pessoas faleceram, inclusive oito jogadores da equipe.

Mais:

– Em homenagem à equipe, a Copa foi chamada de “Copa Chile Green Cross” naquele ano. O vencedor foi o Santiago Wanderers.

– Em 1965, a equipe se fundiu com o Deportes Temuco e formou o Green-Cross Temuco. Em 1985, o nome de Deportes Temuco foi novamente adotado.

– O Green Cross foi campeão chileno pela única vez em 1945.

– Foram necessários dez dias para fossem localizadoss os destroços do avião. Diz a lenda que as equipes foram até a colina Lástimas por “intuição” do capitão da LAN que coordenava as buscas, Sérgio Riesle.

– No último contato pelo rádio, o piloto informou que tinha gelo nas hélices da aeronave, solicitando permissão para uma aterrissagem de emergência.

– Praticamente metade da delegação retornou em outro avião, que sairia antes mas faria mais escalas antes de chegar à Santiago.

Atletas surinameses / 1989 – O desastre do Kleurrijk Elftal

07 de junho de 1989: um DC-8-62 da Surinam Airways leva estrelas de um time colorido que são apagadas no Suriname.

Na década de 80, um assistente social da região de Bijlmer, na Holanda, que conta com muitos surinameses, teve a ideia de montar uma equipe com jogadores deste país (ou descendentes) que atuavam na liga holandesa, denominada Kleurrijk Elftal, algo como Onze Colorido.

A equipe de Sonny Hasnoe, esse assistente social, disputaria um torneio triangular contra três equipes locais: Robinhood, Transvaal e Boxel. As principais equipes holandesas, porém, não quiseram liberar seus jogadores, e o Kleurrijk acabou levando um time “B” para os encontros.

Quando faziam a aproximação por instrumentos, os tripulantes utilizaram técnicas erradas e perderam o controle da altitude do avião, batendo em uma árvore e virando de cabeça para baixo até atingir o chão. Dos 187 ocupantes do voo, 176 morreram.

Avião na selva. (Foto: Reprodução)

Avião na selva.
(Foto: Reprodução)

Mais:

– Essas foram as últimas palavras do comandante: “É isso. Estou morto”.

– A tragédia seria muito mais famosa não fossem pelos principais clubes não liberarem seus atletas. Essa atitude dos dirigentes salvou, entre outros: Ruud Gullit, Frank Rijkaard, Aron Winter, Bryan Roy e Regi Blinker.

– Stanley Menzo e Hennie Meijer ignoraram a negação do Ajax, mas se safaram ao partir em um voo mais cedo.

– Em 1986, a equipe já tinha disputado um amistoso contra o Robinhood.

– Os jogadores sobreviventes foram: Sigi Lens, Edu Nandlal e Radijn de Haan. De Haan foi o único a retornar aos campos.

– O ótimo www.balipodo.com, do grande jornalista Ubiratan Leal, conta dois outros fatos marcantes sobre o acidente: o primeiro deles diz respeito à Winnie Haatrecht, que tinha sido convocado, mas desistiu, deixando seu irmão Jerry ir em seu lugar e falecer. A segunda história diz respeito à união entre NAC Breda e Sparta Roterdã em homenagem a Andro Nkel, um dos mortos na tragédia. Juntos, torcedores das duas equipes criaram um monumento em sua memória e chegaram a editar uma revista sobre a vida do jogador. Ainda, antes de cada partida entre as equipes, os torcedores se reúnem e disputam o troféu Andro Knel.

– Como dica sobre o futebol do Suriname, o filme “Het Surinaamse Legioen” conta a história da adaptação dos jogadores surinameses ao futebol profissional holandês, desde os anos 50.

Monumento em homenagem aos jogadores. (Foto: Reprodução)

Monumento em homenagem aos jogadores.
(Foto: Reprodução)

Pakhtakor Tashkent/1979– Colisão de Dniprodzerzhynsk

11 de agosto de 1979: a mais de 8.000 metros de altitude, duas aeronaves se chocam e 178 pessoas são mortas.

A equipe uzbeque do Pakhtakor Tashkent, que na época disputava a primeira divisão da liga soviética, iria enfrentar o Dinamo Minsk, na Bielorussia.

A equipe estava no voo 7880 da Aeroflot, entre Tashkent e Minsk, com parada em Donestsk. A cerca de 8.300 metros de altitude a aeronave se chocou com outro avião russo, na altura da cidade de Dniprodzerzhynsk, na atual Ucrânia. Foram 178 mortos nas duas aeronaves, incluindo 14 jogadores e três membros da comissão técnica do Pakhtakor.

A Federação soviética ordenou que todos os times cedessem três jogadores ao Pakhtakor. Além disso, a equipe ficou imune a um eventual rebaixamento durante os três anos seguintes.

Memorial em Tashkent. (Foto: Reprodução)

Memorial em Tashkent.
(Foto: Reprodução)

Mais:

– Como era comum na parte russa da antiga URSS, as notícias do acidente demoraram a sair. Antes, foram divulgadas por jornais da Moldávia e Bielorrusia. Os detalhes do funeral, por exemplo, só foram divulgados sete dias depois.

– Dos 20 maiores desastres aéreos com mais vitimas, dois aconteceram no mesmo ano da colisão de Dniprodzerzhynsk, que é a 38º na lista.

– Em 1978, o Pakhtakor tinha alcançado uma boa colocação, o 11º lugar, no campeonato soviético. Acabou na 9ª posição no ano da tragédia. Em 1982, apenas três anos após a tragédia, a equipe alcançou sua melhor posição: 6º lugar.

– Esses foram os que escaparam da tragédia: Oleh Bazylevych (técico), Aleksandr Yanovskiy, Tulyagan Isakov e Anatoly Mogilny.

– Doze dias após o acidente, a equipe reestreou na competição: derrota de 1×0 para o 1-0 Ararat Yerevan.

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Sergio Rocha é torcedor do Madureira e sempre teve o sonho de escrever sobre esportes em geral, embora tenha optado pela carreira de engenheiro civil. No "currículo", cadernos recheados de resultados esportivos e agendas da década de 90, quando antes da internet acessava rádios de diversos locais do país buscando os resultados esportivos do Acre à Costa Rica. Além de fanático por futebol, é fanático por praticamente todos os esportes, e no tempo livre que sobra sempre busca os últimos resultados esportivos do PGA Tour ou dos futures da ATP. Além disso, coleciona quadrinhos da Disney e é louco por astronomia.