Inter de Milão em: “Aprendam a fazer negócio!”

Hernanes na Inter: chance de quebrar histórico de péssimas negociações. (Foto: Reprodução)

Hernanes na Inter: chance de quebrar histórico de péssimas negociações. (Foto: Reprodução)

A Inter de Milão se tornou uma das protagonistas da última janela de transferências, contratando um dos jogadores mais disputados do futebol italiano. Nos últimos instantes do dia 31 de janeiro, o brasileiro Hernanes se tornou atleta nerazzurro, concretizando uma negociação que já vinha sendo especulada desde a abertura do mercado.

Para o meia, a transferência representou a realização do sonho de atuar em um dos gigantes do Calcio, que já faturou três Ligas dos Campeões e inúmeros scudettos. Mas para o clube milanês, Hernanes é mais uma tentativa de acertar a mão na hora de contratar, e assim, contrariar uma tendência que há pelo menos uma década assola o lado azul e preto da Lombardia: a dificuldade em fazer negócios que não sejam lembrados como bizarrices alguns anos depois.

Nós do Doentes por Futebol separamos algumas negociações que, certamente, ainda hoje provocam arrepios na torcida da Inter. Confira:

1) Fabio Cannavaro por Fabián Carini

cannavaro carini

Em 2004, a Inter tinha a seu serviço ninguém menos que Francesco Toldo, um dos melhores goleiros italianos de sua geração, além de nomes do quilate de Edgar Davids, Verón e Adriano. Mas os títulos não vinham, então, a diretoria do clube resolveu fazer algumas contratações – boa parte delas indicada por Roberto Mancini, ex-técnico da Lazio, que trouxe consigo alguns de seus ex-atletas, como Mihajlovic, Favalli e Stankovic.

Para dar profundidade ao elenco, então, era preciso trazer também um segundo goleiro de qualidade. Mas para que gastar com um jogador que teoricamente viria para ser opção, quando se podia apenas liberar um zagueiro bichado, que pouco vinha acrescentando ao time, certo?

A história se deu um pouquinho diferente do que calcularam os dirigentes da Inter: o tal zagueiro bichado estaria, dois anos depois, na festa de Gala da FIFA, recebendo o prêmio de melhor jogador do mundo, após ser o capitão italiano na conquista do tetracampeonato mundial. Ele ainda renderia à Juve cerca de € 10 milhões quando da sua saída rumo ao Real Madrid. Já o goleiro, após jogar apenas quatro partidas pelo clube milanês, seria cedido por empréstimo ao Cagliari para depois ser dispensado sem deixar qualquer lembrança no torcedor nerazzurro.

2) Clarence Seedorf por Francesco Coco

seedorf coco

Seu time tem uma carência na lateral esquerda. Seu arquirrival tem um talentoso jogador da posição, com passagens por todas as categorias de base da Seleção Italiana, e está disposto a negociá-lo. Parece uma bela oportunidade de negócio, não?

Héctor Cúper concorda. Em 2002, recém-chegado à Inter, viu em Francesco Coco, então cedido pelo Milan ao Barcelona, a solução para os problemas da lateral esquerda nerazzura. E para dispor do atleta, o treinador uruguaio colocou à disposição de Carlo Ancelotti ninguém menos que Clarence Seedorf, que estava há dois anos na Inter, vindo de boas temporadas – e grandes títulos – por Ajax e Real Madrid.

O negócio se mostrou uma total catástrofe para os nerazzurri. Enquanto Seedorf participou de uma das mais vitoriosas gerações do Milan, com dois títulos da Liga dos Campeões e uma série de conquistas domésticas, Coco se destacou mais como participante de reality shows na TV italiana, e sequer conseguiu se firmar na Internazionale. Após ficar encostado no clube durante alguns anos, passou por Livorno e Torino (ambos empréstimos) até encerrar, aos 30 anos, sua carreira de atleta profissional. Para focar em seu sonho de se tornar ator em Hollywood, onde mora atualmente.

3) Ricardo Quaresma

quaresma inter

Havia algum tempo a Inter não fazia um negócio tão bombástico. No início da temporada 2008-2009, o clube foi ao Porto buscar o “Mágico” Ricardo Quaresma: um jogador que era, possivelmente, o jogador mais promissor do futebol português. Totalmente consolidado na Liga Sagres, o rei dos passes de trivela encarava o maior desafio de sua carreira. E o clube nerazzurro, por sua vez, investia € 18,6 milhões (mais a cessão do volante Pelé) na expectativa de garantir os melhores anos de um dos maiores talentos do continente.

Não foi preciso mais do que seis meses para ficar claro ao treinador José Mourinho e à torcida interista que a aposta tinha sido uma imensa furada. Quaresma simplesmente não conseguia se encontrar nas partidas, e chegou a ser criticado acintosamente pelo ‘Special One’ por sua incapacidade em compreender o seu papel dentro do time.

Após ceder o português por empréstimo ao Chelsea ainda no inverno de sua temporada de estreia, a Inter não conseguiu repassar a mercadoria tão cedo. O jogador ainda passou toda a temporada 09/10 encostado, sem atuar, até ser contratado, por € 7,3 milhões, pelo Besiktas – deixando na Itália a sensação de que o prejuízo de “apenas” € 11,3 milhões era motivo para comemorar.

4) Mancini

mancini inter

Junto com José Mourinho e Ricardo Quaresma, chegava também à Inter de Milão um dos principais destaques do futebol italiano. Vindo da Roma por cerca de € 13 milhões, o brasileiro Mancini era desejado pela diretoria da Beneamata havia muitos anos. Ele encaixava perfeitamente no esquema planejado pelo treinador português, e como já estava completamente adaptado ao Calcio, era tido como um reforço que não precisaria de um período longo de adaptação.

Mas a primeira impressão que Mancini deu à torcida interista foi que havia esquecido todo o seu futebol na capital. Atuações apagadas fizeram o jogador perder, aos poucos, seu espaço dentro do elenco nerazzurro, e assim ele foi se tornando nada mais do que uma opção para o final das partidas. Na temporada seguinte, foi emprestado (com opção de compra) ao arquirrival Milan, onde tampouco foi capaz de repetir o bom futebol apresentado na Roma. No total, foram 27 jogos e um gol marcado a serviço da Inter.

5) Christian Brocchi e Andrea Pirlo por Guly e Drazen Brncic

pirlo guly

Andres Guglielminpietro, ou simplesmente, Guly. Era este o objeto de desejo da Inter no início da temporada 2001/2002. O meia argentino, revelado pelo Gimnasia, vestia a camisa do Milan havia três temporadas. Nas duas primeiras, teve boas sequências, foi útil ao clube rossonero e até participou da conquista de um scudetto. Na terceira, no entanto, passou a ser visto como uma opção de elenco, e logo entrou na lista de negociáveis. Ou seja, sinal verde para a Beneamata tentar a sua contratação.

O negócio não tardou a sair. A Inter, ao invés de gastar dinheiro, preferiu promover mais uma troca com seu arquirrival. E mais uma vez, usou de toda a sua “esperteza”. Cedeu ao Milan dois atletas: um jovem meia-atacante, pouquíssimo utilizado no time principal, e um volante que vivia às voltas com problemas de lesões, em troca de um outro volante e daquele que seria uma de suas contratações importantes para a temporada.

A troca seria de uma malandragem épica se o meia em questão não fosse, ainda, um jogador com qualidades a serem descobertas. Acontece que o técnico Carlo Ancelotti fez de Andrea Pirlo um dos melhores volantes do mundo. Um “regista” clássico, de passes e lançamentos extremamente precisos, que ajudou o Milan a conquistar duas Champions e alguns títulos italianos. O volante Brocchi, o outro envolvido na negociação, também foi peça útil em todos esses títulos. Já a Inter, por sua vez, viu o argentino Guly se revelar um jogador absolutamente incapaz de levar o clube a outro nível. Após três anos de contrato com os nerazzurri (um deles, cedido ao Bologna por empréstimo), o meia – já na fase decadente de sua carreira – deixou o clube para voltar a atuar no futebol de seu país e, depois, aposentar-se no futebol árabe… só dois anos após o título mundial do Architetto, que segue em alto nível até os dias de hoje.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.