Da cintura pra baixo é quenelle!

Ontem, no empate em 3×3 entre West Bromwich Albion’s e West Ham United, o atacante Nicolas Anelka resolveu comemorar um de seus gols com o controverso gesto conhecido como quenelle. Esse fato foi amplamente comentado no mundo todo como sendo uma clara demonstração de antissemitismo por parte do jogador que pode ser, inclusive, banido dos gramados europeus por uns tempos, por conta dessa estrepolia. Mas e você, incauto e apolítico amante do futebol, sabe o que é quenelle?

O gesto polémico de Anelka| IAN KINGSON/AFP

O gesto polémico de Anelka| IAN KINGSON/AFP

Gastronomicamente falando, quenelle é apenas e tão somente um bolinho condimentado feito com carne ou peixe. Ponto. Mas, atualmente, quenelle é também o nome pelo qual o comediante francês Dieudonné M’bala M’bala batizou um gesto que usa frequentemente (desde 2009) em suas apresentações. O gesto (braço direito esticado pra baixo e mão esquerda no ombro direito), quer dizer algo como: “Fod*-s*! Vou enfiar meu braço até aqui (a razão da mão esquerda no ombro direito) no seu rabo”. O gesto foi criado como uma alusão ao que o comediante gostaria de fazer com os políticos da França (qualquer político). Porém (e sempre tem um porém), Dieudonné não é apenas um comediante. Ele é também envolvido com o ativismo antissionista e se posiciona claramente como sendo de extrema-direita, tendo, inclusive, já concorrido a cargos públicos na França. E, pra ajudar, é amigo do Anelka.

Pelo currículo do moço, os grupos judaicos na França consideram o gesto como uma nova saudação nazista. Aí, você pensa: “Pera lá, antissionista, treta com judeu, braço esticado, o Anelka é amigo do cara, bla, bla, bla… esse Anelka é nazista mesmo!”. Não, não, meu estupefato amigo. Antissionismo e antissemitismo não são a mesma coisa. Antissionismo é: “a oposição política, moral ou religiosa às várias correntes ideológicas incluídas no sionismo, inclusive ao estado de Israel”. Os nazistas eram na verdade antissemitas, que, por definição, é: “quem possui ou pratica preconceito ou hostilidade contra judeus baseada em ódio contra seu histórico étnico, cultural e/ou religioso”. São duas coisas distintas, apesar de, frequentemente, andarem juntas.

Papo vai, papo vem, Anelka e Dieudonné são “brothers”, depois do gol o atacante comemora com o gesto em apoio ao amigo (que vem sendo censurado na França), o governo francês é simpático ao sionismo e está lá a lambança estendida no chão.

O que ninguém noticia é que o gesto (na sua intenção original, crítica e anti-establishment) já se espalhou pelo velho continente todo, e que hoje uma das maiores diversões entre os jovens de vários países é tirar fotos ao lado de políticos, mandando o quenelle meio na mocosa, para postar depois nas redes sociais.

Ministro do interior da França ( principal inimigo do comediante) sendo ironizado pelos jovens.

Ministro do interior da França ( principal inimigo do comediante) sendo ironizado pelos jovens.

O problema é que, ao contrário da receita original, a gastronômica, os ingredientes desse novo quenelle são muito indigestos. A mistura entre política e futebol já não pode, normalmente, ser feita em fogo baixo, e quando você ainda adiciona temas complexos como o sionismo na mesma panela, aí, meu amigo, é que o caldo entorna de vez.

Daí o sujeito vai provar da mistura, a vista fica meio embaçada, o cara entra em campo (seja pra jogar, seja pra comentar) e da cintura pra baixo vira tudo quenelle.

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