Caos

  • por Henrique Joncew
  • 7 Anos atrás
Cruzeiro dá volta olímpica mesmo sem título matematicamente garantido (Foto: Globoesporte.com)

Cruzeiro dá volta olímpica mesmo sem título matematicamente garantido (Foto: Globoesporte.com)

O Campeonato Brasileiro de 2013 não foi um grande exemplo de ordem. Transitar entre o céu e o inferno foi extremamente fácil: quaisquer duas vitórias ou derrotas consecutivas levavam qualquer time de uma ponta à outra da tabela. Ninguém esperava tantas surpresas e decepções distribuídas aleatoriamente ao longo das 38 rodadas.

De quem geralmente se espera muito, viu-se pouco. O Corinthians, campeão do mundo em 2012, foi figurante. O São Paulo agonizou durante várias rodadas na parte de baixo da tabela. O Internacional decaiu progressivamente ao longo do torneio, até encerrá-lo brigando contra o descenso. O Flamengo esteve na metade de cima apenas em cinco rodadas. O Vasco, no segundo turno, rumou inexoravelmente para o segundo rebaixamento de sua história. O Fluminense, então, foi o primeiro time detentor do título nacional a encerrar a última rodada na zona da degola.

Mas as piores decepções não ocorreram dentro de campo. Houve brigas entre torcidas nas arquibancadas em diversas partidas, e, na última rodada, as torcidas de Atlético Paranaense e Vasco protagonizaram a pior de todas, uma vergonha em todos os sentidos. Como se a violência não bastasse, o Brasileirão não acabou no apito final da última partida, mas no tribunal. A Portuguesa e o Flamengo perderam quatro pontos na justiça, devido ao uso de jogadores irregulares. Com isso, o time paulista foi rebaixado, salvando o Fluminense da queda.

Fluminense foi o primeiro campeão brasileiro a terminar na zona de rebaixamento no ano seguinte, mas se safou graças à punição a Portuguesa no tribunal (Fotos: AE/bk2.com.br).

Fluminense foi o primeiro campeão brasileiro a terminar na zona de rebaixamento no ano seguinte, mas se safou da queda graças à punição à Portuguesa pelo STJD após o fim do torneio (Fotos: AE/bk2.com.br).

Entretanto, houve muitas gratas surpresas durante o Campeonato Brasileiro. O Criciúma, que se tornou xodó nas redes sociais, arrancou no final e garantiu sua permanência na Primeira Divisão. O Goiás, liderado pelo gordinho carismático Walter brigou forte por uma vaga na Libertadores, assim como o Vitória de Ney Franco. O Botafogo, com o belo trabalho de aproveitamento de jovens jogadores de Oswaldo de Oliveira, enfim conquistou uma vaga na Libertadores, apesar de oscilar bastante. O Atlético Paranaense, após a polêmica decisão de poupar o time principal no Campeonato Estadual, contou com as grandes participações de Éderson, artilheiro do Brasileirão, Marcelo, a revelação, e do experiente Paulo Baier para encerrar o certame na terceira posição. O Grêmio mostrou que eficiência é mais importante que um jogo bonito. O pragmático time gaúcho, sem encantar, garantiu o vice-campeonato. Individualmente, ainda se destacou o veterano Alex, do Coritiba, que fez um belo primeiro turno. Fora dos gramados, o meia ainda liderou a fundação do Bom Senso Futebol Clube, o movimento dos jogadores que exige melhorias na gestão do futebol brasileiro.

Destaques positivos do Brasileirão. Botafogo: experiência e juventude. Criciúma e Goiás: atacantes carismáticos. Atlético Paranaense: Paulo Baier e o artilheiro do campeonato Éderson levaram o time à Libertadores (Fotos: Folhapress, Foto Arena, Lancepress).

Destaques positivos do Brasileirão. Botafogo: experiência e juventude. Criciúma e Goiás: atacantes carismáticos. Atlético Paranaense: Paulo Baier e o artilheiro do campeonato Éderson levaram o time à Libertadores (Fotos: Folhapress, Foto Arena, Lancepress).

Houve também quem tenha jogado dentro das expectativas. O Atlético Mineiro, campeão da Libertadores, foi mais um time que, após conquistar a América, abandonou o campeonato nacional para se preparar para o Mundial Interclubes. O Santos começou mal, mas foi relativamente estável e terminou o torneio com três vitórias seguidas. O Bahia brigou para garantir sua permanência na elite e teve sucesso. Já a Ponte Preta não conseguiu surpreender e vai retornar à Série B em 2014.

Apenas quatro pontos separaram o Botafogo (4º colocado, que fechou a zona de classificação à Libertadores de 2014) do Atlético MG (8º). Quatro pontos também eram o que separava o São Paulo (9º) do Fluminense (17º, primeiro clube na zona do rebaixamento), distância que aumentou para seis pontos após a punição à Portuguesa. Entre esses dois pelotões, no entanto, o degrau foi maior: sete pontos. Um campeonato ao mesmo tempo equilibrado e desigual.

Mas em meio à bagunça, duas equipes foram constantes. Uma para o bem, outra para o mal. O Náutico, lanterna, fez feio. O time de Recife passou o campeonato inteiro na zona de rebaixamento e, por pouco, não igualou a vexatória campanha do América de Natal em 2007: foram apenas três pontos a mais (20 contra 17), dois gols a menos marcados (22 contra 24) e um a menos sofrido (79 contra 80).

Náutico: nenhuma rodada fora da zona de rebaixamento (Foto: Globoesporte.com).

Náutico: nenhuma rodada fora da zona de rebaixamento (Foto: Globoesporte.com).

Por outro lado, na ponta da tabela, o Cruzeiro foi soberano. Com um time praticamente novo em relação ao de 2012, o desacreditado clube mineiro, comandado por um ídolo do rival, Marcelo Oliveira, e sem jogadores de grande destaque, não era favorito à conquista do título. Mas no caótico 2013, a equipe celeste surpreendeu mais que todos e ditou as regras. A Raposa cravou suas presas em todos os rivais, vencendo ao menos um confronto direto contra todos os times do torneio. O Cruzeiro passou um total de 27 rodadas no primeiro lugar, sendo que, a partir da 16ª rodada, ninguém mais conseguiu tomar a dianteira. Absoluto, o time mineiro começou a disparar. A vantagem construída foi tanta que o time se deu ao luxo de dar a volta olímpica no Mineirão antes de garantir o título matematicamente. Incontestável, o Cruzeiro teve o melhor ataque do campeonato (77 gols marcados), o melhor jogador, o meia Éverton Ribeiro, e vários outros destaques individuais, como o goleiro e capitão Fábio, o zagueiro Dedé e o volante Nilton. O sucesso foi tanto que a marca celeste se estendeu até fora dos gramados: o atacante Willian lançou moda em Minas Gerais com seu bigode e cavanhaque.

A festa da taça celeste.

A festa da taça celeste.

O Campeonato Brasileiro de 2013 pode não ter sido o melhor de todos, mas foi um campeonato interessante. Com cenas que entram para a história e outras que devem ser apagadas, o Brasileirão teve em si o que o futebol tem de melhor: o imprevisível, o aleatório, o caos.

O Cruzeiro campeão brasileiro de 2013. De pé, da esquerda para a direita: Rafael, Júlio Baptista, Paulão, Henrique, Lucas Silva, Souza, Fábio, Dedé, Léo e Leandro Guerreiro. Agachados: Mayke, Lucca, Élber, Éverton, Tinga, Luan, Vinícius Araújo, Alison, Borges,  Egídio, Ricardo Goulart, Willian e Dagoberto. À parte: Éverton Ribeiro, Nilton.

O Cruzeiro campeão brasileiro de 2013. De pé, da esquerda para a direita: Rafael, Júlio Baptista, Paulão, Henrique, Lucas Silva, Souza, Fábio, Dedé, Léo e Leandro Guerreiro.
Agachados: Mayke, Lucca, Élber, Éverton, Tinga, Luan, Vinícius Araújo, Alison, Borges, Egídio, Ricardo Goulart, Willian e Dagoberto.
À parte: Éverton Ribeiro, Nilton.

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Geólogo. Fã de futebol, Fórmula 1, paleontologia, astronomia e pirataria desde criança. Belo horizontino, cruzeirense e líbero, armador ou atacante canhoto. Tem Zidane e Velociraptor como grandes ídolos e modelos de vida. Gosta de batata frita, do espaço e de combater o crime à noite sob o disfarce de Escorpião Negro.