Acomodação pós-Libertadores: quando os brasileiros vão aprender?

  • por Levy Guimarães
  • 7 Anos atrás

Desde a última década, mais precisamente desde 2005, quando o São Paulo quebrou o jejum de seis anos sem times brasileiros conquistando a Libertadores, as equipes do país que vencem o torneio continental têm insistido em um péssimo costume: o de praticamente abandonar o Campeonato Brasileiro no segundo semestre, pensando apenas no Mundial de Clubes. Por muitas vezes, o retorno no torneio da FIFA não é o esperado e o clube acaba desperdiçando toda a segunda parte da temporada, perdendo não só o tão sonhado Mundial, como também a oportunidade de disputar um grande título de expressão nacional.

O Atlético-MG em 2013, assim como o Santos em 2011 e o Internacional em 2010, foi mais uma equipe que decepcionou no Mundial em dezembro após, durante várias rodadas, ter deixado o Brasileirão de lado e dado adeus à briga pelo título brasileiro. E não foi por falta de oportunidade: após ter conquistado a Libertadores, em julho, o Galo estava a apenas três pontos do rival Cruzeiro, que viria a ser o campeão. Porém, nos 10 jogos que fez em seguida, venceu apenas dois, afastando-se de vez das primeiras posições. Quando finalmente acordou para a competição, no 2º turno, os comandados por Cuca tiveram de se contentar em terminar na metade de cima da tabela.

A exceção foi o Internacional, em 2006. Mesmo depois de se sagrar campeão da América, o colorado continuou disputando ponto a ponto a liderança do Brasileirão com o São Paulo, tendo sido vice-campeão ao final. Não à toa, teve uma atuação brilhante no Mundial de Clubes, vencendo o todo-poderoso Barcelona na decisão.

Foto: GloboEsporte.com - O Inter realmente levou a sério o Brasileirão. Foi a sua melhor preparação para o Mundial de Clubes

Foto: GloboEsporte.com – O Inter realmente levou a sério o Brasileirão. Foi a sua melhor preparação para o Mundial de Clubes

É verdade que a Libertadores provoca um grande desgaste físico e psicológico sobre quem a disputa e que é, sim, necessário alguns dias para os jogadores retomarem o foco em outras competições. Mas isso não justifica, de modo algum, o “relaxamento” de várias semanas do Atlético neste ano, e o fraco desempenho do Santos no Brasileirão 2011, por exemplo. Essa acomodação precisa ser combatida pelos próximos campeões, para que não cometam o mesmo erro de outros clubes.

Outro ponto a se destacar é a supervalorização do Mundial de Clubes aqui no Brasil. Sim, os brasileiros superestimam o torneio, tratado frequentemente como o título mais importante que um clube pode conquistar, sendo que o nosso grande campeonato é a própria Taça Libertadores, e não uma competição na qual se disputa apenas duas partidas, uma delas contra um time europeu que será, sim, o adversário mais difícil do ano, mas que geralmente não encara o certame com a mesma paixão que nós, sul-americanos. O jogo mais importante da história do Atlético não seria contra o Bayern caso avançasse à final; foi aquele contra o Olímpia, no Mineirão, no qual conquistou o seu maior troféu.

O próprio Brasileirão possui um grau de exigência maior que o do Mundial, pelo equilíbrio costumeiro, a duração e o grande número de jogos. Tem, portanto, um valor muito grande para ser desprezado com o pretexto de “se preparar” para a disputa intercontinental.

Foto: reprodução - O fracasso no Marrocos foi o encerramento de um semestre que pouquíssimo valeu para o Galo

Foto: reprodução – O fracasso no Marrocos foi o encerramento de um semestre que pouquíssimo valeu para o Galo

A culpa não é só dos clubes

O calendário do futebol brasileiro é outro fator que contribui de forma significativa para essa acomodação pós-Libertadores, apesar de não justificá-la.

Em praticamente todos os países da Europa e da América do Sul, o calendário local (reunindo a liga e as copas nacionais) termina junto com o torneio continental, ou seja, os clubes só voltam a competir depois das férias. Dessa forma, terão um tempo para descansar e redirecionar o pensamento em outros campeonatos. Já no Brasil, o time se vê obrigado a, imediatamente após o término da Libertadores, encarar uma competição longa e disputada como o Campeonato Brasileiro, o que provoca um desgaste ainda maior por parte do elenco e comissão técnica.

São alguns aspectos da cultura do futebol brasileiro – o pensamento de que não se pode brigar por duas grandes competições ao mesmo tempo, o calendário implantado, o Mundial visto como “conquista-mor”, entre outros – que precisam ser repensados e discutidos para uma evolução no pensamento e na ambição dos nossos clubes durante a temporada. Quem sabe assim eles não aprendam a lição e se deem conta da importância de se disputar o Brasileirão com intensidade semelhante à da Libertadores ganha no 1º semestre?

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Estudante de Jornalismo e redator no Placar UOL Esporte, belo-horizontino, apaixonado por esportes e Doente por Futebol. Chega ao ponto de assistir a jogos dos campeonatos mais diversos e até de partidas bem antigas, de décadas atrás.