Histórias das Copas #01 – A seleção do Rei

Em 1930, o mundo vivia em crise após o crack da Bolsa de Valores de Nova York no ano anterior. Mesmo assim, os dirigentes uruguaios prometeram bancar passagens, tanto nos trechos terrestres quanto nas travessias oceânicas, para todos os participantes da primeira Copa do Mundo, além de ajuda de custo a 17 jogadores por equipe e às federações locais.

A FIFA convidou todos os seus filiados, deixando claro o apoio financeiro do Uruguai. Mesmo assim, até a data de fechamento de inscrições, dois meses antes do torneio, nenhum país europeu se interessou em competir. O desinteresse europeu se deu porque eles entendiam que a competição deveria ser em seu continente, já que o tempo de viagens e permanência no torneio seria de cerca de três meses e a maioria dos jogadores não era profissional, ou seja, teriam que abrir mão de seus empregos durante o período da competição.

Chegaram a ser feitos convites para as seleções britânicas, que não eram integrantes da FIFA e também se negaram a participar da “aventura”. Foi necessária a interferência de Jules Rimet para quatro europeus toparem o desafio: Iugoslávia, Romênia, França (de Rimet) e Bélgica (de um dos vice-presidentes da FIFA). Dessas, a história mais curiosa, sem dúvida, é a da participação romena.

O rei romeno Carol II tinha acabado de retornar ao trono, após cinco anos fora de seu país, e queria a todo custo que a Romênia fosse representada na Copa do Mundo.  

Time da Romênia em 1930 (Foto: Getty Images)

Time da Romênia em 1930 (Foto: Getty Images)

Como os melhores jogadores da equipe eram amadores, tinham empregos fora do futebol. Assim, o rei lançou um decreto que estipulava que aqueles que fossem para a Copa teriam que ser liberados pelas empresas em que trabalhavam por três meses, sem risco de perda de emprego.

Certo toque de lenda apimenta a história – diz-se que o próprio rei teria convocado a seleção. Ioan Chirila, um dos maiores jornalistas esportivos da história da Romênia, apresenta a sua versão da história no livro Si noi am fost pe Conte Verd (E nós eramos o Conte Verde, em tradução livre). Segundo ele, não tinha como o rei saber quem eram os melhores jogadores, já que não poderia os conhecer tão bem morando fora do país.

A história surgiu porque na lista de convocação da equipe constava a assinatura do rei, junto à do técnico. A versão mais aceita é que o nome dele estaria lá apenas para reforçar sua imagem.

Mais dois fatos sobre a história nunca foram comprovados: o primeiro é que o rei também se arriscava a dar seus chutes na bola, durante os treinos da equipe no Conte Verde. A segunda é que a grande vontade de ver a Romênia na Copa era de sua amante, Magda Lupescu.

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Sergio Rocha é torcedor do Madureira e sempre teve o sonho de escrever sobre esportes em geral, embora tenha optado pela carreira de engenheiro civil. No "currículo", cadernos recheados de resultados esportivos e agendas da década de 90, quando antes da internet acessava rádios de diversos locais do país buscando os resultados esportivos do Acre à Costa Rica. Além de fanático por futebol, é fanático por praticamente todos os esportes, e no tempo livre que sobra sempre busca os últimos resultados esportivos do PGA Tour ou dos futures da ATP. Além disso, coleciona quadrinhos da Disney e é louco por astronomia.