E lá vamos nós…

  • por Victor Mendes Xavier
  • 7 Anos atrás

Os fãs mais fanáticos de Pica-Pau certamente associaram o título do texto a um famoso bordão da animação. Pois se fosse o Barcelona de Tata Martino um episódio de desenho animado, certamente seria aquele da bruxa que tenta enganar o personagem principal da obra de Walter Lantz e acaba trapaceada de volta. Em um minuto, a velha senhora, que se recusou a pagar 50 centavos para ter sua vassoura consertada, diz “E lá vamos nós” pelo menos dez vezes.

A sessão nostalgia para por aqui, mas o atual Barcelona continua em pauta. Antes, se quiser relembrar o episódio, é só clicar aqui. A frase em questão certamente embala a temporada barcelonista, que começa a ser marcada pela irregularidade técnica. Quando a equipe parece que vai, não vai. Um tropeço basta para as discussões começarem. Desde a virada do ano, o jogo azulgrená parece não fluir com tanta naturalidade em relação à primeira parte da temporada. Especialmente após o empate contra o Levante, os erros do passado voltaram a ficar expostos.

É chover no molhado falar do sistema defensivo, mas os erros individuais têm sido cometidos em demasia. A retaguarda chegou a um nível de vulnerabilidade extrapolado, sofrendo em praticamente 90% das jogadas aéreas e dos contra-ataques dos adversários. Até por isso, o papel de Busquets tem sido cada vez mais importante.  Quando ele está em um bom dia, vemos melhorar o comportamento da defesa. Caso contrário, o Barcelona desaba. Contra o Valencia, Tata Martino viu o pior Busquets da temporada e seu time perdeu a invencibilidade em casa.

No começo do trabalho, Martino tentou mudar o encaixe da marcação para diminuir os erros defensivos. Nos escanteios contra, foi possível notar uma marcação mais individual ao invés da marcação por zona costumeira do futebol europeu. O treinador argentino chegou também a acenar com a possibilidade de utilizar mais vezes o 4-3-3 com o doble-pivote formado por Song e Busquets, para começar a pressão no campo de ataque e fazer o meio-campo marcar mais. Mas, depois de tantos testes, a solução não apareceu e as dúvidas aumentaram.

O fato de jogar tão ofensivamente faz com que o Barcelona seja competitivo e favorito as taças.  O problema é o que o time continua correndo muitos riscos simplesmente porque não possui defensores confiáveis o suficiente para jogar com a linha de defesa tão alta. Com a recomposição cada vez mais lenta e Alba e Daniel Alves desequilibrando o esquema, é raro não ver a meta de Víctor Valdés vazada. Mas se engana quem pensa que só o sistema defensivo tem problemas.

Xavi and Iniesta

A obsessão em produzir jogadas de ataques pelo centro destruíram a verticalidade do time de Josep Guardiola. Com Martino, no primeiro turno, os ponteiros voltaram a ter atenção especial, evidenciado pela boa temporada de Alexis Sánchez, Pedro e Neymar. Porém, automaticamente, o Barcelona voltou a jogar mais horizontalmente nos últimos jogos. Para isso funcionar, o meio-campo precisa produzir mais do que o costume. Não é o que vem acontecendo.

A cada jogo, Xavi deixa notório a diminuição do seu nível. Não que ele, de uma hora para outro, tenha se transformado num jogador descartável. Mas, para o andamento do esquema e da adaptação à modernidade, seu futebol já não é mais essencial como há duas temporadas, quando ele era o regente do time de Guardiola. Não há problema em querer um jogo mais central e menos diagonal. Mas se o artífice da proposta não está bem técnica e fisicamente, é melhor apostar no alargamento do jogo pelos flancos. Ainda mais quando o adversário congestiona o meio-campo – especialmente quando o adversário congestiona o meio-campo.

A vitória até certo ponto enganadora contra o Sevilla (não pelo Barcelona, mas pelo Sevilla, que deixou de marcar pelo menos dois gols claros no segundo tempo) teve no segundo tempo um destacável Iniesta. Ele acalmou a bola no meio-campo, procurou a aproximação com Messi, acionou os lados do campo e exigiu mais de Rakitic, principal jogador sevillista na temporada, deixando o croata menos livre nas jogadas de ataque andaluza.

O 4×1 no placar saiu porque Messi brilhou, com dois gols e uma assistência, mas o papel de Iniesta na vitória não pode ser subestimado. Seu crescimento no jogo após um desastroso primeiro tempo coletivo do Barcelona e a goleada não foram coincidências. E é por isso que o camisa oito, de temporada irregular e longe da ótima versão de 2012/2013, precisa de mais partidas como essa. Outra grande vitória do Barcelona de Martino teve uma atuação positiva de Iniesta: o 2×1 no superclássico contra o Real Madrid.

Para conquistar sua vigésima-terceira Liga Espanhola num campeonato nivelado por baixo apesar do equilíbrio na parte de cima na atual temporada, concentração e individualidade de quem tem jogadores com capacidade de decisão alta podem bastar. Há uma temporada, quando Tito Vilanova teve que viajar para Nova Iorque para tratar de seu câncer e Jordi Roura assumiu provisoriamente o comando técnico do time, o Barcelona entrou em seu momento mais crítico. Porém, Roura teve 79% de aproveitamento durante seu pequeno período.

Uma temporada sem taças pode significar uma reformulação semelhante àquela feita em 2008, quando Joan Laporta deu fim a era Rijkaard, apostou em Guardiola e foi com força ao mercado. Justamente por isso será interessante ver como as intervenções no verão farão este time evoluir em 2014/2015. Afinal, será a hora de medir se realmente a diretoria e o corpo técnico caíram na real e viram que apostar em um Puyol semi-aposentado e nas opções das canteras não são os atos mais plausíveis a se cometer.

Sem planejar a temporada e as ações no mercado, o mais coerente seria dar uma segunda chance a Tata Martino, que provou ser um bom treinador em determinadas ocasiões. A correção da rota mal traçada nos últimos anos da gestão da cúpula de Rosell pode começar a ganhar andamento na temporada que vem. Por isso, o Barcelona de Martino poderá ser 100% entendido daqui a um ano. O argentino contará com reforços, planejará o aproveitamento de jogadores do Barça B e executará suas ideias com mais liberdade. Enquanto isso, “e lá vamos nós”.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.