Uma grande contratação, um problema maior ainda

Foto: PSG.fr - Khelaifi disse que não traria ninguém na janela, mas por fim contratou Cabaye

Foto: PSG.fr – Khelaifi disse que não traria ninguém na janela, mas por fim contratou Cabaye

O presidente do Paris Saint-Germain, Nasser Al-Khelaifi, disse ainda em janeiro que o clube não precisava de nenhum jogador e que não contrataria ninguém nesta janela de inverno. Um mês depois destas declarações, podemos dizer que a entrevista foi da boca pra fora. Por cerca de 25 milhões de euros, o clube parisiense tirou o meio-campista Yohan Cabaye do Newcastle United, da Inglaterra.

Ótimo reforço, sem dúvida alguma. Afinal, não falamos apenas de um dos destaques da Premier League, mas também de uma das peças-chave da seleção francesa na Copa do Mundo. Porém, a dor de cabeça no treinador Laurent Blanc será maior do que a representação da negociação.

O PSG não é somente o líder do Campeonato Francês com 54 pontos em 23 partidas, mas também o time que apresenta o futebol mais vistoso da França. Com um meio-campo forte, de excelente toque de bola e com ótimas peças de reposição, Blanc tem muito a explicar sobre a contratação de Cabaye. Afinal, onde ele entra?

O trio titular, formado por Thiago Motta, Blaise Matuidi e Marco Verratti, é vital para o funcionamento do time parisiense. O ítalo-brasileiro faz bem o combate na faixa central e tem boa saída de bola. Além disso, Motta é válvula de escape da equipe com precisos lançamentos do círculo central. Sem falar que é um dos homens da bola parada do Paris. Quanto ao meia francês, seria totalmente injusto sacá-lo do time titular. Vital na marcação e nas subidas como elemento surpresa, Matuidi demonstra ter 20 pulmões em campo. Já Verratti acordou para vida. Após temporada insossa e marcada por 11 cartões amarelos, o italiano vem tendo excelentes atuações este ano, sendo peça-chave na criação de jogadas parisienses e fazendo jus ao estrondo que foi sua contratação. Porém, a questão disciplinar ainda é um peso que carrega, tendo recebido sete cartões amarelos em 18 partidas no Campeonato Francês.

Caso um desses três faltasse ao jogo, Blanc não poderia reclamar que lhe faltam opções. O jovem Adrien Rabiot, de apenas 18 anos, tem se firmado cada vez mais no time principal do PSG e já acumula mais de 20 partidas na temporada. Técnico e de ótimo passe (segundo WhoScored, ele acertou 90,8% dos passes que tentou na Ligue 1), Rabiot tem imenso futuro pela frente, podendo, inclusive, ser um dos principais atletas franceses nos próximos anos.

Javier Pastore, apesar de ainda estar muito abaixo do que o que foi prometido quando contratado, é uma opção válida para atuar na função. Também na base do PSG é possível encontrar novos talentos para a posição, como Romuald Lacazette, de 20 anos, ou até mesmo Franck-Yves Bambock, de 18.

Cabaye não chega pra ser reserva. Digo isso pela bola que joga e pelo preço investido. Azar de Blanc, que terá de encaixá-lo de alguma forma e ainda ser injusto com alguém. A trinca de meias está bem azeitada e os reservas cumprem seus papéis com maestria.

Mudança de esquema

O PSG atual joga num 4-3-3, mas com Zlatan recuando para também atuar como armador

O PSG atual joga num 4-3-3, mas com Zlatan recuando para também atuar como armador

Uma das poucas formas que vejo de Blanc colocar o novo reforço no time sem desarticular o trio Motta-Matuidi-Verratti seria alterar o esquema 4-3-3. É fato que, apesar do bom futebol, o PSG ainda não achou o terceiro atacante ideal. Ezequiel Lavezzi, o titular, oscila demais. Tem mais movimentação que os concorrentes, mas rende pouco, tendo mesma quantidade de gols e menos assistências que Lucas (ambos marcaram três vezes, mas o brasileiro deu cinco passes a gol contra zero do argentino). O brasileiro, em contrapartida, faz boa temporada (sim, boa temporada), apesar de não ser titular inquestionável. Apesar do baixo número de gols, ele é, segundo WhoScored, o quarto atleta que mais finalizou pelo PSG. O mesmo site ainda o elegeu “homem do jogo” em quatro oportunidades, perdendo apenas para Ibrahimović. Ainda assim, peca em alguns quesitos, como avanço à linha de fundo. Lucas tem o vício de driblar para o meio, onde sempre há um bloco de adversários, o que torna suas jogadas pouco úteis.

Pela oscilação de Lavezzi e a falta de afirmação de Lucas, entendo que seria prudente Blanc ao menos testar o 4-3-1-2, tendo Cabaye como o “1” do sistema. Apesar de volante, o camisa 4 parisiense sabe atuar mais à frente, apesar de não ser sua função de melhor desempenho.

Uma alternativa para Blanc pode ser a utilização de Cabaye como armador, sacando um dos homens de frente

Uma alternativa para Blanc pode ser a utilização de Cabaye como armador, sacando um dos homens de frente

Este sistema manteria algumas características fortes do time, como o avanço dos dois laterais (van der Wiel e Maxwell) e a presença ativa dos volantes no jogo ofensivo. A mudança mais significativa seria o posicionamento mais fixo de Ibrahimović no ataque.

Tenho por hábito dizer que o PSG já joga num 4-3-1-2 porque o sueco fica pouco na área. Parece mesmo um armador. Ele volta ao círculo central, articula jogadas, trabalha com os homens de lado – enfim, é ele quem cria. Se Blanc vier a testar esse sistema com Cabaye, Ibrahimović provavelmente não terá a mesma liberdade.

Espaço x Aproximação

Dois pontos são de suma importância nesta negociação e devem ser citados:

1) Durante o período de especulações, o L’Equipe noticiou que Ibrahimović e Thiago Silva seriam contrários a contratação de Cabaye. O motivo principal seria que os dois entendiam que um jogador tão caro viria para jogar e que a situação atual do time faria com que ele não tivesse espaço. A princípio, seria um caso de ciúme ou algo do gênero, mas vamos com a versão do L’Equipe;

2) Desde que chegou ao clube, Nasser Al-Khelaifi ressalta a importância de querer aumentar a relação do PSG com a França. Não à toa, trouxe Blanc como técnico, quando poderia ter ido atrás de alguém mais gabaritado. Quando Cabaye chegou, Khelaifi deu o mesmo discurso e disse ser importante o Paris trazer atletas franceses;

É importante dizer que, ao menos a mim, Khelaifi não parece ser um daqueles donos de clubes malucos que gastam de qualquer maneira e estão se lixando para os times. O catariano vive no PSG, acompanha todos os jogos, não se nega a dar entrevistas e tem essa pretensão de relacionar o clube com a França, algo que penso ser legítimo, principalmente por se tratar de um time de uma grande capital da Europa, mas que não era uma potência no próprio país.

No caso de Cabaye, apesar de lembrar atos de “um daqueles donos de clubes malucos”, fiquei com a nítida impressão de que a ordem veio de Blanc. O treinador é profundo admirador do atleta e foi o primeiro a levá-lo para a seleção. Pelas entrevistas de Khelaifi após a contratação, isso fica subentendido, vide a frase “me disseram que ele é um cara legal”.

É bom que Khelaifi, e principalmente Blanc, saibam o que estão fazendo. Qualquer resultado, positivo ou negativo, será responsabilidade da dupla.

Comentários

Uma mistura maluca de pessoa. Academico de jornalismo, catarinense de origens italianas e espanholas, mas apaixonado pela bola que rola na terra da Torre Eiffel e pela gorduchinha que pinta os gramados cheios de chucrute da Alemanha. Não escondo minha preferência por times que tem uniformes nas cores amarelas e pretas, mas sempre com análises bem embasadas... ou não. Mas acima de tudo, sou um Doente Por Futebol.