O possível legado da Copa

  • por Henrique Souza
  • 4 Anos atrás

(Feito em parceria com Douglas Fellipe, Elton Ramon, Pedro de Souza e Talita Barbosa)

Nos céus do imenso Brasil, emoldurados pela visão de dentro das Arenas da Copa do Mundo, cerca de quatro meses nos separam do grande evento. Segundo dados do Governo Federal, os custos para tal acontecimento estão orçados em 28,1 bilhões de reais, e há indícios que os gastos nas obras de infraestrutura, mobilidade urbana, a construção dos estádios, reforma dos aeroportos e segurança aumentaram em 66% devido aos atrasos das obras. Os protestos de junho evidenciaram uma fenda no governo com relação à próxima Copa do Mundo FIFA aqui no Brasil: não há retorno para o brasileiro. Com a cifra exorbitante, o país se vê cada vez mais fadado a presenciar os mesmos erros de eventos passados. A realização da Copa do Mundo, além do óbvio aspecto de entretenimento (ou de quase culto religioso, tamanha a seriedade de alguns torcedores), gera uma movimentação colossal de dinheiro que pode ser o pontapé na economia da nação ou uma verdadeira queda em um abismo.

Exemplos de grandes eventos esportivos de sucesso foram as Olimpíadas de 1984 em Los Angeles e a Copa de 1994, também nos Estados Unidos. Com bastante investimentos privados, as cidades não precisaram de alterações consideráveis na infraestrutura, ocorreu um lucro considerável e essas conquistas econômicas beneficiaram a população: queda de inflação de 5,76% para 1,61% nos anos seguintes à Copa e de 12,80% para 4,50% na Olimpíada de 1984, segundo reportagem veiculada no iG. Outro exemplo de sucesso está nos Jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992. Por mais que os lucros fossem modestos, a realização desse evento modificou a cidade de forma que os habitantes foram beneficiados com restauração em áreas degradadas, melhorias no transporte público e um aumento na qualidade de vida em geral. Além disso, ao chamar a atenção do mundo, Barcelona tornou-se um ponto turístico de destaque.

Por outro lado, um exemplo com consequências desastrosas está na realização das Olimpíadas de 2004, em Atenas, Grécia. Apesar da realização do evento relembrar as glórias passadas e de alguns investimentos como em transportes terem beneficiado a população, a já não tão sólida economia grega não pode resistir aos gastos excessivos para a infraestrutura, financiados em boa parte pelo governo. As Olimpíadas inflaram e expuseram as fragilidades administrativas e econômicas do país: corrupção, subornos, burocracia, pouco controle das finanças públicas, falta de transparência, entre outros, causando um aumento no percentual de endividamento em relação ao PIB de 77,41% a 110,33%. Até mesmo o Complexo Olímpico Helliniko, planejado para ser o maior parque metropolitano europeu, não vingou e foi abandonado, sendo um gigantesco lembrete do fracasso e desperdício.

Foto:  AP Photo/Thanassis Stavrakis) - Fonte com anéis olímpicos abandonada em Atenas.

Foto: AP Photo/Thanassis Stavrakis) – Fonte com anéis olímpicos abandonada em Atenas.

Mais recentemente, mas não de forma menos controversa, realizou-se em 2010 a Copa do Mundo na África do Sul. O aspecto mais celebrado no evento foi a mudança na imagem sul-africana perante o mundo, ainda associada ao violento passado do Apartheid e da miséria geral do continente africano. A Copa transmitiu um ar de modernidade e união, além de ser uma nova opção turística.

No entanto, essa perspectiva positiva é duramente rejeitada por estudiosos. O pesquisador sul-africano e coordenador de campanhas para melhores condições de trabalho Eddie Cottle escreveu o livro South Africa’s World Cup: A Legacy For Whom? (Copa do Mundo da África do Sul: um legado para quem?) em que expõe o que seria o verdadeiro propósito e legado da Copa do Mundo: gerar quantias excepcionais de lucro para a FIFA e empresas multinacionais aos custos da exploração do território e do financeiro da nação sede – um projeto do neocolonialismo. A maior parte do dinheiro investido é estatal, com a quantia e destinos sendo determinados pela pressão de alcance ao “padrão FIFA”. Boa parte dos lucros é gerada pela população local. Os investimentos de infraestrutura são voltados a pequenas áreas isoladas de forma desigual e focalizando a Copa, e não o bem estar dos habitantes.

Os estádios também seriam outro desperdício: prejudicam estádios bons e menores que são abandonados, geram custos de manutenção proporcionais ao custo de construção e muitas vezes são destinados aos lucros de empresas privadas. Um exemplo já pode até ser encontrado no Brasil: a Arena Olímpica, criada para os jogos Pan-Americanos de 2007, agora se chama HSBC Arena e é voltado a empresas privadas. Um artigo da Human Sciences Research sobre a herança da Copa destrincha ainda mais os impactos negativos: a questão dos estádios já citada, os despejos, as numerosas migrações para os locais de jogos em busca de emprego seguidas pelo aumento do contingente de desempregados após o evento. A conclusão chegada é nada positiva: é praticamente impossível uma redução da pobreza com a realização dessas cerimônias e, muitas vezes, a sede termina por ter sua situação inicial ainda mais agravada com crises e prejuízos.

Problemas em obras públicas no Brasil não são uma novidade, e, com a realização da Copa, isso só se repetiu nesses sete longos anos de construções e reformas. Atrasos, superfaturamentos, acidentes graves, críticas à localização de diversas arenas, ao serviços de transporte e outras queixas. Tomando Recife como exemplo, as obras sofreram com uma longa demora para o seu início, desde a construção do próprio estádio até mesmo aos serviços de transporte público, no qual foi adotado um novo sistema, o BRT, cujas obras se perduram até os dias atuais, faltando pouco mais de quatro meses do início do evento, com previsão de entrega em maio.

Construída em São Lourenço da Mata, região metropolitana do Recife, a Itaipava Arena Pernambuco, feita pela Odebrecht, tem capacidade para 46 mil pessoas e um orçamento de 532 milhões de reais. A construção do Ramal Cidade da Copa e do Terminal Integrado de Cosme e Damião, localizado em um local onde moravam várias famílias que foram removidas e, muitas delas, até hoje aguardam indenizações, gerou críticas da relatora da ONU, Raquel Rolni, que afirmou que as obras estão produzindo sem-teto.
O acesso é feito pelos terminais TIP e Cosme e Damião. Porém, em épocas que não há jogos, apenas uma linha trafega pelo local. O Restaurante mais próximo na área externa da arena fica a cerca de 200 metros do local e o próprio responsável disse que pretende vender vagas de estacionamento durante os jogos, já que as da arena muitas vezes são insuficientes.

Foto: Elton Ramon - Vista do entorno da Arena Pernambuco.

Foto: Elton Ramon – Vista do entorno da Arena Pernambuco.

Muito além de um estádio no meio do nada, há um projeto maior que pretende, até 2025, construir uma verdadeira cidade em seu entorno, com direito a universidade federal, shopping, área de lazer entre outros. Além disso, a arena conta com a primeira usina solar do estado, realização de uma parceria da Odebrecht com a Neoenergia, que será responsável por até 30% da energia consumida pelo estádio e tem capacidade para abastecer população de até seis mil habitantes. Passando rapidamente pelas outras arenas, há acontecimentos e polêmicas ainda mais graves, como nas obras do Itaquerão e da Arena da Amazônia em que ocorreram acidentes graves e mortes.

Em relação a outros países, cujo investimento partiu de capital privado, o Brasil gastou mais do próprio bolso. Fazendo um breve levantamento, só em infraestrutura o país irá gastar R$ 8,5 bilhões, pois algumas cidades-sede sequer possuem mobilidade e transporte público de qualidade para o transporte dos torcedores. Em alguns estados, para a construção dos estádios, houve uma parceria público-privada, as chamadas PPP, mas que não chegaram a ultrapassar a soma de dois bilhões de reais, ou seja, valor irrisório se comparado ao dinheiro que saiu dos cofres públicos. Ademais, o país caminha em uma estrada sem retorno. Segundo alguns especialistas, o PIB poderá ficar próximo do zero. Quando somados os valores, eles quase se equiparam aos investimentos do PAC destinados a Educação, com R$, 5,8 bilhões; Defesa Nacional, com R$ 3,8 bilhões; e Saúde, que não supera os dois bilhões, ficando em R$ 2,8 bilhões, segundo dados do Plano Orçamentário Anual de 2014. Por outro lado, a FIFA (Federação Internacional de Futebol) irá custear um total de R$ 700 mi. Entretanto, estes investimentos serão para suas sedes e centros de mídias durante os jogos da Copa. Além disso, com a Lei Geral da Copa, a FIFA foi isenta de pagamentos de impostos sobre seus serviços no Brasil e de alguns de seus associados, gerando um mal-estar na população. Não obstante, com esses acontecimentos lamentáveis ao longo dos últimos anos de preparação para a Copa do Mundo, fez com que os brasileiros passassem da euforia de país anfitrião para uma nação das incertezas.

O Brasil parece ter superestimado os benefícios da Copa. A própria falta de interesse de investidores privados garante que os frutos do evento não serão tão palpáveis. Há, ainda, muitas dúvidas quanto a sua utilidade e futuras vantagens para a população em geral, e principalmente do entorno dos estádios. Tudo parece velado quanto às certezas sobre o legado da Copa do Mundo para as cidades-sede e todo o Brasil.

Foto: Reprodução -Protestos durante jogo da Copa das Confederações.

Foto: Reprodução -Protestos durante jogo da Copa das Confederações.

A empresa vencedora da licitação para a construção da Arena Pernambuco foi a Odebrecht. Começaram as obras em janeiro de 2011, que gerou até abril de 2013 cerca de 4.971 empregos, segundo dados do site da construtora. A empresa em parceria com o Ministério de Desenvolvimento Social desenvolveu o Programa Acreditar, que recebeu 2.500 pessoas para cursos de armador, ajudante civil, carpinteiro e pedreiro. (Diário de Pernambuco, 27/02/2011).

Algumas parcerias foram firmadas com entidades e escolas para a promoção do futebol, da Copa das Confederações e do Mundo. Em junho do ano passado, o mascote da Copa, Fuleco, visitou algumas escolas próximas ao estádio para um concurso de desenho, que propunha entrada das crianças em campo acompanhadas dos jogadores das seleções para as apresentações e o hino antes das partidas. Cerca de 350 foram escolhidas para todas as sedes onde houve jogos da competição.

Por sua parte, a Arena Pernambuco, em parceria com a ONG love.fútbol – que promove o futebol nos países e a integração da comunidade para a construção e conservação de campo de futebol – está promovendo a construção de um campo em Penedo de Cima, São Lourenço. Segundo o site da Arena, a conclusão da obra será no final de fevereiro e será um novo espaço de lazer e convivência.

Voluntários da Copa: Um capítulo à parte

O Comitê Organizador da Copa do Mundo lançou no dia 21 de agosto de 2012 o Programa de Voluntários da Copa do Mundo da FIFA Brasil 2014. Recrutados para trabalhar, principalmente, em dias de jogos e eventos festivos, segundo a Organização, que estabelece como requisitos para a função, além do poliglotismo, bom humor, proatividade e paciência, todos os interessados terão como recompensa uma oportunidade pessoal considerada pela entidade como algo “inigualável.” Além desse, que é o programa oficial, há também o Brasil Voluntário, projeto de voluntariado do Governo Federal que visa recrutar o maior número de pessoas nas 12 cidades-sede (Belo Horizonte, Brasília, Cuiabá, Curitiba, Fortaleza, Manaus, Natal, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo). A ideia, nesse caso, é criar uma rede de mobilização, que irá atuar, principalmente, nas áreas não cobertas pelo programa de Voluntários da FIFA, como: aeroportos, portos, terminais rodoviários e transporte sobre trilhos, entorno dos estádios, nas áreas de hospitalidade (pontos atrativos da cidade e eventos de exibição pública), centros abertos de mídia e a própria organização do evento.

Foto: Reprodução - Voluntários da Copa das Confederações.

Foto: Reprodução – Voluntários da Copa das Confederações.

Não há nenhum tipo de remuneração ou ajuda de custo para hospedagem e passagens. A jornada pode ser de até 10 horas diárias e a disponibilidade requisitada é de 20 dias, época total de duração do evento. Apesar disso, ao término das inscrições para o processo de voluntariado, a FIFA anunciou que 152 mil pessoas inscreveram-se para concorrer a 15 mil postos.

Enquanto isso, segundo um estudo da consultoria BDO, a FIFA lucrará, em média, 10 bilhões com o evento, através de direitos de transmissão, licenciamentos e patrocínio, além da isenção de impostos e do baixo custo que terá com o evento, já que obras de infraestrutura, construção de estádios e o custo do treinamento para os voluntários sairão dos cofres públicos.
Trabalhar gratuitamente para uma entidade que terá lucros bilionários com um evento faz com que o voluntariado na Copa seja um tema polêmico e discutível em sua essência. Há que ache que é apenas ser lesado por trabalhar sem salário, mas há pessoas que acham a experiência valiosa não somente para a área profissional, mas enriquecedora para o campo pessoal, também.

Impacto no Campeonato Brasileiro

O ano de 2014 tem tudo para ser memorável para o futebol brasileiro. Copa do Mundo, novos estádios, o melhor do futebol mundial aportando em nosso país… Mas o que vem acontecendo nos primeiros meses passa longe do conto de fadas esperado. Com a realização do mundial, as falhas no calendário do futebol brasileiro ficaram ainda mais evidentes. Clubes sem tempo para pré-temporada, intervalos cada vez mais curtos entre os jogos, entre outros problemas. Além disso, as constantes batalhas nos tribunais entre Portuguesa e Fluminense, Botafogo-PB e outros clubes acabou manchando ainda mais a imagem da entidade maior do esporte no Brasil, a CBF, e da liga nacional de futebol.

A realização de uma Copa do Mundo no país poderia ser o impulso necessário para um crescimento na qualidade do Campeonato Brasileiro como um todo. Não apenas com a chegada de melhores jogadores (fato que já está ocorrendo há alguns anos), mas com uma melhora na estrutura dos clubes, aumento na renda conseguida com produtos além dos ingressos, enfim, uma grande oportunidade de melhorar o cenário atual.

O Brasil ocupa hoje a 31ª posição em ocupação dos estádios de futebol no mundo. Com arenas mais modernas, os torcedores podem se sentir mais estimulados a ir ver seu time ao vivo, desde que o trajeto até o estádio seja minimamente tolerável. Uma vez lá, podem gastar mais do que normalmente gastam em um campo mais desconfortável e sem opções como praça de alimentação e loja oficial, elevando as receitas dos clubes.

Uma vez aumentadas as receitas, o poderio financeiro dos clubes também cresce, possibilitando não somente aos times trazerem melhores jogadores, como segurar os que já estão na equipe. Com times mais fortes, a tendência é de melhores campanhas, aumentando os públicos, e voltando ao ponto inicial. Uma mudança para melhor no nível da estrutura trará jogadores de outros países, também. Com a chegada de estrangeiros de países diferentes, especialmente além da América Latina, novos mercados consumidores podem se abrir ao Campeonato Brasileiro.

Foto: Reprodução - Seedorf poderia abrir as portas para outros grandes jogadores europeus no Brasil.

Foto: Reprodução – Seedorf poderia abrir as portas para outros grandes jogadores europeus no Brasil.

Embora seja hoje o 6º maior mercado do futebol mundial, nosso país não aproveita o seu potencial. Para efeito de comparação, em 2008, o Campeonato Inglês conseguia 425 milhões de dólares com a venda dos direitos de transmissão para fora da Inglaterra, enquanto o Brasileirão lucrava apenas 1,5 milhão. Um novo modelo de repasse dos direitos das transmissões também se faz necessário. Países como a Alemanha, que destinam metade dos direitos de forma igualitária para os clubes, e a outra metade de acordo com a colocação no ano anterior, podem ser adotados como exemplo.

Independente das queixas (muitas delas justas, diga-se de passagem) da população, a Copa do Mundo é uma oportunidade extremamente valiosa para valorizar o futebol nacional como produto comercial. Com uma mudança de atitude (e possivelmente de comando) da CBF e o apoio dos clubes, todas as partes envolvidas só terão a ganhar, especialmente o torcedor.

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Doente por futebol desde que se conhece por gente. Formado em Educação Física e estudante de jornalismo. Apaixonado por jogos e times clássicos. Considera Zidane, Ronaldo, Romário e Messi os maiores que viu jogar.