Sem cair em contrassenso

Bom Senso F.C.: hora de manter as bandeiras bem hasteadas - e agir com coerência e isonomia. (Foto: Reprodução)

Bom Senso F.C.: hora de manter as bandeiras bem hasteadas – e agir com coerência e isonomia. (Foto: Reprodução)

Na última semana, o Brasil acompanhou a luta dos jogadores do Náutico para receber vencimentos atrasados. Segundo o volante Martinez, representante dos atletas, a diretoria alvirrubra estaria devendo valores referentes aos direitos de imagens de uma parte do grupo – o que teria sido a gota d’água para que eles tomassem a sala de coletivas do CT Wilson Campos para debulhar todas as suas insatisfações.

O assunto tomou de assalto os noticiários. Na mesma noite, dirigentes alvirrubros davam entrevistas aos principais programas esportivos do país: como se não bastasse o desempenho tétrico do time no Brasileirão, a casamata timbu ardia em chamas, ao vivo, para todo o Brasil. E tentava contornar a ameaça de greve feita pelos jogadores, que cruzariam os braços e não se colocariam à disposição do técnico Marcelo Martelotte caso a dívida não fosse paga até o dia seguinte.

Poucas horas depois, como um verdadeiro anjo da guarda, o Bom Senso F.C. divulgou em suas redes sociais que estava ao lado dos jogadores alvirrubros: os líderes do movimento exigiam, em nome da classe, que os atrasos fossem quitados. E foram além – caso a diretoria do Náutico não atendesse às demandas, o campeonato poderia ser paralisado.

No dia seguinte, na reunião do presidente Paulo Wanderley com o diretor Alexandre Homem de Melo, o treinador Martelotte e as principais lideranças do elenco, lá estava o advogado Fábio Menezes Sá Filho, representante do Bom Senso, que saiu da reunião satisfeito com o acordo costurado. Afinal, diante das declarações do mandatário alvirrubro, que acusou Martinez de estar mentindo e chegou até a fazer insinuações de que poderia promover retaliações aos rebeldes, a promessa de pagamento foi vista como uma grande vitória do movimento, que usou todo o seu espaço na mídia para fazer uma pressão que se mostrou crucial para o desfecho pacífico do caso.

Jogadores do Náutico desabafam - e contam com a ajuda decisiva do "anjo da guarda".(Foto: Thiago Augustto)

Jogadores do Náutico desabafam – e contam com a ajuda decisiva do “anjo da guarda”. (Foto:  Thiago Augustto)

Sem dúvida, foi um marco na história recente do futebol nacional: pela primeira vez em muitos anos, jogadores se uniram para defender os interesses de sua categoria. E num episódio simbólico, venceram a intolerância e o discurso autoritário de Paulo Wanderley com um diálogo firme, preso às bandeiras iniciais do movimento: a valorização do profissional e o respeito ao chamado “fair play financeiro”.

A louvável atitude do Bom Senso, no entanto, deixou algumas reticências entre os diretores alvirrubros. Foi este o tom da declaração de Lúcio Surubim, gerente de futebol, que levantou um ponto até agora sem resposta: por que o movimento se organizou tão rapidamente para proteger os jogadores do Náutico, se manteve um posicionamento tão frio diante de atrasos de pagamentos em clubes maiores?

Senão, vejamos: ao longo de todo o ano, equipes como Vasco da Gama, Botafogo e Fluminense conviveram com grandes dificuldades para arcar com seus compromissos financeiros. O Bacalhau, por exemplo, depositou os salários referentes ao mês de agosto apenas no início de outubro, além de ter atrasado a remuneração dos atletas em outras ocasiões anteriores. Em General Severiano, o holandês Seedorf foi um dos responsáveis pelo fim da concentração antes dos jogos – justamente por razões econômicas. O Flu, por sua vez, mantém uma política única no país: enquanto as grandes estrelas recebem, rigorosamente em dia, seus astronômicos vencimentos pagos pela Unimed, os demais jogadores e funcionários do clube têm passado por grandes apertos (para se ter uma ideia, a premiação da conquista do Brasileirão de 2012 ainda não foi repartida).

Com um apelo cada vez maior, Bom Senso tem chance histórica de conseguir mudanças. Vai conseguir aproveitá-la? (Foto: FolhaPress)

Com um apelo cada vez maior, Bom Senso tem chance histórica de conseguir mudanças. Vai conseguir aproveitá-la? (Foto: FolhaPress)

Até mesmo o Atlético Mineiro, campeão da América, ilustrou hoje as manchetes dos principais jornais com um apelo direto à presidenta Dilma, para que os 25 milhões de euros da venda de Bernard sejam desbloqueados pela Fazenda Nacional: só assim o clube poderá cumprir com suas responsabilidades – na cidade do Galo, os salários estavam atrasados havia um mês e meio, e foi necessário recorrer a parceiros para pagá-los. Em todas essas circunstâncias, assim como no caso do Náutico, esteve caracterizado o descaso para com os profissionais do futebol. Mas só na crise alvirrubra houve tanta comoção por parte da categoria, enquanto em todas as outras o que se viu foi um estrondoso silêncio. Ecoam, então, as palavras de Lúcio Surubim: e para proteger jogadores vascaínos, botafoguenses e tricolores, onde estava o Bom Senso?

Em favor de Alex, Paulo André, Dida e todos os outros líderes do movimento, é preciso reconhecer que em nenhum dos clubes cariocas a situação chegou próxima de uma paralisação – a atitude mais radical tomada pelos atletas foi a abolição da concentração antes das partidas. É certo também que o Bom Senso existe há muito pouco tempo enquanto entidade institucional, e quando estouraram algumas dessas crises, ainda não tinha a força que tem hoje. Mas vamos combinar: é muito mais fácil bater na diretoria de um clube pequeno, nordestino e dono da pior campanha da história dos pontos corridos do que enfrentar dirigentes de instituições grandes, ricas e poderosas.

Que fique claro: esta não é uma crítica com o intuito de diminuir a importância dos atos que o Bom Senso F.C. vem promovendo – é quase uma súplica de alguém que torce fervorosamente para que as propostas do movimento sejam acolhidas pelas instituições que hoje comandam o esporte no país; e para que o grupo não caia em contradições quando precisar se impor diante de clubes e/ou desafios maiores, o que descreditaria fortemente sua própria identidade – para a alegria da velha guarda insensata do futebol brasileiro.

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P.S.: Eis que uma nova crise salarial dominou a pauta dos principais noticiários: ontem, jogadores Portuguesa não treinaram em função da falta de pagamento. E numa postura muito parecida com a que foi adotada pelos atletas do Náutico, ameaçaram continuar sem treinar caso os salários não sejam pagos até a tarde de hoje.

Ainda não se tem notícia de uma proposta de acordo por parte da diretoria da Lusa, mas o fato é que o Bom Senso F.C. mais uma vez se apresentou para dar apoio às reivindicações. O grupo já se manifestou em favor da paralisação,  numa atitude coerente com a bem sucedida intervenção a favor dos jogadores alvirrubros. É isso que se espera do movimento: um posicionamento firme e isonômico, seja diante de clubes pequenos, intermediários e grandes.

Depois da Lusa, o Grêmio parece ser o próximo time a estampar as manchetes por conta de atrasos salariais – a ocasião perfeita para que o Bom Senso se afirme diante de um gigante do futebol brasileiro. Esta é a torcida deste escriba e, provavelmente, de todos os aficionados que querem ver mais estrutura e organização nas entidades responsáveis pelo esporte.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.