A culpa é mesmo da falta de polícia?

Foto: Reuters

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Quem ligou a televisão para acompanhar o jogo que selou a queda do Vasco da Gama para a Série B, hoje à tarde, se deparou com algumas das cenas mais chocantes e brutais da história recente do futebol brasileiro. E nas arquibancadas da Arena Joinville, em Santa Catarina, não havia policial algum para conter a fúria cega e insana de cruzmaltinos e atleticanos, que logo aos 15 minutos do primeiro tempo irromperam numa enorme e generalizada briga. Quatro torcedores deixaram o estádio com ferimentos graves, inúmeros outros com lesões leves, e absolutamente todos os 8.978 pagantes com o horror cristalizado em suas retinas. E com uma pergunta na ponta da língua: onde estava a polícia?

O questionamento encontrou ressonância na imprensa. E logo vieram à luz os fatos: ao longo da semana anterior, o Ministério Público de Santa Catarina havia sugerido à Polícia Militar que não atuasse dentro das dependências do estádio, por se tratar de um evento privado. Apesar disso, a PM reconheceu ter “carta branca” para interferir na parte interna da Arena caso fosse necessário. A segurança, portanto, deveria ser providenciada pelo Atlético Paranaense, mandante do jogo. E assim foi feito: noventa funcionários particulares foram contratados para garantir a paz no estádio.

A experiência, que já havia dado certo no confronto entre Furacão e Náutico, desta vez foi um fracasso retumbante: estampou as manchetes dos principais jornais do mundo, expondo algumas das mais graves deficiências do nosso futebol e os piores defeitos de nossas torcidas. Os principais veículos da mídia brasileira, por sua vez, ainda tentam compreender, apurar e apontar os fatores que levaram ao triste episódio. Mas pelo discurso que vêm sustentando, a impressão que passam é que nada disso teria acontecido simplesmente se a polícia estivesse dentro do estádio.

Foto: Cléber Yamaguchi/Agência Eleven/Gazeta Press

Foto: Cléber Yamaguchi/Agência Eleven/Gazeta Press

Sim, a presença de alguns policiais poderia ter evitado que a confusão tomasse proporções tão bárbaras. Possivelmente, eles teriam aparecido com o quebra-pau em fase ainda embrionária, como é de praxe. Teriam soltado algumas bombas de efeito moral e baixado o sarrafo em dois ou três vândalos (ou não), e pronto. Nada além do seu dever: numa sociedade, o Estado mantém o monopólio do uso legítimo da força (Weber, “A política como vocação”). E a Polícia, enquanto seu braço armado, tem a prerrogativa de utilizá-la quando preciso. Porém, todo mundo sabe que a solução para a violência, no futebol ou fora dele, passa muito longe da repressão pura e simples – até porque há incontáveis exemplos de baderneiros que já foram reconhecidos e “punidos”, mas continuam frequentando os estádios sem grandes constrangimentos.

Levando isso em conta, em meio a toda a comoção pelo lamentável episódio, algumas perguntas ainda não encontraram o devido espaço entre os responsáveis pela opinião publicada:

– Qual seria a grande dificuldade de se obrigar as torcidas organizadas a fornecer e manter um cadastro atualizado de seus membros?

– Por que as próprias torcidas não demonstram interesse em adotar medidas no sentido da transparência, para (tentar) “limpar sua barra”?

– Seria algum custo estratosférico a instalação de (mais) câmeras de segurança nos estádios brasileiros, para identificar marginais infiltrados?

– Há algum obstáculo oculto na hora de punir, exemplarmente, clubes envolvidos em tragédias do gênero – já que, em sua maioria, são eles os principais financiadores das uniformizadas?

É muito provável que todas elas continuem sem resposta. Porque este silêncio constrangedor é regra na maioria dos assuntos do nosso futebol, um dos últimos e mais resistentes bunkers do autoritarismo dos anos de chumbo. Um silêncio que diz muito: sibila, incessantemente, “impunidade” – esta palavrinha que nunca sai de moda no Brasil.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.