O futebol brasileiro está condenado (ou ‘É óbvio que eles vão torcer pro Real e pro Barça’)

  • por João Rabay
  • 5 Anos atrás

O Fluminense vai jogar a Série A do Campeonato Brasileiro em 2014. A Portuguesa não.
O Fluminense terminou a Série A 2013 na zona do rebaixamento. A Portuguesa não.

A decisão do STJD altera a classificação do campeonato de 2013 e os participantes do campeonato de 2014. Mas os reflexos do julgamento vão além desses dois anos. Na verdade o caso é só mais um entre os golpes contra a credibilidade e a atratividade do futebol do Brasil. Não significa o fim do futebol brasileiro, mas é parte do processo.

(Por favor, não percam tempo justificando o acontecido com o regulamento. A discussão jurídica é válida, mas não é disso que trata este texto.)

Lugar de torcedor é... no tribunal? (Foto: Renan Rodrigues/UOL)

Lugar de torcedor é… no tribunal? (Foto: Renan Rodrigues/UOL)

O que aconteceu é simples: uma parte do campeonato foi decidida não no campo, mas no tribunal. Quem decidiu não usa camiseta e chuteira como uniforme, mas sim terno e sapato. O torcedor que passou 38 rodadas acompanhando o torneio perdeu seu tempo. E o futebol brasileiro é, cada vez mais, uma perda de tempo.

Existem alguns fatores que prendem alguém ao futebol o suficiente pra fazer que essa pessoa pare o que está fazendo pra assistir uma partida.
Na minha opinião, os principais são a paixão pelo time, a paixão pelo esporte, a qualidade da partida e a competitividade.

A paixão pelo esporte vem do contato com ele, do prazer que é chutar uma bola pelo quarto quando se é criança e passa para o prazer de jogar com os amigos, ou mesmo com desconhecidos.

A paixão pelo time é difícil de ser explicada. (Aliás, que fique claro que nem todo torcedor é apaixonado. Torcer só quando ganha não é paixão). Mas acho que ir ao estádio e sentir o clima do esporte de perto é fundamental.

A qualidade é algo óbvio: você assiste uma coisa que você admira, no caso, um jogador fazendo coisas incríveis com a bola, que nem todo mundo é capaz de fazer.

E a competitividade é o prazer de acompanhar a disputa, ver quem ganha, quem perde, quem é eliminado e quem é campeão.

Agora, como isso se aplica no futebol brasileiro?

Você, torcedor, seja sincero: o que te atrai no futebol daqui além do seu time? Você consegue ver jogos de outras equipes?

Claro, de vez em quando tem um jogo que vale a pena ser assistido, mas é muito raro. O nível técnico é claramente baixo. Todos os nossos melhores jogadores estão lá fora.

A paixão pelo jogo é ligada diretamente a ter contato próximo com o esporte, mas como isso de fato acontece no “país do futebol”, onde ir ao estádio é uma experiência arriscada por causa da violência? Não é por acaso que as médias de público são tão baixas aqui, e isso significa que cada vez temos menos gente tendo a tal proximidade com o futebol.

Sobra, além da paixão pelo time, o interesse por causa da competitividade. É aqui que retomo o caso do rebaixamento da Portuguesa e não do Fluminense pelo STJD mesmo que a Portuguesa tenha terminado o campeonato na frente do Fluminense. Repito e destaco isso porque a situação tem que ficar bem clara. O Fluminense caiu no campo, a Portuguesa no tribunal.

O que a decisão dos homens de terno representa é um golpe direto na competitividade. O resultado do campo não vale tanto quanto a gente acha. E aí desanima.

Não sei quantos anos tem você que está lendo. Eu, com 21 anos, faço parte daquela que talvez seja a última geração que cresceu tendo mais contato com o futebol brasileiro que com o europeu. Quem começou a acompanhar o esporte de 2000 e poucos pra cá vê, na televisão, mais futebol europeu que brasileiro. Acho que quem tem 15 anos ou menos faz parte da primeira geração dessa nova fase.

Agora, pensa comigo. Se você, que cresceu próximo ao futebol e é apaixonado pelo seu time desanima com o futebol brasileiro em dias como hoje (o do julgamento), imagina esse adolescente ou uma criança. O moleque dificilmente vai ao estádio, porque é caro, é longe e é arriscado. E também porque o jogo é ruim.

Quando ele está em casa, se está passando um jogo nacional sem o time dele em um canal e um jogo europeu em outro, qual ele vai ver? O São Paulo x Mirassol pela 14ª rodada do Paulistão ou o Barcelona x Sevilla? O Rogério, o Ganso e o Aloísio ou o Messi, o Iniesta e o Neymar?

Pensando em tudo isso, acho que é uma tendência natural que vejamos cada vez mais torcedores brasileiros de times europeus. É só ver por aí quanta gente se diz torcedora do Chelsea, do Manchester United, do Barcelona, do Real ou do Borussia. Você pode fazer piada, achar ridículo, mas quer saber? Eles é que estão certos. Se o futebol brasileiro é claramente uma perda de tempo, por que aceitar perdê-lo?

Essa geração vai mudar a forma como existe o futebol no Brasil. Ele, que já foi um esporte marginalizado, “de pobre”, e passou por várias transformações ao longo dos anos, continua mudando. E o cenário não me é nada animador.

O futebol brasileiro tem pouca atratividade e, agora, definitivamente não tem credibilidade. E é por isso que está condenado.

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Jornalista. Doente por futebol bem jogado e inimigo de jogadores que desistem da bola para cavar falta e de atacantes "úteis porque marcam os laterais".