Não se justifiquem na mentira do caso Tartá

Foto: Reprodução - Tartá não jogou de forma irregular em 2010

Foto: Reprodução – Tartá não jogou de forma irregular em 2010

Dizem que uma mentira contada várias vezes se torna verdade. No polêmico caso “Portuguesa x Fluminense”, que culminou com a perda de quatro pontos do clube paulista pela escalação irregular do meio-campista Héverton e, consequentemente, com o rebaixamento, há uma dessas mentiras que vira verdade. Trata-se de uma suposta suspensão não cumprida pelo atacante Tartá em 2010, quando este vestia a camisa do Fluminense. Caso fosse confirmada tal irregularidade e a suspensão fosse feita, o clube carioca, campeão brasileiro daquele ano, perderia quatro pontos e também o título.

Se você está usando este argumento para defender a Portuguesa, sinto em dizer que está enormemente equivocado. Em nenhum momento do Campeonato Brasileiro de 2010 Tartá jogou de forma irregular.

Torcedores justificarem isso até passa. Eles não têm a obrigação de saber. Na realidade, para torcedor, o que importa é o resultado do julgamento. Para muitos, nem a justificativa que levou o tribunal tomar tal decisão é de grande relevância. Mas, para jornalistas, a história muda. Eles precisam saber de praticamente tudo antes de tornar públicas suas matérias e, principalmente, suas opiniões.

O caso de Tartá é uma dessas histórias. Muitos sites publicaram, fizeram um escarcéu, criticaram o STJD, os procuradores, advogados, clubes, jogadores, gandulas, faxineiros, Deus e o Mundo por causa disso. Não sei de onde surgiu esse fato, mas a checagem da informação, um dos princípios básicos da profissão, não foi feita.

Bastava uma rápida busca em fichas de jogos para que fosse encontrada a verdadeira história de Tartá no Brasileirão de 2010. Para ser sucinto, separei em tópicos para que possa ser entendido com clareza o que aconteceu naquele ano:

1) Tartá começou o Campeonato Brasileiro de 2010 emprestado pelo Fluminense ao Atlético Paranaense. No clube do Sul, foi relacionado em apenas seis partidas;

2) Na 2ª rodada, no empate em 2×2 com o Guarani, Tartá recebeu um cartão amarelo aos 40 minutos do 2º tempo. Foi o primeiro dele na competição;

3) Em seu último jogo pelo Atlético, isso na 7ª rodada, na derrota por 1×0 diante do Vitória, o atacante recebeu outro cartão amarelo. Esse aos 34 minutos da etapa final;

4) No começo de julho, Tartá foi devolvido ao Fluminense;

5) Já no clube carioca, o atacante recebeu um cartão amarelo no primeiro jogo em que entrou em campo (terceiro em que esteve relacionado). Foi justamente contra o Atlético Paranaense, na 31ª rodada, no empate em 2×2. O cartão foi mostrado aos 28 minutos do segundo tempo;

6) Na rodada seguinte, suspenso, Tartá não foi relacionado;

7) O que causa a confusão é que na 33ª e 34ª rodada, ele recebeu cartões amarelos e acabou jogando a 35ª rodada. Mas Tartá cumpriu a suspensão na 32ª rodada. O resto é tudo mentira;

E até hoje ouço pessoas defendendo a Portuguesa usando este argumento. Melhor dizendo: vejo jornalistas usando este argumento.

Para registrar o que escrevo, separei duas notícias da época. Uma é do Portal UOL, falando que Tartá, assim como Rodriguinho, estavam suspensos após a partida contra o Atlético Paranaense. Já a outra notícia é do site Super Esportes, também noticiando a suspensão de Tartá e com uma fala do atacante, lamentando a ausência na partida seguinte.

Querem também um exemplo prático e que aconteceu na edição 2013 do Campeonato Brasileiro? Pois bem, lhes mostro: Fellipe Bastos defendeu dois times este ano: Vasco e Ponte Preta. No clube carioca, o volante recebeu um cartão amarelo logo aos 10 minutos da 2ª rodada contra o São Paulo. Já no clube campineiro, Bastos foi punido pela arbitragem na 21ª rodada, contra o Flamengo, e na 26ª, contra o Bahia. Na 27ª rodada, contra o Atlético Mineiro, ele não foi relacionado, afinal, estava suspenso.

O terceiro cartão de Bastos com a camisa da Ponte Preta, quarto no campeonato, foi contra o Cruzeiro, na 35ª rodada. Contra o Grêmio, na 36ª rodada, ele estava em campo.

Foto: Janaína Maciel/AAN - Na Ponte Preta, Fellipe Bastos viveu situação idêntica a de Tartá

Foto: Janaína Maciel/AAN – Na Ponte Preta, Fellipe Bastos viveu situação idêntica a de Tartá

A intenção deste texto não é chutar cachorro morto, muito menos tentar colocar a Portuguesa como coitadinha (infelizmente, muitos veículos de comunicação estão fazendo isso), mas, sim, mostrar que é possível defender o clube paulista com argumentos reais. Usar o caso Tartá como justificativa é cair na falácia criada pelas redes sociais, onde qualquer nota de menos de 200 caracteres vira uma notícia concreta e totalmente checada.

Sei também que, para muitos, esse texto foi pouco esclarecedor, já que tinham ciência do quão mentiroso é o argumento de irregularidade do então jogador tricolor, mas, ainda hoje, muita gente diz: “ah, mas em 2010, o STJD (…)”. Ah, em 2010 nada de irregular aconteceu. Tartá jogou de forma regular e muitos profissionais precisam assumir o compromisso com a verdade, checar os fatos e não iludir o público, coisa que está acontecendo desde que veio à tona a irregularidade de Héverton. Para isso, é necessário deixar o clubismo de lado, assim como a vontade de ver um clube grande cair.

O jornalista Paulo Vinícius Coelho, o PVC, também falou deste caso semanas atrás. Leia o que ele escreveu:

Fontes: Ogol.com.br, FutPédia, ESPN, Super Esportes, Portal Terra e UOL
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Uma mistura maluca de pessoa. Academico de jornalismo, catarinense de origens italianas e espanholas, mas apaixonado pela bola que rola na terra da Torre Eiffel e pela gorduchinha que pinta os gramados cheios de chucrute da Alemanha. Não escondo minha preferência por times que tem uniformes nas cores amarelas e pretas, mas sempre com análises bem embasadas... ou não. Mas acima de tudo, sou um Doente Por Futebol.