Quando o gol era exclusividade dos atacantes

Texto adaptado do blog Futebol Europeu Online

Foto: OM 4ever - Jaguar é o único goleiro a ter marcado pelo Marseille

Foto: OM 4ever – Jaguar é o único goleiro a ter marcado pelo Marseille

Foram décadas e mais décadas em que o europeu só via no futebol brasileiro ginga, habilidade e atrevimento com a bola no pé. Jogador do nosso país era sinônimo de drible, ousadia e, por vezes, imaturidade também. Somente nos anos 2000 essa imagem ganhou novos contornos e os defensores com sangue verde e amarelo passaram a aparecer nos gramados do Velho Continente.

Um dos marcos mais fortes foi a presença de goleiros nos principais clubes europeus. Júlio César, por exemplo, foi considerado o melhor jogador da posição defendendo a Internazionale por vários anos. Dida também alcançou status parecido vestindo a camisa do rival Milan na metade da última década. A Roma chegou a ter Doni, Júlio Sérgio e Artur como seus goleiros. O último alçou voos mais altos e é destaque do Benfica há algumas temporadas. Todos eles foram impulsionados por Cláudio Taffarel, personagem importante da história do turco Galatasaray entre o final dos anos 90 e início dos 2000.

Curiosamente, a França, país onde Juninho Pernambucano, Carlos Mozer, Jairzinho, Paulo César Caju, Sonny Anderson, Raí e outros brasileiros marcaram época, não possui um grande registro de goleiros tupiniquins em seus principais clubes. Os franceses, aliás, sempre gostaram de apostar em atacantes de nosso país, mas arqueiros era algo raro.

Mais curioso ainda é que o Olympique de Marseille, time especializado em “flops” brasileiros, como Fernandão, Marcelinho Paraíba, Adriano Gabirú e Édson “Canhão” (considerado sucessor de Roberto Carlos), possui a história mais interessante envolvendo um goleiro de nosso país em terras francesas.

Entre 1936 e 1939, o carioca Jaguaré Bezerra de Vasconcellos defendeu a camisa do OM com maestria. Por lá, fez 69 jogos, todos como titular. Ao todo, foram 40 vitórias, 13 empates e 16 derrotas. Ergueu um troféu do Campeonato Francês e um da Copa da França. No Brasil, ele também fez história com a camisa do Vasco da Gama antes de jogar por uma temporada no Barcelona.

Em seus três anos na cidade litorânea da França, Jaguaré, ou Vasconcellos para os franceses, foi de extrema importância para o primeiro dos nove títulos nacionais do Olympique de Marseille. Le Jaguar, como era apelidado, foi vazado 39 vezes na temporada 1936/37, fazendo com que o saldo do OM fosse de 30 positivos contra 14 do Sochaux. Essa diferença de gols deu o título para os marselheses, pois os dois times terminaram a competição com 38 pontos.

Na temporada seguinte, Jaguaré entrou de vez para o hall de ídolos do Marseille na 29ª rodada do Campeonato Francês. O adversário da ocasião era o tradicional FC Sète, e a partida ficou marcada pelos vários pênaltis assinalados, momentos propícios para um goleiro fazer seu nome. Etretanto, nosso personagem decidiu fugir do padrão para fazer história.

O primeiro dos pênaltis foi para o OM, quando já perdiam pelo marcador mínimo. Vilmos Kohut, cobrador oficial, não estava jogando; Aznar, que seria o atirador imediato, estava baleado e fazia número em campo; Ferdinand Bruhin, capitão do time, parecia relutante em bater e tomou uma decisão ousada: apontou para a meta e chamou Jaguaré para a cobrança.

Para o contexto histórico, aquela medida era maluca, afinal, um goleiro nunca havia cobrado um pênalti, mas para a vida do brasileiro não era nada de outro mundo. Reza a lenda que Jaguaré adorava “brincar” embaixo dos três postes fazendo defesas malucas. Uma das histórias é que só não foi mandado embora do clube mais cedo após fazer uma defesa de bicicleta contra o Racing porque o Marseille venceu a partida.

Em matéria da Revista Placar, na edição 1354, Jaguaré é descrito como “Garrincha das metas”. O goleiro foi apresentado como uma pessoa irreverente, brincalhona em campo. Ele nem ao menos sabia ler ou tinha ciência do dia em que nasceu. Foi ponta, atacante, lateral e só parou embaixo dos postes no Vasco da Gama.

Mas, voltando ao pênalti de 1938, Jaguaré, incorporando seu estilo malucão, foi para a bola sorrindo. Com a confiança que poucos ou talvez nenhum outro goleiro teria, ele converteu a penalidade e igualou a partida em 1×1, placar que seria o definitivo, pois o brasileiro ainda defenderia dois tiros da marca fatal do FC Sète.

Alguns blogs e sites apontam que Jaguaré teria feito um gol de pênalti no jogo seguinte, decisão da Copa da França de 1938, contra o Metz, porém esta informação não é confirmada. Fontes como o “OM Stats Club” e o próprio site da Federação Francesa de Futebol desmentem tal notícia, creditando os gols da vitória por 2×1 do Marseille aos jogadores Kohut e Aznar.

Foto: OM 4 ever - Com Jaguar na meta, o Marseille conquistou a Copa da França em 1938

Foto: OM 4 ever – Com Jaguar na meta, o Marseille conquistou a Copa da França em 1938

Portanto, o gol de Jaguaré contra o FC Sète foi, e é até hoje, o único tento anotado por um goleiro na história do Olympique de Marseille, o segundo maior campeão francês e único time do país a conquistar a Liga dos Campeões da Europa.

É um ídolo do clube. Pelo que foi. Pelo que fez. Pelo que representou. Pelo que conquistou. E, acima de tudo, pela contribuição ao engrandecimento do Marseille.

Comentários

Uma mistura maluca de pessoa. Academico de jornalismo, catarinense de origens italianas e espanholas, mas apaixonado pela bola que rola na terra da Torre Eiffel e pela gorduchinha que pinta os gramados cheios de chucrute da Alemanha. Não escondo minha preferência por times que tem uniformes nas cores amarelas e pretas, mas sempre com análises bem embasadas... ou não. Mas acima de tudo, sou um Doente Por Futebol.