Colchoneros e sua dinastia de atacantes

  • por Victor Mendes Xavier
  • 7 Anos atrás

Para alguns times, ter um camisa nove de respeito é tarefa árdua. Na Espanha, o Real Madrid vive um dilema entre contar com Benzema e o canterano Morata ou contratar um centroavante para ser titular. A desconfiança, especialmente em relação ao francês, é tão alta que o treinador Carlos Ancelotti chegou a escalar Gareth Bale de falso nove num jogo de suma importância contra o Barcelona neste início de temporada. Por falar em Barcelona, a procura por um atacante de área é diária. A cada dia, os principais jornais da região discutem o tema. É necessário, para o Barça, ter um centroavante de origem na ausência de Lionel Messi, que exerce essa função e é seu principal (e, pelo visto, único) concluidor de jogadas?

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Quem pode se dar ao luxo de dizer que não tem nenhum problema no setor é o Atlético de Madrid. A equipe de Diego Simeone tem em Diego Costa um jogador de extrema confiança. Na atual temporada, o brasileiro tem uma média de um gol por jogo na Liga Espanhola. São 15 tentos anotados em 15 partidas e a vice-artilharia da competição, atrás apenas de Cristiano Ronaldo. A grande fase de Diego Costa se estende em âmbito internacional. Pela Liga dos Campeões da UEFA, ele anotou quatro gols em quatro jogos.

O momento positivo não vem de agora. Emprestado pelo próprio Atlético ao Rayo Vallecano na temporada 2011/2012, o brasileiro deixou saudades na equipe de Vallecas. Em apenas seis meses, conquistou o coração dos torcedores e foi um dos responsáveis pela manuntenção dos franjiroyos na elite espanhola, em uma equipe que contava com nomes como Michu, Piti, Casado e Movilla. Em 15 jogos, foram 10 gols, praticamente todos decisivos. 

De volta ao Atlético de Madrid, ele ganhou destaque após a chegada de Simeone e não saiu mais do time titular. A cada jogo, a credibilidade aumenta. Na final da Copa do Rei 2012/2013 contra o Real Madrid, no Santiago Bernabéu, Diego Costa anotou um dos gols do histórico título rojiblanco. Não bastasse ter Diego Costa, o clube de Manzanarez conta com outro conhecido artilheiro em seu elenco: David Villa, comprado junto ao Barcelona por apenas 5,1 milhões de euros. Escalado um pouco distante do gol em relação a Diego, o Guaje está longe da versão avassaladora do Valencia ou da seleção espanhola entre 2006 e 2010, mas tem feito boas apresentações e a expectativa é de crescimento.

Fazendo um rápido levantamento, é possível notar que ter camisas nove de sucesso é algo que tornou-se praxe no Atlético de Madrid no século XXI. Para se ter uma noção, os últimos quatro são conhecido pelo grande público: o colombiano Falcao García, o uruguaio Diego Forlán, o argentino Sérgio Agüero e o espanhol e cria da casa Fernando Torres. Nenhum deles decepcionou ou saiu pelas portas dos fundos. Pelo contrário. Em comum entre os quatro há o aparecimento positivo nos grandes jogos. Fernando Torres, por exemplo, foi o grande carrasco do Barcelona de Rijkaard, que também sofreu com Agüero. Forlán e Falcao nunca se omitiram contra o Real Madrid.

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O torcedor Pedro Pedroso não tem dúvidas em escolher qual foi o melhor. “Diego Forlán, sem dúvidas. Foi o pichichi (o artilheiro) da Liga em uma disputa épica com Eto’o”, afirma. E, realmente, a disputa foi histórica. Antes de Messi e Cristiano Ronaldo monopolizarem a corrida pela artilharia, o uruguaio e o camaronês brigaram até as rodadas finais da Liga 2008/-2009 pelo troféu, entregue pelo Marca. Com 32 gols, Forlán levou a melhor após uma reta final de fogo. Enquanto Eto’o foi poupado por Guardiola contra o Osasuna, na penúltima rodada, para a final da Liga dos Campeões, Forlán anotou um hat-trick contra o Athletic Bilbao no País Basco e sentenciou sua vitória. Ao final da temporada, ele também foi coroado com a Chuteira de Ouro.

Durante sua passagem, Forlán formou uma infernal dupla de ataque com Agüero. Para o também torcedor Pierre Andrade, o argentino foi o melhor jogador que ele viu no Atléti. “O Agüero chegou num momento turbulento e mesmo assim conseguiu atuar em um grandíssimo nível. O começo do Falcao foi ruim. Chegou, inclusive, a ser vaiado quando o Atléti era dirigido por Manzano. Simeone elaborou um esquema tático que deu liberdade ao colombiano e recuperou seu bom futebol. Com Agüero não. Quase sempre foi dirigido por técnicos medianos, que oscilavam pela inexperiência. E, mesmo assim, foi sensacional”.

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Durante seu período em Manzanarez, Agüero foi impecável. Autor de um gol na final da Supercopa da Uefa de 2010 conquistada pelo Atlético de Madrid contra uma Inter de Milão que havia vencido todos os títulos na temporada posterior, ele tem uma partida em especial pelo clube colchonero: o duelo contra o Barcelona em 2007-2008. Em um jogo que ficou marcado pelo último gol de Ronaldinho Gaúcho pelo clube azulgrená (e que gol!), Kun, como é conhecido, marcou dois gols na vitória rojiblanca por 4×2. Ao final da temporada, o Atlético de Madrid terminou na posição, voltou à Liga dos Campeões após quase dez anos e ele foi eleito o melhor jogador da competição, com apenas 19 anos. Foram 19 gols em 37 jogos (27 em 50 somando todas as competições) e a terceira colocação no Pichichi, atrás de Dani Guiza e Luís Fabiano.

Lembrado por 2007-2008, mas de 2010-2011 igualmente excelente (20 gols em 32 jogos na Liga Espanhola), o argentino tem outra partida especial contra o Barcelona: a espetacular vitória do Atlético de Madrid por 4×3 no Vicente Calderón, em 2008-2009. Em uma das melhores partidas daquele ano, os rojiblancos não se abateram ao ver o super Barça de Guardiola abrir 2×0 e viraram o jogo, com dois gols de Agüero e dois gols de Forlán. Os melhores lances da grande partida de Kun pode ser visto aqui.

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Para Pedro, os sul-americanos tiveram uma vantagem em relação a Fernando Torres: El Niño subiu ao time principal na fase mais turbulenta do Atléti no século. Além de ter jogado em um time mais fraco, Torres encarou um período no qual o clube se recuperava de uma queda para a segunda divisão. “O Atléti do Torres era pífio. Tanto internamente como externamente”, diz. “Não havia planejamento. A diretoria comprava 15 jogadores no início da temporada e vendia 18 ao término dela. Isso só começou a mudar após a própria venda do Torres ao Liverpool”, completa.

Não é coincidência o fato de Torres não ter conquistado uma grande taça pelo clube. Enquanto Agüero, Forlán e Falcao tiveram a oportunidade de comemorar títulos importantes a nível europeu e nacional, o máximo que Torres conseguiu conquistar foi a segunda divisão em 2001/2002. Individualmente, El Niño sempre fez sua parte. Aos 19 anos, terminou como terceiro colocado na lista de artilheiros e foi eleito o capitão do time.

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Enquanto Torres, no plano coletivo, não obteve sucesso, Falcao García foi só alegrias. Campeão da Liga Europa, da Supercopa da Uefa e da Copa do Rei, o colombiano dissipou todas as dúvidas que rondavam sua contratação. Contratado por 40 milhões de euros junto ao Porto, a maior contratação da história do Atlético de Madrid, o colombiano foi decisivo em praticamente todo seu período no futebol espanhol.

Autor de dois gols na final da Liga Europa 2011/2012 contra o Athletic Bilbao e de três gols na final da Supercopa da Uefa 2011 contra o Chelsea, Falcao também deu uma primorosa assistência para Diego Costa empatar a final da Copa do Rei 2012/2013 contra o Real Madrid. O colombiano foi o que mais ganhou taças entre o quarteto, mas o que menos ficou em Madrid: após duas temporadas, o novo projeto do Monaco, comandado pelo magnata russo Dmitry Evgenevich, o seduziu e ele rumou ao futebol francês por 60 milhões de euros.

Os quatro ajudaram a mudar o patamar do Atléti e renderam bons frutos à economia do clube. Se hoje eles possuem grande grife e são reconhecidamente grande jogadores, muito se deve às suas passagens pelo Vicente Calderón. Os torcedores esperam que os próximos atacantes do time deem continuidade a essa dinastia. Enquanto isso, Diego Costa vai colhendo os frutos e escrevendo sua história pelo clube da capital espanhola.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.