Curiosidades sobre a definição dos cabeças de chave em Copas do Mundo

Finalizada a fase preliminar da Copa do Mundo, mídia e torcedores, de forma quase unânimes, atacaram a FIFA, considerando como esdrúxulo o critério de estabelecer como cabeças de chave em 2014 os melhores de seu ranking. O conceito já foi adotado em 2010.

Sem entrar no mérito da discussão sobre a melhor forma de defini-los, listamos agora os cabeças de chave menos convencionais e alguns critérios esdrúxulos já adotados pela FIFA para a escolha dos favoritos em suas 20 Copas do Mundo (incluindo 2014).

1930 – A única Copa com número impar de favoritos

Na Copa de 1930, o Comitê Organizador decidiu que haveria cinco cabeças de chave para quatro grupos, com Paraguai e EUA sendo cabeças de chave de forma conjunta em um dos grupos. Os outros foram Brasil, Argentina e Uruguai.

Assim, foi a única vez em que um número impar de cabeças de chave foi escolhido, já que nas outras Copas sempre houve um número par de grupos (4, 6 ou 8) ou confrontos previstos (8, em 1934 e 1938) na primeira fase.

1934 – Amadores argentinos são cabeças e espanhóis ficam fora

Foram definidas como cabeças de chave pelo comitê organizador as seguintes seleções: Alemanha, Argentina, Áustria, Brasil, Holanda, Hungria, Itália e Tchecoslováquia.

Os espanhóis, que tinham conseguido goleadas interessantes (13×0 na Bulgária, 9×0 em Portugal e 7×1 na Irlanda) e vitórias sobre Itália e Tchecoslováquia nos anos anteriores acabaram sendo colocados no grupo dos mais fracos. Coube ao Brasil o azar de enfrentá-los na primeira rodada, no jogo mais esperado da fase.

Interessante é que a Argentina mandou um time totalmente amador para a competição, pois seus profissionais jogavam na LAF (Liga Argentina de Football), que não era filiada à FIFA. Mesmo assim, em respeito ao vice-campeonato mundial de quatro anos antes, foi considerada cabeça de chave, embora nenhum jogador daquela equipe estivesse em campo pela seleção.

1938– Cuba é cabeça de chave

Com a desistência de Argentina, Colômbia, Costa Rica, El Salvador, EUA, Guiana Francesa e México, apenas duas seleções representariam a América naquela Copa: Brasil e Cuba.

Mesmo em sua primeira Copa e com nenhuma tradição no futebol, os cubanos acabaram sendo eleitos cabeças de chave. Como ponto positivo, a seleção caribenha derrotou os romenos e chegou à segunda etapa da competição.

Cuba foi cabeça de chave em 1938. (Foto: AFP PHOTO)

Cuba foi cabeça de chave em 1938.
(Foto: AFP PHOTO)

1954– Grupos bicéfalos

O regulamento da Copa de 1954 é, de longe, o mais bizarro da história. Quatro grupos seriam disputados, com dois cabeças de chave por grupo, que não se enfrentariam. Assim, em cada chave, apenas duas rodadas seriam disputadas, e se duas equipes empatassem na segunda colocação, disputariam um jogo extra para definir o classificado.

A Turquia, que tinha eliminado a Espanha apenas na moedinha durante as Eliminatórias, foi colocada no grupo dos favoritos e dividiu a chave com a Hungria, favoritíssima ao título, Alemanha Ocidental (fora do grupo dos favoritos) e Coreia do Sul.

1958 e 1970 – Sem “favoritos”

O Comitê Organizador da Copa de 1958 decidiu não estabelecer cabeças de chave para a competição, dividindo as seleções em quatro potes, de forma regional (trazendo a Áustria alguns quilômetros à esquerda do mapa) da seguinte forma:

Oeste Europeu: Alemanha Ocidental, Áustria, França e Suécia

Leste Europeu: Hungria, Iugoslávia, Tchecoslováquia e URSS

Britânico: Escócia, Inglaterra, Irlanda do Norte e País de Gales

Américas: Argentina, Brasil, México e Paraguai.

Em 1970, a situação foi semelhante, com um misto de critério geográfico e força no continente estabelecendo os quatro distintos grupos:

Europa I: Alemanha Ocidental, Inglaterra, Itália e URSS

Europa II: Bélgica, Bulgária, Suécia e Tchecoslováquia

Américas: Brasil, México, Peru e Uruguai

Resto do Mundo: El Salvador, Israel, Marrocos e Romênia.

Um dia antes, porém, a expectativa era que os cabeças de chave fossem México (sede), Inglaterra (campeã de 1966), Brasil e Alemanha/Itália. No dia do sorteio, o Comitê definiu o critério adotado acima, que acabou colocando Brasil e Inglaterra no mesmo grupo.

Ainda, os marroquinos tinham avisado à FIFA que desistiriam da disputa se precisasse enfrentar Israel, como aconteceu nos Jogos Olímpicos dois anos antes. Assim, a divisão adotada teve também um viés político.

1962 – A América do Sul manda

Com a presença do Chile como país sede, a definição dos cabeças de chave foi feita considerando a situação geográfica e o nível futebolístico. Assim, Brasil, Uruguai e Argentina fizeram companhia aos anfitriões no grupo dos favoritos.

1986 a 1994 – Coroando boas campanhas

Em 1986, a FIFA adotou como critério para a definição dos cabeças de chave a posição na Copa anterior. Assim, além de México (pais-sede), Itália (campeã em 1982), Alemanha (2ª), França (4ª) e Brasil (5ª), a Polônia, terceira em 1982 e ainda com um bom time, mesmo sem a presença de Lato, ficou no grupo das favoritas.

Em 1990, a FIFA utilizou como critério um ranking baseado nas performances das Copas de 1986 (peso de 2/3) e 1982. As seis equipes consideradas favoritas foram Itália, Argentina, Brasil, Alemanha, Bélgica e Inglaterra.

Embora oficialmente a FIFA considere o ranking, vários dirigentes comentaram, na época, que a Inglaterra teria sido escolhida no lugar da Espanha para isolar os hooligans em Cagliari, na Sardenha.

Em 1994, a composição dos grupos levou em conta as campanhas nas três Copas anteriores. Assim, a Bélgica, 27ª classificada no ranking da FIFA (10ª em 1982, 4ª em 1986 e 11ª em 1990), acabou sendo cabeça de chave mais uma vez, deixando Holanda (2ª) e Espanha (5ª) no pote 2.

1998 a 2006 – Quando o ranking tem algum peso

Entre as Copas de 1998 e 2006, o ranking da FIFA foi levado em consideração, assim como a posição nas últimas duas ou três Copas, a depender do ano. Mesmo assim, algumas aberrações também foram constatadas.

Em 1998, a FIFA elaborou um ranking paralelo, que levou em conta as colocações nos Mundiais de 1986, 1990 e 1994 e o ranking oficial da entidade de 1995 a 1997. Assim, a Romênia, que saiu nas quartas em 1994 e ficou em 5ª no ranking de 1997, credenciou-se ao grupo dos favoritos no lugar da Inglaterra, que não foi a 1994.

Em 2006, a FIFA considerou os Mundiais de 1998 e 2002, além do seu ranking entre 2003 e 2005. Inglaterra (2ª no ranking, considerando esses critérios), Espanha (3ª) e México (5º) foram beneficiados, ficando à frente de França, Itália, Argentina e Holanda.

Com isso, o México, pela primeira vez, seria cabeça de chave por méritos técnicos, já que em 1986 teve a honra por ser pais-sede.

2010 e 2014 – O ranking e mais nada

A partir de 2010, a FIFA considera apenas o seu Ranking como critério de escolha de cabeças de chave. No primeiro ano, levou-se em conta o Ranking de 2009 e não houve qualquer surpresa, com a presença da Inglaterra como favorita no lugar da França sendo o único ponto com alguma possibilidade de discussão.

Curiosamente, tivesse o Ranking de novembro sido considerado, Argentina e Inglaterra dariam lugar a Portugal e França na lista.

Em 2014, o Ranking de outubro de 2013 foi definitivo e estabeleceu Colômbia (4ª) e Suíça (7ª) como favoritas pela primeira vez. A Bélgica, 5ª no Ranking, será cabeça pela terceira vez, e o Uruguai, que esteve perto de ser eliminado pela Venezuela nas Eliminatórias, voltará ao grupo dos favoritos após 40 anos.

Ranking da FIFA em outubro de 2013. (Foto: www.fifa.com)

Ranking da FIFA em outubro de 2013.
(Foto: www.fifa.com)

Holanda, Itália, Inglaterra, França e Portugal, equipes com grande tradição, foram relegadas a potes inferiores, levantando a discussão de qual seria o critério mais justo para estabelecer os cabeças de chave.

Como curiosidade, se fosse adotado o ranking de novembro de 2013, Suíça e Bélgica dariam lugar a Portugal e Itália na lista dos favoritos.

Estatísticas adicionais

– Brasil (18 vezes, incluindo 2014) e Cuba (1 vez) são as únicas seleções que foram cabeças de chave em todos os mundiais em que disputaram.

– Apenas a Conmebol teve todos os cabeças de chave em uma única Copa (1962).

– Como a CAF (com a África do Sul, em 2010) e a AFC (com Japão e Coreia do Sul, em 2002) já sediaram Copas do Mundo, a OFC é o único continente a nunca ter um cabeça de chave em Copas.

– As únicas equipes campeãs mundiais sem serem cabeças de chave foram a Alemanha Ocidental (1954) e a Argentina (1986).

A Argentina foi campeã mundial sem ser cabeça de chave em 1986. (Foto: Perenyi/Augenklick)

A Argentina foi campeã mundial sem ser cabeça de chave em 1986.
(Foto: Perenyi/Augenklick)

– Desde 1966, a próxima Copa será a primeira que a Itália não será cabeça de chave. A equipe só tinha ficado fora da lista das favoritas em 1962.

– A Alemanha é a nação europeia que mais vezes foi cabeça de chave (13 vezes, incluindo 2014). A única Copa disputada em que não foi favorita foi 1962.

– A Holanda passou 44 anos para repetir um encabeçamento de grupo, de 1934 a 1978.

– O Paraguai, cabeça de chave em 1930, tem o maior jejum após encabeçar um grupo: no mínimo 88 anos, se for favorito em 2018.

– De 1978 a 1994, nenhum cabeça de chave foi eliminado na primeira fase.

– O 28º lugar da França em 2002 é a pior posição de um cabeça de chave na classificação final da competição.

– Com a presença de Colômbia e Suíça, o grupo de seleções que já foram consideradas cabeças de chave tem 27 componentes, sendo 15 da UEFA, 6 da Conmebol, 3 da Concacaf, 2 da AFC e 1 da CAF.

– Dos 27 componentes, 23 foram cabeças de chave por critérios técnicos, sendo 15 da UEFA, 5 da Conmebol e 3 da Concacaf.

– África do Sul, Chile, Coreia do Sul e Japão são os países que foram cabeças de chave apenas por serem o país sede, sem nunca terem obtido tal mérito por critério técnico.

– Brasil (18x), Itália (15), Alemanha (13) e Argentina (12) são as únicas seleções a serem cabeças de chave em mais de 10 Copas.

– Holanda (4x) e Hungria (3) são as seleções sem títulos mundiais que por mais vezes encabeçaram grupos.

Comentários

Sergio Rocha é torcedor do Madureira e sempre teve o sonho de escrever sobre esportes em geral, embora tenha optado pela carreira de engenheiro civil. No "currículo", cadernos recheados de resultados esportivos e agendas da década de 90, quando antes da internet acessava rádios de diversos locais do país buscando os resultados esportivos do Acre à Costa Rica. Além de fanático por futebol, é fanático por praticamente todos os esportes, e no tempo livre que sobra sempre busca os últimos resultados esportivos do PGA Tour ou dos futures da ATP. Além disso, coleciona quadrinhos da Disney e é louco por astronomia.