Thiago, o matemático

  • por Osmar Júnior
  • 7 Anos atrás

Texto de: Rodrigo Resende
Postado originalmente em: Blog do Rodrigo

Thiago acabou de fazer seu doutorado em matemática aplicada. Feliz, com seu diploma debaixo do braço, tirou a semana para se dedicar a sua outra paixão além dos números: o Cruzeiro.

Depois da vitória contra o Santos, a possibilidade de ser campeão no próximo jogo era real. Era só somar alguns pontos e torcer para que outro time não adicionasse três pontinhos. Assim, ao querer fugir dos números, Thiago se viu ainda mais envolvido com eles. O matemático estudou todas as possibilidades. Elevou números ao quadrado, tirou raiz de outros tantos, dividiu, multiplicou, adicionou, subtraiu … era verdade. O time podia ser campeão no domingo.

Foi recheado de numerais que ele foi para o Mineirão. Via sua ansiedade se multiplicar durante o trajeto, feito de ônibus. Dividiu com os companheiros de viagem as inúmeras histórias já vividas com o Cruzeiro. Adicionou mais contatos ao seu celular, ao mesmo tempo em que via diminuir a memória do aparelho, à medida que ia tirando dezenas de fotos do Mineirão, todo em azul.

Decidiu que, ao entrar no estádio, desligaria qualquer aparelho que pudesse informar sobre o resultado de qualquer outro jogo. Sabia que seria impossível, afinal, sempre teria um torcedor mais exaltado a narrar a outra partida.

Começa a partida. Thiago está atrás do Gol defendido por Fábio. É de lá, de longe, que vê o primeiro gol do Cruzeiro. Vibra. Canta. Comemora. O Grêmio pressiona. Fábio defende. Defesa espana. Fim do primeiro tempo. Metade do sofrimento. Hora de beber aquela água, ir ao banheiro, tentar relaxar. 

É no caminho para o bar que vem a má-notícia: a outra equipe, no outro jogo, está vencendo por 2 a 0. A notícia que Thiago não queria ouvir. O matemático entra no banheiro, sozinho. Está cabisbaixo. Pensa como os números podem ser tão cruéis a ponto de estragar aquela festa tão bonita. Pensa como pode ter se dedicado tanto a uma ciência que pode ser tão má. Decide não voltar para assistir ao segundo tempo.

Aí começa a acontecer algo que Thiago não entende. Um som indecifrável começa a percorrer os espaços do Mineirão. A torcida, ensandecida, está gritando a pleno pulmões. São as músicas tradicionais, o hino do time, os nomes dos jogadores. Thiago ainda assim não quer mais voltar para a arquibancada. Precisa viver aquele momento sozinho. Outros dois gols do Cruzeiro. O Mineirão começa a tremer. O estádio parece mostrar para Thiago que o ímpeto da torcida muitas vezes é mais forte e bonito que qualquer equação, por mais perfeita que seja.

Foto: Geral do Cruzeiro

Foto: Geral do Cruzeiro

Os sons só aumentam, e Thiago ouve um estrondoso “É Campeão”. Como pode? Como uma massa de 60 mil pessoas pode contrariar a matemática? E naquele momento Thiago viu que estava em um dilema: Voltar e comemorar o título ainda não confirmado ou respeitar sua “mestra” matemática, tão cruel, fria e racional? 

Resolveu voltar para junto dos torcedores. O juiz acabava de soar o apito final. Thiago comemorou como nunca aquela vitória. É bem verdade que não gritou “É Campeão”. Ainda respeitava a ciência. Mas foi ali que ele entendeu que poucas coisas nesse universo podem ser racionais. Infelizmente uma delas são os números. E felizmente o torcedor de futebol não é uma delas.

Um abraço 5 estrelas!

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Nascido e residente em Araxá/MG. Apaixonado por esportes em geral, dedica boa parte de seu tempo acompanhando futebol. Tem um carinho todo especial por histórias de equipes alternativas e times de divisões inferiores. Nas horas vagas, relaxa praticando mountain bike.