Descaminhos da Bola: Bernardo Lage

O ano é 2007. O Brasil é Bicampeão Sul-Americano sub-15. Aos olhos despercebidos de um curioso torcedor Tupiniquim, chamam a atenção a velocidade e a habilidade de dois meias. O camisa 8 – um tal Phillipe Coutinho, da base do Vasco – e um outro menino mirrado. Wellington, né? Não, Wellington Nem.

De fato, o talento e a faceta lúdica do time brasileiro eram carregados pelos pés esquerdo de Nem e direito de Coutinho. Apesar disso, um olhar mais atento perceberia, correndo pela faixa destra do campo, um menino cabeludo com facilidade para driblar, bom passe e cruzamento: Bernardo.

Então lateral direito na base do Atlético Mineiro, o garoto ascendia como uma das grandes esperanças para o futuro alvinegro e canarinho. Até mesmo o pentacampeão Cafu apostara nele em entrevista concedida ao programa Arena SporTV.

O ano de 2014 chegou e, com ele, novas apostas e projetos. Sete anos se foram desde aquele, já longínquo, torneio vencido pelo Brasil. Coutinho transformou-se em realidade e é a cada dia um jogador melhor. A camisa 10 do tradicional Liverpool sabatina isso. Wellington Nem idem – apesar de ter passado por uma “provação” no Figueirense. Como eles, também o volante Fernando, hoje no Shakhtar Donetsk, foi bem sucedido e tem chances reais de ir à Copa do Mundo deste ano. Mas e o lateral direito Bernardo?

Depois de um rápido início no América Mineiro, em 2003, aos 11 anos, Bernardo seguiu para a base do Galo. E lá permaneceu até 2010, quando rumou para o Coritiba.

Vários podem ter sido os motivos para sua saída (dificuldades para subir para os profissionais, questões contratuais, falsas promessas, o mau momento do Atlético, dentre outros). O fato é que o torcedor alvinegro que o conhecia e sabia de seu potencial lamentou sua saída.

Reprodução: zerozero.pt - Bernardo, à direita, em sua apresentação ao Estoril.

Reprodução: zerozero.pt – Bernardo, à direita, em sua apresentação ao Estoril.

Sem espaço no Coxa, mudou-se para Portugal. Mas os ares lusos não mudaram o panorama da carreira do brasileiro. Com duas experiências mal sucedidas, uma no Estoril e a outra no Trofense, além de uma lesão na fíbula, voltou para casa, literalmente.

No ano recém-terminado, Bernardo tentou a sorte onde ela lhe brilhara no início de sua trajetória. De volta ao América, uma nova esperança preencheu-lhe o íntimo. Contudo, novas lesões e sucessivas trocas de comando no coelho impediram que o garoto tivesse sequência.

Chegamos, então, ao porto atual de sua carreira, o Betim FC. E lá, por enquanto, não encontrou melhor fortuna.

A dificuldade em explicar o insucesso na carreira de Bernardo é flagrante. A primeira etapa na carreira de todo jogador ele cumpriu com êxito, formando-se na base de um grande clube do país, anotando ainda algumas passagens pela base da Seleção Brasileira.

O que levou sua carreira a um rápido e forte declínio não é possível saber sem conhecer todas as nuances de sua vida, seu lado pessoal e profissional.

Esse é o retrato de grande parte das trajetórias de jogadores jovens no Brasil e, apesar de todos os descaminhos e dificuldades por que passou – e passa – a carreira de Bernardo, o lateral ainda tem 21 anos e sua trilha ainda tem tempo para dar uma nova guinada.

Quem sabe o ano de 2014 não confirme as impressões e previsões feitas há sete anos? Se tiver a continuidade que nunca conseguiu e se afastar das lesões, é possível. A sorte está lançada.

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho) e Jornalismo Esportivo (MARCA), 26 anos. Amante do futebol inglês, mas que aprecia o esférico rolado qualquer terra. Tem no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; e não põe em dúvida quem foi o melhor jogador que viu jogar: o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Também n'O Futebólogo e na Revista Relvado.