Para nunca deixar de acreditar

  • por Henrique Joncew
  • 7 Anos atrás
Réver ergue o troféu de campeão da Libertadores da América (Foto: Globoesporte.com).

Réver ergue o troféu de campeão da Libertadores da América (Foto: Globoesporte.com).

O torcedor atleticano olhava enquanto Matías Giménez caminhava para a marca do pênalti.

Meses antes, iniciava-se a pré-Libertadores. O Olimpia (Paraguai) bateu o Defensor (Uruguai) e se garantiu na principal competição das Américas. Grêmio e São Paulo, além de Tigre (Argentina), Tolima (Colômbia) e Iquique (Chile) foram os demais classificados nessa etapa.

O camisa 4 do Olimpia ajeitou a bola na marca da cal…

A Libertadores da América começou e o Atlético Mineiro logo se destacou com um futebol eficiente e vistoso. Ronaldinho liderava o time com suas jogadas belas e precisas, e Bernard, Jô e Diego Tardelli não davam trégua às defesas adversárias com muita movimentação e, claro, gols. O alvinegro classificou-se com facilidade e, na última rodada da fase de grupos, poderia despachar o São Paulo da competição, mas o tricolor paulista conseguiu vencer e passou ao mata-mata na bacia das almas.

Nos demais grupos, os brasileiros não desapontaram suas torcidas e também passaram de fase. A decepção ficou por conta dos tradicionais Peñarol (Uruguai), Universidad de Chile e Cerro Porteño (Paraguai), eliminados precocemente. O time paraguaio, inclusive, fez um mísero ponto em toda a campanha.

O Santa Fe de Roa (esq.) foi surpreendeu e foi semifinalista. O Cerro Porteño de Romero (dir.) decepcionou e fez apenas um ponto em seis jogos (Foto: AFP).

O Santa Fe de Roa (esq.) surpreendeu e foi semifinalista. O Cerro Porteño de Romero (dir.) decepcionou e fez um ponto em seis jogos (Foto: AFP).

… e tomou distância.

Nas oitavas de final, Atlético e São Paulo voltaram a se enfrentar. Na capital paulista, o tricolor abriu o placar, mas permitiu a virada para 2×1 após a expulsão do zagueiro Lúcio. Em Belo Horizonte, o Galo não tomou conhecimento e goleou por 4×1. O Fluminense também passou às quartas de final, após eliminar o Emelec (Equador). Já Corinthians, Palmeiras e Grêmio sucumbiram em seus confrontos, diante de Boca Juniors (Argentina), Tijuana (México) e Santa Fe (Colômbia), respectivamente. O Nacional (Uruguai) perdeu para o Real Garcilaso (Peru) nos pênaltis.

O árbitro autorizou a cobrança.

Nas quartas de final, a Libertadores enfim tomou seus típicos contornos dramáticos. Não para o Santa Fe, que despachou sem problemas o Real Garcilaso. O Olimpia teve alguma dificuldade contra o Fluminense, e teve que virar o placar dentro de casa para 2×1 para se classificar.

Mas, para Newell’s Old Boys e Boca Juniors, as quartas de final reservaram 180 minutos sem gols e uma disputa de pênaltis com 13 cobranças para cada lado e um placar de 10×9 para o time de Rosario. Emocionante, não?

Pois para Atlético e Tijuana foi mais. O Galo arrancou um 2×2 no México nos minutos finais, e segurava um 1×1 em casa com todas as forças. A resistência funcionou até os acréscimos do segundo tempo, quando Leonardo Silva cometeu pênalti em Aguilar. Não havia mais o que fazer. Não havia tempo para reagir. O gol é grande demais. O atacante Riascos assumiu a função de carrasco e, aos 47 minutos da etapa complementar, fez o atleticano voltar ao mundo real.

Mas a realidade se mostrou melhor que qualquer devaneio. A realidade ergueu o pé do goleiro Victor e isolou a bola para longe das redes. A realidade gritou: “Eu acredito!”, e o Galo avançou às semifinais com uma defesa mais importante que qualquer gol.

Depois da defesa de Victor, não houve como não acreditar (LANCE! Press)

Depois da defesa de Victor, não houve como não acreditar (LANCE! Press).

Giménez correu para a bola…

Nas semifinais, o Olimpia bateu o Santa Fe por 2×0 em casa e administrou o resultado na Colômbia, perdendo apenas por 1×0. Os paraguaios iriam atrás de seu tetracampeonato.

Atlético e Newell’s Old Boys colocaram-se frente a frente, e os argentinos começaram melhor: 2×0 em Rosario. Mas o atleticano não se entregou. Aprendera a acreditar contra o Tijuana e conhecia a força de seu time em casa.

Logo aos 2 minutos do jogo de volta, Bernard abriu o marcador. Era questão de tempo até a desvantagem ser eliminada. Mas os minutos corriam e o gol teimava em não sair. O alvinegro lançou-se ao ataque, mas não conseguia marcar, até que a luz do Estádio Independência caiu, paralisando o jogo por mais de dez minutos. Há quem diga que foi manobra para esfriar a defesa argentina.

Quando a bola voltou a rolar, Guilherme aproveitou um corte malfeito e fez 2×0 para o Atlético. Breve alívio, seguido da angústia da disputa por pênaltis, na qual Victor interveio novamente, defendendo a última cobrança e levando o clube de Belo Horizonte a sua primeira final de Libertadores.

… e chutou.

No Paraguai, o Atlético novamente viu o adversário dominar a partida. O Olimpia não perdoou: e aplicou mais um 2×0 para a conta atleticana.

A segunda partida desta vez seria jogada no Mineirão, já que o Independência, inexpugnável fortaleza atleticana, não atende às exigências da Conmebol para sediar uma final de Libertadores. No primeiro tempo, nada de gols, mas logo no início da segunda etapa, o meia Pittoni, autor do segundo gol da partida anterior, falhou ao cortar um cruzamento. A bola sobrou para Jô, artilheiro da competição, abrir o placar e inflamar a massa alvinegra em Belo Horizonte.

Para tornar surreal a já sofrida campanha atleticana, Ferreyra passou por Victor a oito minutos do fim. Mas, quando o atleticano já se perguntava: “eu acredito?”, a realidade ensinou de novo que nunca se deve entregar os pontos. O centroavante, diante de um gol vazio, simplesmente escorregou. O castigo aos paraguaios não tardou. Pouco depois, o zagueiro Leonardo Silva escorou de cabeça um cruzamento de Bernard e fez o tão esperado 2×0.

A decisão foi para a prorrogação, que começou e terminou sem gols. A Taça Libertadores da América seria definida nos pênaltis.

O Olimpia iniciou as cobranças e, novamente, Victor se fez gigante e defendeu o pênalti de Miranda. Depois, Ferreyra, Candia e Aranda converteram as cobranças da equipe paraguaia. Pelo Galo, ninguém perdeu: Alecsandro, Guilherme, Jô e Leonardo Silva balançaram as redes. Assim, a disputa de chegava à quinta série de cobranças com um placar de 4×3 para o Atlético.

O torcedor atleticano olhava enquanto Matías Giménez caminhava para a marca do pênalti. O camisa 4 do Olimpia ajeitou a bola na marca da cal e tomou distância. O árbitro autorizou a cobrança. O argentino correu para a bola e chutou.

Giménez bateu. A bola demorou 41 anos da marca da cal à trave (Foto: Terra).

Giménez bateu. A bola demorou 41 anos da marca da cal à trave (Foto: Terra).

“Eu acredito!”

A bola viajou até a trave, em uma jornada que demorou mais de 41 anos. O Atlético quebrou seu longo jejum de títulos com sua maior glória. Mais sofrida que o saudável. Mais imprudente que o recomendável. Mas não importava: a conquista veio. Veio porque ninguém desistiu quando tudo parecia perdido. Veio quando a realidade superou o sonho. Veio para quem acreditou e, como poucas vezes se viu, insistiu repetidamente em transformar em fato concreto o inacreditável.

O Atlético Mineiro campeão da América. De pé, da esquerda para a direita: Giovanni, Jô, Michel, Leonardo Silva, Gilberto Silva, Réver e Victor. Agachados: Bernard, Diego Tardelli, Luan, Pierre, Júnior César, Alecsandro, Guilherme, Rosinei, Leandro Donizete, Josué e Ronaldinho. Marcos Rocha e Richarlyson não saíram na foto (Foto: Placar).

O Galo campeão da América. De pé, da esquerda para a direita: Giovanni, Jô, Michel, Leonardo Silva, Gilberto Silva, Réver e Victor.
Agachados: Bernard, Diego Tardelli, Luan, Pierre, Júnior César, Alecsandro, Guilherme, Rosinei, Leandro Donizete, Josué e Ronaldinho. Marcos Rocha e Richarlyson não saíram na foto (Foto: Placar).

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Geólogo. Fã de futebol, Fórmula 1, paleontologia, astronomia e pirataria desde criança. Belo horizontino, cruzeirense e líbero, armador ou atacante canhoto. Tem Zidane e Velociraptor como grandes ídolos e modelos de vida. Gosta de batata frita, do espaço e de combater o crime à noite sob o disfarce de Escorpião Negro.