Geninho e o pecado da “gratidão”

Novembro de 2011. O clima no Sport era da mais absoluta desesperança: o time acabara de perder um clássico para o Náutico, nos Aflitos, por 2×0. Perdera também seu treinador Paulo César Gusmão, que não conseguira fazer a equipe atuar de forma consistente. Faltando cinco rodadas para o final da Série B, poucos ainda acreditavam na possibilidade do acesso. Aparentemente, nem mesmo o presidente Gustavo Dubeux – após a derrota para o rival, ele optou por não trazer um treinador de nome. Sobrou, então, para o auxiliar Mazola Júnior, que já havia dirigido o time em onze rodadas na competição.

O que ninguém esperava era que os resultados do “interino” fossem ser tão bons. Até o mais otimista dos rubro-negros se surpreendeu: foram quatro vitórias e um empate que, somados a alguns resultados paralelos favoráveis, lançaram o Sport no G-4 ao apagar das luzes, garantindo um até então improvável acesso. A euforia foi enorme. E diante de uma campanha tão milagrosa, a diretoria não teve outra escolha senão selar a permanência de Mazola para a temporada 2012.

Mas a aventura do treinador falastrão à frente do Sport não durou muito. No Campeonato Pernambucano, o time chegou à final, mas nunca chegou a apresentar um futebol convincente. E após a derrota para o Santa Cruz, chegou ao fim a história de Mazola no Rubro-negro. Um final que, ao contrário do acesso do ano anterior, não surpreendeu ninguém – seus arroubos e tentativas de polemizar não inspiravam confiança alguma na torcida. Assim, às portas da Série A daquele ano, o Leão reiniciava todo o seu planejamento para o restante da temporada, já sob as ordens do novo comandante, Vágner Mancini.

Janeiro de 2014. Após mais um acesso à Série A do Brasileirão, desta vez sob o comando do experiente Geninho, o Leão inicia o ano sonhando alto. O treinador, de contrato renovado, recebe a confiança da nova diretoria para planejar a temporada. Nomes impactantes são especulados: Walter e Fábio Rochemback seriam as referências de um time que brigaria “por todos os títulos do ano”, segundo o recém-empossado presidente João Humberto Martorelli. A realidade se deu de maneira um pouco diferente: apenas a defesa, setor mais vulnerável do elenco na última campanha, foi reforçada, principalmente com a volta do ídolo Durval. Mas do meio para a frente, a melhor notícia foi a renovação do atacante Neto Baiano. Muito pouco para o tamanho do alarde que foi feito, e principalmente, para o tamanho da expectativa criada. O cenário da crise já estava montado.

O primeiro desafio seria a Copa do Nordeste. E veio o primeiro jogo: um empate fora de casa, contra o Botafogo (PB). Um resultado aceitável, levando em conta o curto período de preparação para a competição. Mas o retrocesso ­no plano tático, em relação ao ano anterior, já era visível. Veio o segundo jogo, um clássico, em plena Ilha do Retiro, e o Sport foi derrotado. Como não acontecia há doze anos em sua casa, o clube perdeu para o Náutico, por 1×0, e ficou em situação ainda mais delicada na tabela. O desempenho da equipe em campo tampouco foi satisfatório. A falta de evolução começava a preocupar. Na terceira partida do ano, as arquibancadas vazias refletiam o desânimo da torcida. O Leão recebeu o Guarany de Sobral e não conseguiu sair do 0x0. Um resultado que acendeu o alerta máximo, já que a classificação à segunda fase começava a parecer complicadíssima.

Jovem e talentoso, Éverton Felipe tem sido a única réstia de criatividade no time rubro-negro. (Foto: Divulgação/Sport).

Jovem e talentoso, Éverton Felipe tem sido a única réstia de criatividade no time rubro-negro. (Foto: Divulgação/Sport).

O Sport chegou, então, ao seu quarto compromisso – este, de vida ou morte. A “Batalha do Junco” mostrou todas as fragilidades do time: a falta de alternativas, personificada na escolha pelo jovem de Éverton Felipe para um jogo de tamanha importância; a falta de padrão tático, escancarada na enorme dificuldade em trocar passes e trabalhar a bola sem rifá-la; e a absoluta falta de planejamento de uma diretoria que deixou passar um tempo precioso enquanto delirava com negociações bombásticas – e que quase como numa confissão de culpa, demitiu o técnico no dia seguinte à derrota por 1×0. Isso mesmo: o treinador respaldado e confiante, que tinha renovado contrato havia pouco menos de um mês.

É justo dizer que Geninho nunca foi exatamente uma unanimidade entre os torcedores. Muitos deles, inclusive, não eram favoráveis à renovação com o comandante do acesso. A diretoria, no entanto, optou por ignorar o péssimo futebol que o time vinha mostrando desde a reta final da Série B, e por valorizar um acesso conseguido a duras penas – convenhamos, nada de extraordinário para aquele que era o segundo maior orçamento da competição. É claro que ainda há tempo para recomeçar: resultados paralelos deram ao Rubro-negro uma sobrevida no Nordestão, e o clube tem outras três competições no ano. O Leão ainda pode (e deve) almejar um 2014 feliz – a depender de quem os cartolas escolherem para o comando técnico e dos reforços que serão contratados. Mas o que ficou provado é que, como em 2012, a grande diretriz do planejamento rubro-negro foi aquele velho misto de comodismo e gratidão que a torcida já se acostumou a ver na Ilha do Retiro nos últimos anos.

Comentários

Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.