Por que tem que ser tão dramático?

  • por Henrique Joncew
  • 7 Anos atrás

“Se não é sofrido, não é…”

Muitos torcedores brasileiros completam essa frase com o nome de seu clube. Quem não gosta de uma virada no último lance? Do alívio do fim do jogo, segurando a absurda pressão do adversário após um gol achado no início da partida? A conquista parece mais bonita quando tem a moldura do drama, como o tetra na Copa de 1994 e as Libertadores de Cruzeiro, em 1976, e São Paulo, em 1993. Por outro lado, vitórias seguras e incontestáveis são tidas como monótonas e sem graça. Goleada? Só contra os arquirrivais, o resto tem que ser na raça.

Cruzeiro, em 1976: gol do título a 2 minutos do fim. Brasil, em 1994: tetra nos pênaltis.

Cruzeiro, em 1976: gol do título a 2 minutos do fim. Brasil, em 1994: tetra nos pênaltis.

Essa filosofia não só acompanha o torcedor como influencia na concentração das equipes antes de jogos decisivos. Os times se preparam para jogar com raça. O desarme tem que ser de carrinho. O gol tem que ser chorado. Os jogadores têm que ser guerreiros. Pênaltis, então, são o supra-sumo.

O que é isso? Por que tem que ser tão dramático?

Claro, aplicação dentro de campo é fulcral para que um time atinja seus objetivos. A raça é indispensável, mas igualmente importantes são a inteligência e a frieza, e é disso que treinadores e atletas se esquecem ao planejar as estratégias para os grandes jogos. Mas, como tudo tem que ser épico, qualquer adversidade também toma proporções maiores do que deveriam. Um cartão é motivo de revolta, um impedimento é motivo de protestos e um gol sofrido, então, é catastrófico. Por conta desse despreparo emocional, é frequente ver os times brasileiros perdendo o controle em suas partidas mais importantes.

Talvez o Atlético Mineiro de 2013 seja o melhor exemplo da instabilidade emocional dos times brasileiros. O Galo complicou demais seus confrontos a partir das quartas de final, e sempre contra times claramente inferiores (apesar de o Newell’s Old Boys, adversário na semifinal, ser um time de qualidade). Claro, a ansiedade diante de um possível título inédito é natural, mas o alvinegro não precisava se expor tanto fora de casa, apostar tanto no estádio Independência, nem colocar em si o peso de decidir tudo em uma só tacada. Funcionou, para delírio dos atleticanos. Uma vez escrita, a história não muda. Entretanto, no Mundial Interclubes, a afobação do Atlético voltou a vir à tona contra o Raja Casablanca, limitada equipe marroquina. Os africanos abriram o placar e o Galo se lançou com tudo ao ataque. Os brasileiros chegaram ao empate, mas, como se o empate fosse favorável ao adversário, seguiu com uma estratégia por demais desesperada e se expôs demais, de forma inexplicável, e, vergonhosamente, perdeu a partida e a vaga na decisão contra o Bayern de Munique.

Galo na Libertadores e no Mundial: não se pode confiar só em milagres (Reuters/AFP Photo).

Galo na Libertadores e no Mundial: não se pode confiar só em milagres (Reuters/AFP Photo).

Como outros exemplos de times que fracassaram pela deficiência em administrar seus grandes jogos com inteligência, podem-se citar o Cruzeiro de 2009 e 2011, o Fluminense em 2011, o Flamengo de 2008 e o Corinthians de 2006. A própria Seleção Brasileira, por vezes, peca nesse quesito, como em 1982 e em 2010.

Corinthians: torcida fez feio em 2006. Flamengo: vexame em 2008. Cruzeiro: amarelada em 2009 (Uol/Agência Estado).

Corinthians: torcida fez feio em 2006. Flamengo: vexame em 2008. Cruzeiro: amarelada em 2009 (Uol/Agência Estado).

A filosofia do drama não é a melhor na hora de montar os planos para decisões. O título sofrido é bonito, mas igualmente o é a conquista da superioridade, da segurança, como as Libertadores do São Paulo, em 1992 e 2005, e do Corinthians, em 2012, e a Copa do Mundo de 1970.

São Paulo em 1992 e 2005: superioridade e pouco sufoco

Enquanto os brasileiros se afobam em suas conquistas, o São Paulo em 1992 e 2005 ganhou a América com superioridade e pouco sufoco (Uol).

O futebol brasileiro está sempre desfalcado de um jogador: o Psicológico. Esse craque abstrato faz falta dentro de campo. É hora de contratá-lo. A ansiedade atrapalha o raciocínio e o futebol é um jogo pensado. Nem sempre dá para ganhar de forma inapelável e não é fácil ser campeão. A conquista que quase escapa é emocionante, claro, mas não se pode entrar em campo esperando angústia. Não tem que ser tão dramático.

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Geólogo. Fã de futebol, Fórmula 1, paleontologia, astronomia e pirataria desde criança. Belo horizontino, cruzeirense e líbero, armador ou atacante canhoto. Tem Zidane e Velociraptor como grandes ídolos e modelos de vida. Gosta de batata frita, do espaço e de combater o crime à noite sob o disfarce de Escorpião Negro.