A nova Inglaterra

Ross+Barkley+England+v+Moldova+FIFA+2014+World+j9H92cgfL1_l-horz-vert

Não. Este texto não trata da região norte-americana, cuja cidade mais importante é Boston. Apesar disso, não deixa de ter um viés geográfico. Ocorre que, na Inglaterra, um estranho e diferente fenômeno futebolístico está acontecendo e não passa despercebido. As gerações mais recentes dos Three Lions (de 1988 até 1994), conseguiram renovar o que a seleção inglesa já tinha de bom e também trouxeram consigo um adicional que faltava. O que se observa hoje é a seleção do país criador do futebol atuando de uma maneira muito diversa da forma consagrada por sua história.

Muitos se perguntam como a seleção inglesa não conseguiu nada em termos de resultados nas Copas do Mundo de 2006 e 2010, ocasiões em que contou com grande número de jogadores excelentes vivendo boa fase em suas carreiras. Frank Lampard, Steven Gerrard e David Beckham consagraram o termo box-to-box, usado para descrever jogadores que percorrem toda a faixa central do campo, iniciando e finalizando as jogadas.

England's Gerrard, Beckham and Lampard attend a team training session in London Colney

Foto: Dailymail – Beckham, Gerrard e Lampard foram as estrelas da última geração inglesa.

Uma das respostas mais plausíveis ao questionamento supra é a falta de velocidade da equipe. Apesar de muito técnica, a Inglaterra não apresentava uma movimentação que lhe possibilitasse envolver seus adversários. Em 2006, com Lampard, Gerrard, Beckham e Joe Cole a equipe tinha muito talento, mas sofreu com a falta de circulação da bola. Muito fixos nas suas posições, os jogadores tornaram-se presas fáceis para os adversários. As opções utilizáveis para corrigir esse problema foram Theo Walcott, então com 17 anos, e Aaron Lennon, de 19, ainda muito jovens para ocuparem a titularidade.

Já em 2010, a base foi mantida e as possibilidades de velocidade foram Lennon e Shaun Wright-Phillips, atletas rápidos, mas tecnicamente limitados. Nos últimos anos outros jogadores como Ashley Young também tiveram chances, mas não corresponderam.

E é aí que a nova safra entra. Se Lampard e Gerrard estão envelhecidos, Jack Wilshere, de 22 anos, Tom Cleverley, de 24, Ross Barkley, de 20,e Jordan Henderson, de 23, apareceram e podem, tranquilamente, ocupar as vagas dos experientes. Wilshere, joia do Arsenal, é quem mais ganhou espaço nos tempos recentes. Originalmente volante, tem demonstrado muita facilidade para desempenhar outras funções. Não é nenhum absurdo ele envergar a camisa 10 do Arsenal, uma vez que atua bem como armador e também pelo lado direito do campo.

Foto: Football365 - Wilshere já conquistou seu lugar na seleção principal.

Foto: Football365 – Wilshere já conquistou seu lugar na seleção principal.

Já Cleverley, meio-campista do Manchester United, tem menos talento que Wilshere, o que compensa com maior poder de marcação. Um problema comum aos dois é o temperamento, uma vez que são muito “nervosinhos” e se desequilibram psicologicamente com facilidade.

Outra aposta é Henderson, jogador que apareceu no Sunderland com muita fama, mas demorou a se firmar no Liverpool. Entretanto, desde a chegada do treinador Brendan Rodgers seu futebol desabrochou e, no esquema tático de intensa movimentação dos Reds, tornou-se peça importante na equipe. Por fim, há a opção por Ross Barkley que passou a ser aproveitado pelo Everton somente nesta temporada mas tem demonstrado uma personalidade de incomum força. Dentre os citados é quem guarda menos afeição pela marcação, o que compensa com grande movimentação, visão de jogo e finalização de qualidade – tanto com a bola parada quando com ela rolando.

Já o antigo problema de movimentação pelos flancos parece estar solucionado com o aparecimento dos velozes e habilidosos Raheen Sterling, Alex Oxlade-Chamberlain, Andros Townsend e James Ward-Prowse e também com o grande desempenho mostrado por Adam Lallana, que já tem 25 anos mas só agora mostrou um futebol que, de fato, chamasse atenção.

Foto: Reprodução - Sterling ganhou chances recentemente e pode vir à Copa do Mundo.

Foto: Reprodução – Sterling ganhou chances recentemente e pode vir à Copa do Mundo.

Sterling, que possui apenas 19 anos, parece ter amadurecido nesta temporada e tem desempenhado vários e diferentes papeis no Liverpool. Velocíssimo e habilidoso, o jamaicano de nascimento melhorou seu desempenho físico e também sua aplicação tática. Hoje atua por qualquer dos flancos do campo e, eventualmente, tem sido usado até mesmo na lateral direita.

Já Oxlade-Chamberlain e Andros Townsend apresentam características um pouco diferentes. Tal como Sterling, são velozes mas são também fortes e atarracados. Chamberlain, pode atuar pelos dois lados e também no meio-campo. Desde que voltou de contusão tem estado em grande forma, sendo decisivo em alguns jogos dos Gunners. Já Townsend começou a temporada totalmente deixado de lado, recebeu chances, foi bem, chegou à seleção e, neste momento, voltou a viver dias instáveis. Apesar de ser canhoto, atua, majoritariamente, pela direita e tem como jogada forte a entrada pelo meio – consagrada pelo holandês Arjen Robben – para finalizar com sua melhor perna.

Outros jogadores menos agudos, mas também muito móveis são Lallana e Ward-Prowse, ambos do surpreendente Southampton. Com facilidade para atuar em ambos os flancos, destacam-se pela apurada técnica. Enquanto o primeiro tem se revelado um competente assistente, o segundo demonstra muita precisão na cobrança das bolas paradas.

Além desses, não se pode deixar de lembrar dos atacantes, que também atuam pelos lados do campo, embora gostem de estar mais próximos do gol adversário, Jay Rodríguez, Danny Welbeck e Daniel Sturridge. Rodríguez, que também defende as cores do Southampton, embora não seja um centroavante de ofício, tem mostrado grande intimidade com o gol. Na temporada já anotou 12 tentos. Já Welbeck, muitas vezes lembrado por correr demais com a bola, teve a responsabilidade de substituir o holandês Robin Van Persie quando este esteve machucado e foi bem. Seu principal trunfo é a grande movimentação.

Foto: UEFA.com - Sturridge e Welbeck são opções para o centro do ataque inglês.

Foto: UEFA.com – Sturridge e Welbeck são opções para o centro do ataque inglês.

Por fim, é necessário aclamar o nome de Sturridge. Criado no Manchester City e renegado no Chelsea, encontrou-se no Liverpool, onde – com o uruguaio Luis Suárez – faz parte da dupla de ataque mais eficiente de Premier League. Na temporada já marcou 19 gols em 23 jogos.

Se a Inglaterra vai alcançar algum sucesso com esses jovens não é possível prever, mas, ao menos individualmente, eles tem se destacado muito. Do meio para frente há um grande leque de opções e ficou claro que com treinamento a equipe pode se encontrar. Em relação às últimas seleções do país, o que era bom manteve sua qualidade e está rejuvenescido. Lampard e Gerrard ainda são peças importantes, mas uma eventual ausência deles já é suprível. O problema da falta de movimentação e do “engessamento” dos flancos só não se resolverá se o treinador não quiser, tendo em conta a fartura de opções. E, além disso, Wayne Rooney tem agora jogadores com os quais pode dialogar e apresentar seu melhor futebol.

Esta pode até não ser a Copa do Mundo destes jovens talentos, mas temos que manter os olhos bem abertos, pois o pragmatismo inglês está se esvaindo.

Atualização (03/07/2015)

Após o fracasso na Copa do Mundo de 2014, com a última colocação no Grupo D (atrás de Costa Rica, Uruguai e Itália), a Inglaterra perdeu duas de suas maiores referências, que decidiram se aposentar da Seleção: Steven Gerrard e Frank Lampard. Assim, abriu-se mais espaço ainda para a convocação de novos nomes. Dessa forma, jogadores como Ryan Mason, Jack Colback e Jonjo Shelvey ganharam espaço no meio-campo. Todavia, o mais interessante foi a ascensão do bom meio-campista Fabian Delph, do Aston Villa, que não só ganhou oportunidades como vem sendo titular do English Team.

Foto: The FA I Delph vem se destacando no meio inglês

Foto: The FA I Delph vem se destacando no meio inglês

Após a Copa, os Three Lions entraram em campo 10 vezes e estão invictos, com oito vitórias e dois empates e, mais que bons resultados, o técnico Roy Hodgson tem conseguido implantar um novo jeito de jogar em sua equipe. Outrora criticada por seu engessamento e pragmatismo, sobretudo com a entrada de Delph, o time ganhou fluidez e movimentação. A evolução ficou ainda mais evidente quando o treinador inglês tentou, sem sucesso, implantar uma mentalidade mais defensiva, com a entrada de Phil Jones no meio-campo no amistoso contra a Itália.

https://www.youtube.com/watch?v=BfHSwgHJimk

Embora ainda esteja fazendo testes e remontando sua equipe, Hodgson já tem conseguido definir um padrão tático com o 4-3-3. No gol, Hart segue sendo soberano; na lateral-direita, testes vêm sendo efetuados com dois estilos diferentes de jogadores, um mais defensivo (com as presenças de Chambers, Stones e Jones) e outro ofensivo (com Clyne); na zaga, Gary Cahill vem sendo titular absoluto e tendo diversos companheiros (Smalling, Jones e Jagielka); de forma semelhante à lateral-direita, à esquerda tem alternado atletas de diferentes características (Kieran Gibbs, Leighton Baines, Luke Shaw e Ryan Bertrand); o tridente de meio-campo tem ido à cancha, habitualmente, com Delph, Wilshereque vem fazendo jogos excelentes – e Henderson, mas também já contou com James Milner, Michael Carrick e Adam Lallana; no ataque, Sterling vem se consolidando ao lado de Rooney, vendo vários jogadores brigando pelo terceiro posto – já passaram por lá Townsend, Welbeck, Lallana, Walcott e Oxlade-Chamberlain.

1286405_England

Além do time titular, Roy Hodgson tem provido muitos testes, de modo que jogadores que tem ganhado destaque no cenário inglês vêm ganhando convocações, como são os casos de Saido Berahino, Harry Kane, Stewart Downing (que voltou a ser chamado), Danny Rose, Jamie Vardy, Charlie Austin e o goleiro Tom Heaton.

Para além da tentativa de colocar Jones no meio-campo, Hodgson chegou a testar, em algumas oportunidades, o tradicional 4-4-2, mas, sem os melhores resultados, vem condicionando sua equipe em um 4-3-3. Outro ponto importante é a presença de Wayne Rooney como centroavante, o que não só é útil em função de sua grande técnica, como também para a movimentação do time, uma vez que o atual capitão da Seleção movimenta-se por todo o setor de ataque e desce, até mesmo, ao meio-campo para receber bolas.

Foto: The FA I Clyne ganhou chances nos últimos jogos

Foto: The FA I Clyne ganhou chances nos últimos jogos

English Team ainda está em período de testes, mas já toma cara e agrada. Seus resultados e bom futebol dão confiança no trabalho de Roy Hodgson e mais uma vez nos vemos diante de uma equipe que ao menos no papel tem muito potencial. Indubitavelmente, tem valido a pena acompanhar a Seleção Inglesa.

Doentes, confiram a última convocação inglesa:

Goleiros: Joe Hart (Manchester City), Rob Green (Queens Park Rangers) e Tom Heaton (Burnley);

Defensores: Gary Cahill (Chelsea), Phil Jagielka (Everton), Phil Jones (Manchester United), Chris Smalling (Manchester United), Nathaniel Clyne (Liverpool), Ryan Bertrand (Southampton) e Kieran Gibbs (Arsenal);

Meiocampistas: Ryan Mason (Tottenham Hotspur), Fabian Delph (Aston Villa), Jordan Henderson (Liverpool), Jack Wilshere (Arsenal), Ross Barkley (Everton), James Milner (Manchester City), Tom Cleverley (Everton), Adam Lallana (Liverpool) e Andros Townsend (Tottenham Hotspur);

Atacantes: Wayne Rooney (Manchester United), Charlie Austin (Queens Park Rangers), Jamie Vardy (Leicester City), Theo Walcott (Arsenal) e Raheem Sterling (Liverpool);

Comentários

Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho) e Jornalismo Esportivo (MARCA), 26 anos. Amante do futebol inglês, mas que aprecia o esférico rolado qualquer terra. Tem no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; e não põe em dúvida quem foi o melhor jogador que viu jogar: o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Também n'O Futebólogo e na Revista Relvado.