As polêmicas punições a torcidas da Lega Calcio

  • por Caio Feitosa
  • 7 Anos atrás

O futebol italiano é bastante conhecido por episódios racistas envolvendo os “ultras” das mais diversas torcidas. Ultimamente, a principal vítima é o artilheiro do Milan, Mario Ballotelli. Ultimamente, o já polêmico assunto vem recebendo ainda mais atenção no país.

A Lega Calcio vem tentando combater o preconceito fechando as curvas (setor atrás do gol onde os ultras italianos assistem aos jogos) quando se escutam coros preconceituosos. Além disso, vem ampliando o leque de proibições do que se pode gritar no estádio, como quando passou a punir o “preconceito regional”. Este assunto gerou discussão após o confronto Roma x Napoli pela semifinal da Coppa Italia – mas antes de adentrar na polêmica em si, é necessário entender brevemente o contexto.

Na Itália, muito mais que o preconceito racial (que é visto apenas partindo de uma minoria, sendo o caso Balotelli um exemplo) existe o preconceito regional, principalmente contra o povo do sul (região mais pobre do país). A cidade de Nápoles, a maior do sul da Itália e terceira maior do país (atrás apenas de Milão e Roma), é a mais insultada pelos italianos do centro-norte. Esta discriminação ocorre há muitos anos dentro do futebol, o que motivou a Lega Calcio a punir as torcidas que insultassem a cidade e o povo napolitano nos estádios.

Faixa da torcida do Bologna contra os napoletanos: "Será um prazer quando o Vesúvio fizer o seu 'dever'"

Foto: Reprodução – Faixa da torcida do Bologna contra os napolitanos: “Será um prazer quando o Vesúvio fizer o seu dever”.

Na semifinal da Coppa, a torcida giallorossa, no confronto de ida no Estádio Olimpico de Roma, entoou em alto e bom som um canto que já tinha gerado punição anteriormente para a Juventus, invocando o Vesúvio para destruir a cidade de Nápoles (como na frase escrita pela torcida do Bologna). Por este motivo, a Lega Calcio tirou as curvas da Roma por dois jogos (já cumpriu uma contra a Sampdoria e cumprirá a segunda contra a Inter, no dia 1º de março).

Porém, no jogo da volta no San Paolo (Nápoles), a torcida napolitana deu o troco com uma faixa chamando os romanos de “sujos” e um coro que os chamava de “bastardos”, enfatizando o canto quando o volante De Rossi (nascido em Roma) deixou o campo após a partida. Os romanistas, então, reclamaram uma punição ao Napoli e acusaram a Lega Calcio de tentar “adestrar” as torcidas.

Foto: Reprodução - Faixa dos napolitanos: "Nós não somos romanos imundos"

Foto: Reprodução – Faixa dos napolitanos: “Nós não somos romanos imundos”

No último domingo, os torcedores da Roma voltaram a entonar o polêmico canto no jogo contra a Sampdoria e a justiça desportiva italianaaumentou a punição aos torcedores, que tiveram as “distinti” (curvas dos escanteios) também fechadas. Apenas as tribunas frontais ao campo estarão abertas contra a Inter (setores cujo bilhete mais barato custa 75 euros). Através de seu site pessoal, “Il Capitano” Totti pediu aos torcedores romanistas que não repitam mais os coros para evitar prejuízos ao clube na reta final da temporada (Roma é a segunda colocada no Calcio, 9 pontos e um jogo a menos que a líder Juventus).

Foto: Giornalettismo.com - Curva Sud da Roma protesta contra punição: "Melhor uma curva fechada que uma curva adestrada!"

Foto: Giornalettismo.com – Curva Sud da Roma protesta contra punição: “Melhor uma curva fechada que uma curva adestrada!”

Desde então, o debate fica sobre o assunto tem ocorrido de forma intensa. A reação dos napolitanos foi preconceituosa ou apenas retribuição ao coro romanista? Os cânticos nos jogos contra o Napoli se referem ao clube de futebol ou à cidade e seu povo? A federação quer “calar” e “adestrar” os torcedores? O fato é que, no fim das contas, o torcedor italiano luta para não aderir ao “futebol moderno”, com suas belas arenas e torcidas elitizadas, comportadas (e caladas).

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Fanático pelo Calcio e pelo futebol nordestino, recifense, torcedor do Clube Náutico Capibaribe, ex-narrador esportivo de (projeto de) web-rádio e estudante de Engenharia Química.