Sem identidade

  • por Victor Mendes Xavier
  • 7 Anos atrás
"Para esquecer", dizia a capa do jornal Mundo Deportivo após a queda barcelonista na Holanda perante o Ajax por 2x1 (foto: reprodução)

“Para esquecer”, dizia a capa do jornal Mundo Deportivo após a queda barcelonista na Holanda perante o Ajax por 2×1 (foto: reprodução)

No encerramento da 15ª rodada, o Barcelona foi derrotado pelo Athletic Bilbao por 1×0 no Nuevo San Mamés e perdeu a invencibilidade na Liga Espanhola. O tropeço é o segundo consecutivo da equipe de Gerardo Martino na temporada. Na terça-feira, um pobre Barcelona foi engolido pelo Ajax na Liga dos Campeões da Uefa e saiu de Amsterdam com a derrota por 2×1. O revés em âmbito nacional abastece os rivais de Madrid de confiança: enquanto o Atlético de Madrid assumiu a co-liderança da competição com os mesmos 40 pontos do Barcelona, a diferença entre os blaugranas e o Real Madrid é, no momento, de apenas três pontos.

Por mais que Tata Martino se esquive do assunto, é quase natural no ambiente catalão o debate acerca do suposto novo estilo de jogo. Ainda mais em um clube onde exista uma filosofia pré-determinada há tantos anos, a busca por alteração no modo de jogar sempre irá gerar polêmica. O problema é que o Barcelona 2013-2014 ainda não tem uma identidade própria. O treinador argentino convive com o dilema de verticalizar mais o jogo, a fim de sair da previsibilidade, ou manter o famoso tiki-taka, concentrando mais as ações pelo centro do campo. No entanto, o mesmo Barcelona que “abdicou” da bola contra Rayo Vallecano e Bétis sofreu com a marcação de Ajax e Athletic Bilbao, em jogos nos quais teve a posse de bola maior que os adversários.

Os números jogam contra Martino e o “novo” estilo. Especialmente nos dois últimos jogos, o Barcelona mostrou uma faceta pragmática, nada habitual se comparada à imagem de um time que encantou o mundo nos últimos anos. Nas derrotas na Holanda e no País Basco, o Barcelona deu somente quatro chutes a gol em 180 minutos. Um problema muito grave, ainda mais considerando que foi levado a campo um onze inicial que pode aparecer, por exemplo, em um jogo de mata-mata de Liga dos Campeões. Estilo mais direto sem poder de fogo no sistema ofensivo? Contraditório.

“Esse não é o nosso Barça”, sentencia o Diário Sport em sua capa desta segunda-feira. E não é. Sem Lionel Messi, a equipe esbarra em outro debate: a figura do centroavante de origem em seu elenco. Atualmente, não há nenhum. Para tentar encobrir essa lacuna, Martino tem convocado com frequência o camaronês Jean Marie Dongou, homem gol do Barcelona B. Entretanto, não o coloca para jogar. Neymar, contratado para dividir as atenções ou, ao menos, ser o protagonista na ausência de Messi, não possui, por enquanto, o poder de decisão que o argentino tem. O que explica, em partes, a carência ofensiva mostrada contra Ajax e Bilbao.

Em agosto, Tata havia dito que Sergi Roberto e Cesc Fàbregas seriam seus trunfos na tentativa de um jogo mais direto e menos cadenciado. De fato, o estilo dos dois jogadores encaixa com a proposta de jogo que o treinador tenta impor. Porém, ele ainda não cumpriu com as palavras. Primeiro porque ainda não sabe aonde escalar Fàbregas. Cesc, que brilhou nas partidas onde atuou em sua posição de origem, não consegue atuar com mais saliência no centro do ataque, como falso nove. Segundo porque Sergi Roberto raramente é colocado para jogo. Contra o Granada, na 14ª rodada, o jovem entrou bem e criou ocasiões de gols a todo instante.

Além das discussões táticas, Martino começa a ser questionado na hora da escalação. Por que não dar mais oportunidades a Bartra, que, na atual temporada, foi mais regular que Piqué quando utilizado? Por que não recuar Fàbregas para a posição de segundo volante e colocar Xavi no banco (assunto discutido no site há dois meses)? O maestro barcelonista, que dava mostras de crescimento, está longe daquele meio-campista que foi considerado o melhor da posição entre 2008-2012.

Colocar toda a culpa somente em Tata Martino (como vem tentando a imprensa catalã) é injusto. Ainda mais porque o argentino não conta com seu principal jogador e seus goleiros e laterais titulares. Pinto, por ora, não comprometeu. Mas a falta que Daniel Alves e Alba fazem é notória. Adriano não tem a capacidade de infiltração do espanhol pela esquerda e Montoya e Puyol não possuem metade da qualidade ofensiva do baiano. Peças individuais importantes, como Xavi e Iniesta, estão bastante irregulares e não contribuem positivamente.

Ainda há muito tempo para o crescimento na temporada. A equipe foi de mais a menos nesses primeiros meses da temporada. Uma queda anunciada, pela profundidade do elenco e as poucas peças de reposições. Tata Martino já mostrou em Barcelona ser um bom treinador. Mas ele precisa buscar soluções e fixá-las. Caso contrário, o Barcelona continuará na mesmice que foi com Tito Vilanova.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.